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DE OLHO NA EDUCAÇÃO

Claudia Costin: "É preciso pisar no acelerador!"

A diretora de Banco Mundial faz um alerta sobre a urgência de mudanças na educação do nosso País!


17/12/2014 17:59
Texto Marion Frank
Educar
Foto: Maurício Mello
Foto: Otimista, Claudia acredita que estamos no caminho certo para melhorar a educação, mas que ainda falta um bom caminho para percorrer
Otimista, Claudia acredita que estamos no caminho certo para melhorar a educação, mas que ainda falta um bom caminho para percorrer

Desde maio passado, Claudia Costin é a diretora de educação do Banco Mundial, à frente de uma equipe de cerca de 300 funcionários com atuação na Ásia, África, Europa Oriental e América Latina. Paulistana de 58 anos, Claudia deixou o Rio de Janeiro, onde era secretária municipal de educação desde 2009 para viver em Washington (EUA) e assumir o cargo de projeção internacional. Tem o sentimento de que os resultados obtidos à frente da secretaria pesaram a seu favor na seleção do banco. "Conseguimos fazer com que duas escolas públicas, de regiões muito violentas, se tornassem as melhores da cidade", celebra. Sim, Claudia Costin é, sobretudo uma otimista. E, mesmo ciente das defasagens em todos os níveis do ensino brasileiro, ela faz questão de ressaltar que o governo está mexendo onde é preciso mexer "e as mudanças estão acontecendo no caminho certo".

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Só o ritmo é lento e precisa de aceleração, urgente. Caso da formação dos professores com ênfase na didática, incluindo a específica, por exemplo. Especialista em políticas públicas e conselheira do Educar para Crescer, Claudia tem muito a dizer e avaliar. Conheça suas ideias a seguir.

Para ler, clique nos itens abaixo:
1. Como vai a nossa educação?
Claudia: Talvez a minha resposta vá chocar um pouco, mas eu entendo que nós estamos no caminho certo, só não estamos no ritmo certo. Por quê? Estamos mexendo nas peças que precisam ser corrigidas, veja o caso do currículo nacional... A Coreia, a Finlândia e o Chile, para pegar o melhor exemplo da América do Sul, todos têm uma base curricular - e o Brasil, não. E estamos finalmente a trabalhar nisso.
2. O novo Plano Nacional de Educação (PNE) aponta nessa direção...
Claudia: Sim. Também estamos trabalhando em fortalecer a educação inicial - o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa -, que é muito bem concebido, pode-se discutir a questão de a alfabetização ter sido determinada até os oito anos, quando deveria ser até os sete anos, mas essa é uma questão secundária frente ao fato de se investir maciçamente na formação do professor alfabetizador. Estamos indo também na direção correta no sentido de pensar mais horas na escola, o ideal seria entre seis e sete horas que permitisse cobrir um bom currículo... Ou seja: não é para ficar mais horas na escola para ter aulas de artes ou esportes, não sou contra isso, não, mas precisamos mais horas de ensino nas disciplinas em que demonstramos estar frágeis - Matemática, Leitura e Interpretação de Texto, que, por sua vez, prejudica o entendimento de História e Geografia, e Ciências, que é a base do desenvolvimento da mente investigativa.
3. O que demonstra que os nossos alunos estão frágeis no básico do básico...
Claudia: É, deveriam ser sete horas por dia de aulas, enfatizando essas disciplinas... Pode não soar muito poético, mas é isso o que tem de ser feito, o que está sendo discutido claramente na agenda do PNE. Agora, o que tem caráter de urgência - e finalmente começaram a dar os primeiros passos nessa direção - é repensar a formação dos professores. Bernadete Gatti, pesquisadora que eu admiro muito, fala que nós formamos professores, enfatizando fundamentos genéricos da educação e não a prática docente... Por que acho que estamos agora na direção correta? Criaram o Programa de Residência Pedagógica (PRP) cerca de um ano e meio atrás, o que foi um grande avanço... Mas, quando você olha para o currículo da universidade, vamos dizer que você pretende se tornar um professor de Biologia do ensino médio, pois bem, você terá, em média, três anos de aulas de Biologia e um ano de Filosofia da Educação, Sociologia da Educação, História da Educação e Psicologia da Educação, e com isso você vai virar professor. E o que você aprendeu de didática de Biologia? E o que você aprendeu para ensinar Biologia ao aluno com deficiência? Nada. A Finlândia, quando fez a sua revolução em educação - e eles já eram um país que tinha coesão social como hoje... -, o primeiro passo que deram foi reinventar a formação dos professores na universidade.
4. Quando começou a revolução do ensino na Finlândia?
Claudia: Há uns 40 anos... Então, é preciso formar o professor como se fosse para uma vocação, um curso que deveria ser profissionalizante, como é a medicina. A primeira vez que falei a respeito, ouvi o comentário "ah!, mas isso degrada...". Bem, em primeiro lugar, curso profissionalizante não degrada coisa alguma; e, em segundo, a medicina é profissionalizante - e alguém vai chamar esse curso de degradante? Porque antes, quando existia a Escola Normal, a formação dos professores era um curso profissionalizante; depois, ao passar para a universidade, ela passou a formar professores como quem forma pesquisadores em educação... O Brasil precisa desses pesquisadores, mas os cursos deveriam ser distintos. Há, portanto uma ênfase exagerada na teoria. E o pobre professor - e, nesse sentido, acho o professor uma vítima... -, ele, sem contato nenhum com sala de aula, com uma formação que não o prepara para o exercício da profissão (salvo honrosas exceções...), ele vai cair na classe onde terá o seu primeiro contato com o aluno. O concurso público desse professor não tem prova prática (só na Universidade essa prova acontece...) e ele está lá, sem mentor ou supervisor, com uma classe muito mais democrática do que antes, com crianças de vários estratos sociais, além daquelas com deficiência (que ele não sabe como incluir porque não foi preparado para isso...). Enfim, nesse ponto, nós precisamos realmente pisar no acelerador.
5. De um modo geral, você considera o atual PNE é positivo?
Claudia: Sim, mas quero acrescentar uma vírgula, democracia envolve formação de consensos. E há múltiplos interesses e visões associados à educação. Nunca imaginei o PNE como o plano de um governo totalitário, com uma visão única de educação... Graças a Deus, o Brasil não é assim. Mas, as aparentes inconsistências e imprecisões do PNE refletem o debate democrático que existe sobre o tema no Brasil. E tem de ser assim.
6. Contudo, em razão desse longo debate, não se perde ainda mais tempo para colocar as mudanças em marcha?
Claudia: Perde, mas se você tivesse uma visão única e linear do plano, sabe o que iria acontecer? Não seria implantado. É preciso considerar o chamado Zeitgest, o espírito de época - nós ainda não temos uma visão mais ou menos uniforme sobre educação e o PNE reflete essas incertezas... Mas ele é melhor do que o anterior, ele tem menos metas.
7. Só que, desculpe a insistência, o PNE anterior nem saiu da gaveta... Então, como é que fica?
Claudia: Veja, a sociedade está muito mais atenta. E, com a minha experiência em políticas públicas, posso lhe dizer que o avanço da administração pública tem a ver com o avanço da sociedade em se conscientizar do seu papel - quando há pressão por educação de qualidade, e até mesmo o cidadão que não tem filho na escola pública acha importante essa luta, aí sim, a situação começa a mudar. A educação passa a fazer parte da agenda política - e não apenas da agenda teórica. Os políticos começam a dizer o que deveria ser feito - e não só sobre o salário do professor, que é algo importante, lógico, mas não é a única coisa que precisa mudar.
8. E, nesse sentido, o IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), é uma ferramenta que ajuda o cidadão a controlar a qualidade da escola do seu filho...
Claudia: O IDEB é um grande avanço. Aliás, uma das coisas que me faz confiar de que estamos finalmente no caminho certo em educação é que começamos a medir! Quando foi criado o IDEB, tudo se tornou mais claro. No Rio de Janeiro, por exemplo, há uma escola na Maré, rodeada de um ambiente ultraviolento, a Antares, ela é uma das melhores da cidade, com crianças que moram nessa favela - ou seja, o bom trabalho da diretora dessa escola pôde aparecer. E a melhor escola pública do Rio fica em outra comunidade violenta, a da Paciência, e ela teve um IDEB de 8,7!!!
9. Você está se referindo a que ano?
Claudia: Foi divulgado agora, portanto são dados de 2013. Um susto geral, ninguém sabia! E isso só veio à tona por causa do IDEB. Antes, todos achavam que as boas escolas ficavam apenas nos bairros de classe média, bem, na média, tende a ser isso. Acontece que agora aparecem esses exemplos de escolas que alcançam grandes resultados, apesar das dificuldades, enquanto há escolas com bons diretores que não conseguem melhorar tanto quanto deveriam...
10. Seria o caso de dizer que a gestão de uma escola é o fundamental em nome da qualidade do seu ensino?
Claudia: A gestão é importante, mas fundamental é o professor. Dentro de uma mesma escola, há professores dedicadíssimos - e outros, nem tanto. Quanto à gestão, ela é decisiva. Lembro-me de escolas vizinhas, em um mesmo bairro de classe média baixa, com os mesmos recursos, uma avaliada como excelente e a outra, uma das piores do Rio de Janeiro...
11. Recapitulando, devemos então apontar a formação dos professores e o currículo, nessa ordem, como os problemas prioritários da nossa educação?
Claudia: Eu diria que ambos têm de ser trabalhados em paralelo. Didática é algo importante, mas didática específica, como a de Matemática, também - e ela foi tirada do currículo da universidade, deveria voltar, e com urgência... E há um movimento nessa direção. Entenda. Para ter resultado, o professor deve induzir ao erro, em Matemática. No seguinte sentido: como é que você entende e se aprimora em Matemática? Descartando as hipóteses equivocadas. E o professor precisa fazer o aluno verbalizar o que foi descartado para ser retrabalhado de outra maneira. O engano precisa ser refletido por toda a classe, ela precisa raciocinar matematicamente - e não simplesmente resolvido pelo professor no quadro negro... Expor a solução não ajuda em nada, o aluno não ganha clareza sobre a regra a ponto de resolver o problema sozinho, quando o professor não estiver junto.
12. Aí está um exemplo, portanto de didática específica...
Claudia: Sim, essa reflexão tem a ver com a didática de Matemática. Na língua, precisa trabalhar muito com a leitura, o aluno tem de decodificar e entender o texto, o professor precisa fazer com que o aluno reflita sobre o leu para depois estar apto a escrever sobre isso, enfim, é outro tipo de didática...
13. E como seria, em sua opinião, o currículo ideal para a formação dos professores nas faculdades?
Claudia: Ele é extenso, mas haveria uma ênfase muito maior em prática. Não só a residência, mas sim em didáticas específicas, matérias que propiciem a simulação do que acontece em sala de aula, a observação de sala de aula - sabe, acabo de chegar da Coreia, onde visitei várias escolas, e o que me impressionou muito foi a presença constante de professores de outras escolas que, em seu horário de formação, passavam o tempo observando a sala de aula, o que o colega fazia, a reação dos alunos... Observação de sala de aula deveria fazer parte do currículo!
14. Mas aí vamos mexer em um vespeiro...
Claudia: E como vamos! Mas tem de mexer!
15. Enfrentar o corporativismo, o próprio MEC...
Claudia: O corporativismo, mais do que o MEC, para ser justa... Porque você não consegue se tornar um professor se não fizer essa observação e se não permitir que a sua aula seja observada por um colega... Não basta só a formação inicial, mas sim a formação continuada. Na Finlândia, por exemplo, há um investimento enorme nas duas formações. Um colega observa a aula bacana do outro para ter ideias e poder aplicar na sua própria aula - ou, por não ser bacana, seguir outro caminho. Em qualquer profissão a regra é a mesma, você aprende com teoria, é certo, mas também com a observação do que foi feito por colegas mais experientes ou até mesmo com colegas que cometem erros - e que você não vai querer repetir. Você acha que tem alguma probabilidade de dar certo, em pleno século 21, de um adolescente, sentado e enfileirado, olhando para o pescoço do colega em frente, copiar o que o professor escreve no quadro negro? Você acha que isso vai dar de algum jeito certo, seja em escola pública ou privada? Há uma grande insegurança por parte dos nossos professores, mas ela tem de ser resolvida...
16. E você disse que uma das grandes conquistas do atual PNE é o investimento no professor alfabetizador. Mas, isso é o mesmo que apontar, de outro modo, que nós estamos lá atrás em educação...
Claudia: É muito difícil dizer o que vem em primeiro lugar e o que vem em segundo lugar, quando há muito a corrigir... São peças de uma engrenagem. E uma das peças que tem papel decisivo para fazer essa aceleração na nossa educação que estou sugerindo é a formação do professor, seja qual for o nível. E apontei como positivo a residência pedagógica, mas ela não é suficiente, é preciso repensar o currículo - e eu sei que existe um grupo no MEC que está trabalhando exatamente com isso, na revisão do currículo da formação de professores... Mas eu acho que temos de trabalhar depressa, afinal, nós tivemos oito anos da mesma administração e só agora, no finalzinho, é que começaram a mexer com isso. Não dá mais para atrasar.
17. E você continua a ser otimista...
Claudia: Sim, é um defeito de fabricação.
18. Ok, mas você se mantém otimista quanto à educação ser definida como meta prioritária do segundo mandato do governo Dilma?
Claudia: Ela já é prioritária, só o governo ainda não pisou no acelerador. É gostoso ser analista de um fenômeno e dizer que está tudo errado... Mas não é verdade, tem muita coisa que foi feita, o que precisa é acelerar o ritmo. Foi feito o IDEB, alcançaram o PNE que era possível, criaram o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa, que é muito bom, há uma ênfase na educação infantil, creches, enfim, há uma serie de peças que está sendo trabalhada, não é que não está andando, não. Eu apenas acho que estamos atrasados e é preciso um sentimento de urgência.
19. E a respeito do investimento em educação, o que você teria a dizer? É verdade que os 10% do PIB já estão comprometidos com o que precisa ser feito ou é dinheiro que sobra, pois o problema é a má gestão?
Claudia: Acho que são as duas coisas. É preciso mais dinheiro e é preciso também boa gestão. Por que mais dinheiro? Educação é muito cara. E para tornar atrativa a carreira de professor você precisa pagar bem - e isso é o que há de mais caro em educação. Não basta atrair os melhores, mas sim aumentar o rigor na seleção dos professores e ter também um bom curso de formação... Se você der um sinal de que é difícil se tornar professor e se esse sinal for verdadeiro, você vai atrair os melhores profissionais e vai ocorrer uma valorização social muito maior do professor. Aí, você pode e deve aumentar a autonomia do professor para que isso se torne de fato um benefício para o aluno. Agora, é preciso ter um professor muito bem formado e com um currículo claro - que, aliás, não tira a liberdade do professor, é como a partitura de uma música... E material de apoio de qualidade. Ou seja, livros didáticos que mantenham diálogo com o currículo. Porque professor que segue apenas o roteiro do livro didático como seu plano de aula não é professor autônomo - ele se torna um escravo de um livro, que ainda não tem conexão com o currículo.
20. Como foi a sua experiência como secretária de educação no Rio de Janeiro? Sei que você gosta de falar a respeito...
Claudia: Sim, ainda mais por ter dado certo! E por qual razão? A primeira coisa é não ter medo de ousar, ver o que há de evidência que funcione em educação no mundo... A segunda é aquilo que ainda não está em evidência, mas dá para criar um experimento controlado, medir e ver se funciona. Dois exemplos. Finlândia e Coreia, os melhores do mundo em educação, têm um currículo preciso, portanto é evidente que isso funciona. Então, nós criamos um currículo municipal básico de modo a que o professor soubesse exatamente o que ele tinha de dar sobre a sua disciplina... Depois, fizemos o nosso próprio livro didático para complementar os já existentes e chamamos os nossos professores para elaborá-los, o que já serviu de valorização pessoal... Selecionamos uns 400 professores para criar cadernos pedagógicos, que incluiu aulas digitais. Claro, acertamos e erramos, mas foi muito bom, o professor de sala de aula sentia a própria autoria... Com isso, nós conseguimos casar o currículo com o material pedagógico que ajudava o professor a dar melhor a sua aula. Com uma ressalva: é de uso facultativo. Ou seja, o material está lá, ele usa quando precisar. A adesão? Os cadernos, quase todo mundo usa...
21. E o nosso termômetro de avaliação nacional de ensino, o IDEB, o que ele disse dessa experiência no Rio de Janeiro?
Claudia: Subimos 22 %, em dois anos, no IDEB. E na prova do 9º. ano, que é exatamente onde o País estagnou. Lembrando que a gente reprova, não tem mais aprovação automática no Rio de Janeiro... Foi uma decisão dolorosa, reprovar não agrega muita coisa para o aluno, mas tem uma ação forte sobre o professor - antes, ele pensava, ‘ah!, já que não vai reprovar, por que vou ser rigoroso?’ O que acaba passando uma visão de educação de segundo nível para os que frequentam a escola pública...
22. Como é mesmo essa história, o Brasil parou no 9º. ano do Ensino Fundamental?
Claudia: Na verdade, ele nunca melhorou... No 5º. ano, o País vem melhorando regularmente, mas não no 9º. E, no ensino médio, há outro gargalo...E o que acontece com o professor que dá aula do 6º. ao 9º. ano? Ele é um professor especializado em uma disciplina. Em minha última viagem, conheci a escola de formação de professores de Singapura, só existe uma e é pública. E me encontrei com o seu presidente, ele me informou que os professores de lá não podem se formar apenas em uma disciplina porque eles ficam tentados a acreditar que são especialistas em uma área - e não em aprendizagem de crianças e adolescentes. Esse é um dos nossos problemas. Porque o nosso futuro professor de Biologia não sabe se quer se tornar biólogo ou se quer de fato ser professor. Aí, no último ano, ele começa a ter disciplinas genéricas de Educação. Ou seja: o professor do 1º. ao 5º. ano é formado em pedagogia e se vê muito mais como um facilitador do processo de aprendizagem da criança - que é, em minha opinião, o professor do século 21. Já a partir do 6º. ano, você tem o professor de matemática, o de biologia... E sem ter aula de didática específica. Imagine um médico que faz o curso de história da medicina, filosofia da medicina, sociologia da medicina etc., e depois você diz para ele, vai lá cuidar do paciente... Não pode dar certo! E eu já levei pesquisa para o MEC, já falei a respeito... É um erro, a meu ver, o 6º ano não ser do Fundamental I.
23. Se o 6º ano pertencer ao Fundamental I, mudaria a situação?
Claudia: Mudaria. Porque, aos 11 anos, a criança ainda não está madura para receber o professor especializado em uma disciplina. Isso é ainda sequela de outros tempos, época da ditadura, quando cortaram o admissão. O que acontece? Um aluno ainda muito jovem tem de lidar com uma nova situação, organizar uma rotina sem ser capaz... E falta também o carinho do professor, a professora primária atua mais como ‘tia’, sabe que essa é a base. Então, no Rio de Janeiro, nós testamos, pegamos 385 turmas de 6º ano e colocamos no Fundamental I, com professor generalista, capacitado para essa função. E fizemos uma avaliação externa, no ano passado, para saber o rendimento dos 6º anos em geral e o dessas turmas... No exame de matemática, a nota foi 40% melhor no 6º ano com professor generalista do que com o professor especialista.
24. E, aproveitando o fato de você estar à frente de um cargo estratégico a nível mundial, como vai a educação brasileira em relação à América Latina?
Claudia: Hoje, o Brasil, em educação, está melhor que a Argentina e a Colômbia... A Argentina piorou muito! E vamos combinar que o PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), aquele teste que mede esses desempenhos, é muito bem elaborado porque não é centrado em decoreba, mas sim em competências, raciocínio matemático, leitura e interpretação de textos, raciocínio científico... Então, não era para o Brasil estar mal colocado (55º no ranking de Leitura, 58º, no de Matemática 59º, no de Ciências, resultados do Pisa de 2012). E a gente sempre diz que nós somos muito criativos, não é? Sabe quem tirou primeiro lugar na solução de problemas com criatividade? A Coreia, que você jamais imaginaria... O Brasil, entre 44 países, tirou o último lugar em criatividade. Mas, por incrível que possa parecer, somos o terceiro país que mais avançou em matemática nos últimos anos, segundo o último PISA, que teve os dados revelados em 2013.
25. Há alguma experiência internacional, a que você teve acesso recente, que mereceria ser aplicada no nosso País?
Claudia: Além do foco no currículo único e na formação de professores, há uma ênfase na educação infantil, tanto a creche quanto o apoio aos pais para cuidar bem das crianças, saber trabalhar melhor com elas, ler para elas, cuidar da alimentação, porque tudo isso vai ter impacto mais pra frente... E o exemplo das escolas de formação de professores, em Singapura, poderia ser seguido perfeitamente por aqui. Outro exemplo: o fato de o 6º ano ainda pertencer ao Fundamental I, prática vigente na Coreia, por exemplo.
26. E a respeito da tecnologia, como ela vem sendo utilizada em sala de aula nos países de ponta?
Claudia: Ela é muito importante, mas não basta colocar um computador na sala de aula... Laboratório de informática? Tende a desaparecer até porque o computador está cada vez presente na sala de aula. Computadores com conteúdos que dialogam com o currículo - só o computador, sem esse conteúdo, ele se torna fonte de diversão e de dispersão. Outra tendência: a aula expositiva é vista, em casa, sob a forma de um vídeo muito especial, que depois serve para o aluno trabalhar, em grupos, com o professor a aplicação do conhecimento que veio da aula expositiva. Então a situação se inverte: o dever de casa acaba sendo a aula expositiva; o professor trabalha até chegar ao conceito para depois o aluno ver a aula expositiva e trabalhar, na aula seguinte, com exercícios em sala de aula. A propósito: o Vietnã está hoje muito à frente em educação do Brasil, mas também dos Estados Unidos, o país com quem ele teve uma guerra. Por quê? Eles fizeram as coisas certas, currículo, livro didático único - uma opção deles -, mas que dialoga com o currículo...
27. Os Estados Unidos perderam o passo em educação?
Claudia: Os Estados Unidos não vão bem, eles estão na 39ª colocação ao passo que o Brasil está na 57ª. Mas, não se esqueça de que eles são a primeira economia mundial... O Canadá? Um dos melhores do mundo e tem, em sala de aula, a mesma diversidade de alunos, de línguas totalmente diferentes, que a de uma escola dos EUA - que, a propósito, só agora criaram uma proposta de currículo único, mas ele é por adesão, o que ainda cria problemas em todo o território... Tenho uma convicção profunda, eu acredito em educação de qualidade para todos e para cada um. Todas as crianças podem aprender e de maneiras diferentes, quem tem autismo vai aprender por outro método, enfim, com todas as individualidades respeitadas, mas mantendo alta a expectativa para todos, não é porque você é pobre que a expectativa tem de ser baixa...
28. Essa parece ter sido a sua luta no Rio de Janeiro, não foi?
Claudia: Sim, e nós conseguimos chegar lá, com as duas escolas públicas, em regiões de grande violência, que se tornarem as melhores da cidade até o 5º ano, as diretoras dessas escolas elevaram as expectativas, essa é a grande lição. Temos agora um experimento adequado para jovens, criamos, no Rio, os ginásios experimentais, todo ele pensado para o adolescente. Você começa o ano letivo com a seguinte questão, o que você sonha ser e aprende a veicular a sua aprendizagem ao seu projeto de vida. Nessas escolas, o aluno recebe um professor mentor, que dialoga com ele sobre esse sonho. Os alunos têm sete horas de aulas por dia com matérias eletivas, que também podem dialogar com o sonho de cada um. Há um rigor acadêmico bem alto, mas ao mesmo tempo atividades em clubes, atividades flexíveis, o aluno se percebe protagonista da sua história e da sua trajetória escolar, raramente os pais são chamados para conversar, o aluno tem o professor mentor para discutir... Nós começamos com dez escolas médias, uma em cada região da cidade. Pois olhe, uma delas melhorou o IDEB em 118%, a outra, 98%. Algo inacreditável... Tem mais: o professor é polivalente. Há um professor de Exatas e outro, de Humanidades, afora o de educação física. Ou seja, ele sai da área de conforto, abandona o papel de especialista e entra outra vez no papel de facilitador de aprendizagem, além de aumentar o seu tempo com os alunos. E, claro, tem material disponível para preparar devidamente todas as suas aulas.
29. Quantos alunos já foram beneficiados pelos ginásios experimentais?
Claudia: Já são 28 escolas e devem avançar por todo o Rio progressivamente. Quando saí da secretaria, deixei um plano pronto para fazer com que as escolas do Rio de Janeiro tenham sete horas diárias de aulas. Mas sete horas com várias atividades, esportes, artes, ao longo do dia, e com ênfase nas disciplinas onde há deficiências... Esses ginásios experimentais serviram de teste para um novo modelo de escola, uma grade curricular, uma didática específica para isso... E olhe, a gente insiste em chamar de primário - e de ginásio (rs).
30. Uma curiosidade, você teve contato com o Paulo Freire?
Claudia: Sim, tive. Aliás, nós criamos uma escola de formação de professores e demos a ela o nome de Paulo Freire... A viúva dele veio inaugurar, lá no Rio. Eu me sinto ainda muito ligada a ele, apesar de não ter trabalhado diretamente...
31. O Paulo Freire inclusive orientava a apostar no imponderável, em educação, para avançar...
Claudia: E o que a gente aprende? Você tem de planejar o passo a passo, é verdade. Mas há momentos em que você diz, ‘vamos testar’ e, se não der certo, vamos resolver de outra maneira... Mas vamos fazer o teste!
32. E a respeito das habilidades não cognitivas, consegue definir o seu valor para a educação?
Claudia: Hoje, a OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), que criou o PISA, percebeu que não basta ensinar as competências cognitivas, é preciso também ensinar o que foi traduzido por "traços de caráter". Ou seja, a visão de que tanto a inteligência pode crescer, quanto os hábitos e práticas relacionados ao processo escolar - e que você vai precisar por toda a vida. Exemplo: persistência. O professor pode trabalhar persistência com os alunos, quando você pega, por exemplo, um aluno que veio de uma família de drogados e mesmo assim, ‘against all odds’, como se diz em inglês, ou seja, contra tudo e contra todos, ele consegue dar certo, você vai reparar que, além de sorte, ele foi persistente. E teve garra. O sistema escolar coreano desenvolve garra no processo, criando situações... O que falta, em contrapartida, na Coreia? Abertura para o erro, abertura para o risco, algo que o brasileiro tem. O que vai ser essencial para o empreendorismo, basta olhar o mercado informal para você perceber como o brasileiro é empreendedor. Nós temos algo bom, temos intencionalidade, é preciso colocar um pouco de garra social... Para isso, você precisa capacitar os professores para fazer um trabalho competente. Porque se o professor fizer uma prédica sobre garra e o aluno não sentir nada... Ele precisa mostrar como é importante ser resiliente, levar um baque e ser capaz de levantar.
33. Nas escolas do Rio, há algo em curso sobre habilidades não cognitivas?
Claudia: Nos ginásios experimentais, isso já vem sendo trabalhado com professores e alunos, a conversa do aluno com o professor mentor passa muito por essas questões... O professor é, portanto um orientador e tem de transmitir credibilidade nessa função.

 

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