Educar para Crescer
busca

Educar para crescer

DE OLHO NA EDUCAÇÃO

"É preciso mudar a gestão da Educação!"

Dinheiro há, mas precisa de gestão para evitar o desperdício. E a família tem de se mobilizar para exigir qualidade. Alertas sobre a nossa educação do ex-ministro de Economia Maílson da Nóbrega


23/03/2015 16:46
Texto Marion Frank
Educar
Foto: Maurício Melo
Foto: Segundo Maílson, apersar de termos feito avanços na Educação, ainda estamos 150 anos atrasados em relação a outros países
Segundo Maílson, apersar de termos feito avanços na Educação, ainda estamos 150 anos atrasados em relação a outros países

É um desses brasileiros que todos acabam por se lembrar, basta conhecer a biografia. Maílson Ferreira da Nóbrega foi ministro da Economia durante o governo de José Sarney, no final dos anos 80. Cargo proeminente, ainda mais ao se tornar ciente de que ele nasceu no interior da Paraíba, o mais velho dos dez filhos de um alfaiate casado com uma costureira - casal que jamais se descuidou, apesar do cotidiano difícil, da sua educação. Talvez por isso seja Maílson tão atento ao comportamento da família brasileira em relação ao nosso ensino, que reage satisfeita ao perceber "... que há mais escolas e que os filhos estão mais presentes nas salas de aula - situação melhor, se comparada à de 20 anos atrás, mas não diante das necessidades atuais do País". Para entender o problema: o trabalhador brasileiro produz apenas 20% do trabalhador americano - e isso tem a ver com as deficiências do que acontece em sala de aula. "Temos de incorporar a ideia de que a educação é peça vital do processo de crescimento da economia brasileira", afirma.

Primeira Infância O que é o Educar para Crescer
Conheça a missão e os objetivos do movimento
Sim, a família brasileira precisa se mobilizar e exigir mudança, qualidade, na educação do País. Maílson, de índole esperançosa - ou não teria encontrado força para trilhar o caminho que o levou ao mais alto cargo da economia brasileira - sente que o momento é agora. A seguir.

Para ler, clique nos itens abaixo:
1. A sua trajetória pessoal vale ser lembrada... Porque foi bastante longo esse caminho que o levou do interior da Paraíba ao ministério da Economia, em Brasília, não foi?
Maílson: Sim, foi um longo trajeto que combinou sorte, acaso, determinação, coragem e... Bem, a educação teve um papel relevante nesse processo.
2. Conseguiria destacar alguns episódios dessa trajetória sui generis?
Maílson: Só para resumir, nasci em uma cidadezinha de 2 mil habitantes, no interior da Paraíba, em 1942. Meu pai era alfaiate, minha mãe, costureira. Família grande, 10 filhos, e eu era o mais velho. Comecei a estudar, à tarde, no grupo escolar local e a minha mãe, não sei por qual razão, me colocou de manhã também numa escolinha ‘particular’, a da dona Inês Cunha, que tinha apenas dez alunos. Então, lá naqueles cafundós, eu tive uma educação tipo ‘coreana’, ficava oito horas por dia na escola, além dos deveres que fazia em casa, à noite. Também morávamos colado na igreja, a minha avó era franciscana, ia todo dia à missa, e com isso eu acabei virando coroinha... E o padre da cidade achou que eu tinha vocação sacerdotal e me convenceu a ir para um seminário. Mas - e eu nunca descobri por que - um belo dia, desisti. Entretanto, havia ficado aquela ideia de que eu tinha de sair da cidade para estudar...
3. Quer dizer que você já tinha consciência, apesar da pouca idade, do quanto era importante estudar?
Maílson: Eu sei que sempre contei com o apoio da minha mãe e do meu pai para me dedicar aos estudos... E assim fui parar na casa de parentes em João Pessoa, e logo a seguir, em uma pensão de amigo do meu pai. Tinha apenas 13 anos, quando fui morar sozinho na capital. Fiz o curso naquela época chamado de ginasial, depois o científico. E aí eu tinha um sonho de ser engenheiro, só que a industrialização do Nordeste começou a destruir tudo isso, a indústria da roupa feita, por exemplo, destruiu por completo o mercado do meu pai, alfaiate, um artesão. Ele foi empobrecendo, teve de abandonar a profissão para sustentar a família, virou caminhoneiro e, numa dessas, teve um acidente, destruiu o caminhão...
4. Você virou arrimo da família?
Maílson: Não, não cheguei a ser arrimo, mas o empobrecimento da família foi tão grande que a minha mãe passou a coletar contribuições das pessoas mais próximas para nos manter. E aí chegou a realidade de que eu tinha de trabalhar. Fui morar então na Casa do Estudante, que ainda hoje existe em João Pessoa, ela abriga estudantes pobres do interior... E fui ser office boy de uma empresa de açúcar da cidade, continuando os estudos à noite, era a época dos três últimos anos do científico. Nesse processo, comecei a pensar no que fazer da minha vida, a escola de engenharia acabou sumindo do meu desejo porque ela só funcionava durante o dia na capital da Paraíba... Tentei ser então oficial da Aeronáutica, passei no concurso, mas fui reprovado no exame médico, em Recife: era míope - e nem sabia! - e também porque não tinha o mínimo de 20 dentes... Lá na minha cidade, dentista só aparecia para extrair dentes. E eu já havia perdido os dentes frontais, uso prótese até hoje!
5. Foi mais um sonho, o de ser oficial da Aeronáutica, que assim se perdeu...
Maílson: Pois foi. E aí servi o Exército, o 15º Regimento de Infantaria de João Pessoa, e então me acontece um acaso - aliás, o acaso foi sempre muito presente na minha trajetória... Naquela época, em 1962, com os conflitos das Ligas Camponesas, havia muita confusão no País, ficávamos muito tempo, até meses, de prontidão - eu fazia parte de uma companhia de choque que devia estar pronta para o que desse e viesse... E graças a Deus, nunca aconteceu de eu ter de ir para a rua dessa maneira! Tinha de dormir no quartel e, numa dessas, conversando com um soldado, ele me disse que ia fazer o concurso do Banco do Brasil... Imediatamente, quis saber o que era preciso para participar também e assim foi que passei no concurso e entrei no banco. Uma façanha, pois eram 600 candidatos para 15 vagas! E aí foi que aconteceu a grande inflexão da minha vida.
6. O Banco do Brasil deve ter também servido de escola para você, não foi?
Maílson: O BB foi uma grande escola de valores, ética, profissionalismo, disciplina e respeito, que foi fundamental para a minha formação. O banco também me despertou o interesse para a leitura, o seu ambiente era mais ‘avançado’, digamos assim, e aí eu comecei a ler obras recomendadas por uma livraria do Rio, não me lembro mais o nome dela, só me lembro que eu comprava sempre os dez livros mais vendidos pelo reembolso postal, eram livros de história, política... Naquela época, eu era de esquerda e estava até preparado para a revolução (rs) - quase entrei no partido comunista da cidade!
7. E assim foi criando, de forma espontânea, uma biblioteca particular...
Maílson: Exatamente. Havia muita literatura de esquerda, comprei até "O Capital", de Karl Marx, veja só... No banco, acabei fazendo uma carreira bem rápida, em pouco tempo, estava exercendo postos mais elevados na agência. E aí aconteceu outro acaso, o banco começou um processo de modernização, eram os anos 1966/67, com o departamento de seleção e desenvolvimento de pessoal se encarregando da preparação profissional dos seus funcionários. E foi realizado o primeiro curso de crédito industrial no Nordeste, em Recife - e a minha agência foi uma das selecionadas e eu era o gerente dessa área. Acontece que o meu chefe também prestou concurso e, por uma serie de circunstâncias, acabamos nós dois sendo aceitos para seguir o curso - o normal seria apenas um... Foi uma espécie de MBA (Master in Business Administration, curso de especialização do ensino superior nos Estados Unidos) para mim.
8. Foi esse curso que despertou a sua curiosidade por economia?
Maílson: Veja, foi um curso de oito semanas, intensivo, com aulas de Finanças, Contabilidade, Economia... O que aumentou ainda mais o meu interesse por essa área. A seguir, fui trabalhar na sede do banco, no Rio de Janeiro, e passei a frequentar um departamento onde todos tinham curso superior... Nessa época, eu já era casado e tinha dois filhos, mas não ganhava o suficiente para pagar uma faculdade... Só que aí aconteceu outra sorte na minha vida! Foi o momento em que o presidente Emílio Garrastazu Médici decidiu levar para Brasília o Banco do Brasil, o Banco Central e o Itamaraty... Só assim a capital se consolidaria, essa era a ideia dele. Ele simplesmente decidiu a mudança, como era típico da ditadura militar. Era 1970 e assim, em três meses, mudei com a família para lá. Os mais antigos funcionários não puderam ir, mas eu consegui aproveitar a oportunidade... Já tinha sido promovido e, em Brasília, fiz um curso de economia, de nível superior, que frequentei à noite - escola particular, que não era das melhores. Foi então que me dei conta de que para ser competitivo no banco, ao lado de colegas que tinham frequentado escolas conceituadas, gente com mestrado e doutorado, eu teria de fazer um esforço pessoal, me tornar autodidata em muitas questões. O que é mais ou menos o que faço até hoje, leio de 25 a 30 livros por ano, afora documentos acadêmicos, material de imprensa, de trabalho... Depois, acabei virando ministro de economia, mas essa é outra longa história.
9. Uma história que desperta a atenção de todos, imediatamente. A propósito, você, que é pai de cinco filhos...
Maílson: ‘Meninos’, é assim que eu os chamo... (rs). O mais novo tem 21 anos e o mais velho vai fazer 50.
10. Pois então, para o pai de cinco ‘meninos’ e que se tornou autodidata para compensar as deficiências da própria educação, como vai a educação brasileira?
Maílson: Acho que vai mal. E poderia ir bem melhor... Já fizemos grandes avanços, incluindo a universalização do Ensino Fundamental, chegamos a isso com 150 anos de atraso em relação à Europa, aos Estados Unidos e ao Japão, mas chegamos. Só que ainda não conseguimos prover para os brasileiros uma educação de qualidade. Na verdade, nós, brasileiros, cometemos dois equívocos em relação à educação - e em épocas distintas. O primeiro, que prevaleceu até os anos 60/70, foi a ideia muito difundida de que a educação seria um subproduto do desenvolvimento, cabendo ao Estado promover o desenvolvimento, ser o centro irradiador. Era a época do pós-guerra, o Brasil investia 1,4% do PIB em educação - existiam poucos estudantes nas universidades e menos de 2/3 das crianças estavam na escola. Essa política de nacional-desenvolvimentismo criou uma economia de baixo nível de concorrência, pouca competição com o produto exterior e baixa integração à economia mundial, criando um ambiente de baixo estímulo à inovação. Ora, quando não há incentivo à inovação, não se faz necessário ter pessoal qualificado... De outro lado, o Brasil podia crescer com a incorporação de mão de obra porque havia um vasto campo de investimento, especialmente depois da ditadura militar, com a reforma tributária e a evolução das finanças públicas, assegurando recursos para investir em infraestrutura (transporte, energia, telecomunicações e assim por diante), tudo isso gerando ganhos muito importantes de produtividade que, por sua vez, geraram o desenvolvimento... Foi a época do milagre econômico (1968-1973).
11. Mas a necessidade de cérebros, de mentes inovadoras, era colocada em segundo plano mesmo em época de milagre econômico?
Maílson: Era, era... Acabamos formando gente, mas não era tão valorizada como seria nos tempos atuais. Por exemplo, o sistema financeiro dava os primeiros passos para atingir a sofisticação que tem hoje. E o grande sorvedouro de pessoal qualificado, naquela época, era o próprio governo federal por meio de suas estatais e agências de fomento.
12. E quando a educação, dentro dessa perspectiva histórica, se torna o centro nevrálgico, a razão de ser do nosso desenvolvimento?
Maílson: Eu diria que isso aconteceu a partir dos anos 70/80. A própria criação do Ministério do Planejamento, a sua consolidação... Veja, a industrialização requeria mão de obra diferenciada porque estávamos dando passos para patamares mais sofisticados com a indústria química, a indústria petroquímica, a energia nuclear... E, depois da segunda metade dos anos 80, com a democratização, a educação adquiriu uma importância de peso maior nas discussões... Só que aí começou a aparecer, no meu entender, outro grande erro...
13. Qual seria o segundo equívoco cometido pelos brasileiros a respeito da educação?
Maílson: A consolidação da ideia segundo a qual o passo definitivo do Brasil em educação, que é a melhoria da qualidade, poderia ser dado com mais dinheiro - e há todo um movimento das corporações do ensino para ampliar os gastos na área.
14. Ampliar os gastos, mas gastando mal - esse é o erro que você quer apontar?
Maílson: Exatamente. Gastar mal, ampliando o desperdício de dinheiro. Surgiu então a ideia da vinculação dos recursos para a educação de maneira compulsória, resultado de uma emenda do então senador João Calmon, de 1983 - ou seja, 13% dos impostos federais, estaduais e municipais deveriam ser aplicados em educação. É uma maneira primitiva de determinar prioridades, mas aceita pela sociedade... A experiência mundial mostra que a vinculação de recursos para qualquer finalidade é péssima escolha porque tende a gerar acomodação, a obrigatoriedade de gastar de todo jeito a verba arrecadada, gerando desperdícios etc. E então temos a Constituição de 1988, que aumentou esse percentual para 18%, em nível federal - e para 25%, nos estados e municípios...
15. Qual a sua avaliação do último PNE (Plano Nacional de Educação)? Porque ele determina, entre outras metas, que sejam investidos 10% do PIB em educação nos próximos anos...
Maílson: Eu não gosto do plano, ele está impregnado de corporativismo e tem essa ideia equivocada, por exemplo, de que o Brasil precisa gastar 10% do PIB em educação... O Brasil gasta, em educação, 6,4% do PIB, o que é proporcionalmente mais do que os Estados Unidos e a Alemanha gastam em educação, uma vez mais do que gasta o Japão e mais de duas vezes o que gasta a China.
16. Então, dá para concluir que um dos problemas graves da nossa educação é o de existir dinheiro, mas sua gestão é totalmente ineficiente...
Maílson: Exatamente. Nunca se gastou em educação como agora, mas estamos na rabeira dos testes internacionais, como o PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos, na sigla em português). Os nossos alunos alcançam normalmente 450 pontos no PISA, o que está abaixo da média do teste. Estudos apontam que, se conseguíssemos passar para 550 pontos, isso geraria ganhos de qualidade capazes de promover um crescimento de 1% do PIB. Porque a produtividade e o desempenho em educação estão totalmente vinculados, lógico! Outros estudos demonstram, em contrapartida, que não há nenhuma correlação entre melhoria de qualidade de educação e salários. E ainda existe essa tendência de colocar as finanças públicas e a própria educação à mercê dos movimentos corporativistas...
17. Entretanto, há quem insista em dizer o contrário, levando em consideração a dívida histórica do País a respeito de jovens e adultos que não receberam a educação que lhes cabe e, portanto, todo o dinheiro gasto em educação ainda é pouco...
Maílson: Bem, eu diria que se trata de uma argumentação totalmente equivocada. Primeiro, é possível obter o mesmo resultado com menos recursos. Depois, parte-se de uma ideia de que o Brasil ainda não atingiu os gastos per capita dos países ricos - ou seja, o nosso País deveria gastar 3 vezes ou mais por estudante do que gasta hoje para chegar ao padrão da França, dos Estados Unidos...Isso é uma maluquice completa! Porque, se fosse viável, isso deveria acontecer também em saúde e outras áreas, o que obrigaria ao País ter uma renda per capital igual à França, o que não existe... Ou seja: não se pode fazer uma comparação de renda per capita média de um país como o Brasil, com outra, de país rico.
18. E quanto à dívida histórica em relação aos brasileiros que ainda não receberam a educação devida?
Maílson: Claro que ela existe, porque o nosso País negligenciou a educação desde o Descobrimento, vamos chamar assim... Mas, a sociedade não vem gerando os recursos necessários para pagar essa dívida, ela terá de ser paga ao mesmo tempo em que crescem os recursos, não há outra maneira... Se você olhar a história do sistema capitalista e o quanto ele produziu de bem estar do século 17 para cá, sobretudo na Europa, isso tem a ver com a geração de recursos. Foi o desenvolvimento que gerou arrecadação e foi a maior arrecadação que permitiu a aplicação crescente de recursos na educação, na saúde e em programas sociais, o que foi evoluindo com a passagem do tempo. Até chegar à segunda metade do século 20, quando se consolidou a consciência de que a sociedade tem um compromisso com os menos favorecidos, não apenas na educação, mas também na saúde, na renda mínima... Mas chega-se lá depois de atingir certo nível de renda! Um exemplo dramático, o Benim, na África, possui uma dívida histórica pior que a nossa porque é um país pobre, ele não gera recursos para investir em educação. Quem tem esse raciocínio, se esquece de associar o pagamento da dívida com a existência de dinheiro, e o dinheiro pressupõe a arrecadação do Tesouro, e essa arrecadação pressupõe ritmo ascendente de crescimento. Ou seja, o Brasil só pode ter um nível de gasto per capita em educação quando for um país rico - o que ele não é.
19. O segundo mandato do governo Dilma já deu sinais claros de que pretende ‘controlar’ os gastos em educação, colocando em cheque programas de financiamento do ensino superior... Com o ajuste fiscal, o governo está, portanto agindo corretamente?
Maílson: As medidas de ajuste são corretas porque o governo anterior cometeu excessos, gastou além do que devia, criando uma situação insustentável no campo fiscal, o déficit público começou a explodir etc.. E colocou o Brasil numa trajetória de risco, que pode nos custar anos de estagnação, anos até mesmo de recessão, dificultando, mais pra frente, os esforços para a melhoria da educação.
20. Isso significa que a educação vai ser bastante afetada, melhor, ficar estagnada?
Maílson: A educação vai ser pouco afetada, como já vimos, ela tem recursos garantidos pela Constituição - os cortes serão feitos apenas em programas mais recentes, como o FIES (Fundo de Financiamento Estudantil), que precisa mesmo passar por uma revisão, precisa deixar de ser tão generoso como é, ter o mínimo de avaliação, algo que não existe hoje... Na verdade, o FIES virou uma garantia de demanda para as escolas particulares, com o grosso dos seus estudantes, no campo universitário, se valendo desse financiamento - e muito do financiamento não terá retorno... Aliás, a velocidade de gastos que se verificou no FIES raramente aconteceu em outros programas sociais. Veja, não é que o ministro da Fazenda seja contra a educação, mas sim que tudo tem limite!
21. Ou seja, a partir de sua análise, fica claro que foi dado um passo maior que as pernas, inclusive em educação, durante o primeiro mandato do governo Dilma...
Maílson: Exatamente. E o Brasil está começando a pagar o preço de uma desastrosa administração econômica, particularmente nas finanças públicas. Portanto, o ajuste é o necessário diante da gastança. É a ressaca, que pressupõe um período de abstinência, de repouso. Não é possível continuar com a farra, porque ela pode levar ao colapso!
22. Seria possível apontar prioridades da nossa educação, ainda com o Brasil sob o impacto da atual crise econômica?
Maílson: Para mim, é muito claro que se faz necessário hoje rever essa obrigatoriedade de aplicar 10% do PIB em educação, caso contrário, teremos casos dramáticos de cidades, cuja população está diminuindo e o prefeito sendo obrigado a gastar cada vez mais... Isso vai gerar desperdício, não precisa ser economista para entender isso. Há coisas absurdas estabelecidas pelas corporações, cidades de apenas dois mil estudantes com estruturas semelhantes à da grande cidade, com secretário de educação, comitês e tudo mais, isso precisa ser revisto! As cidades precisam atuar de acordo com as suas necessidades e prioridades.
23. E o currículo do nosso ensino, o que pensa a respeito?
Maílson: Ele também precisa ser revisto, é fundamental que tenha um mínimo de universalidade, não precisa ter o tamanho atual, até hoje não me conformo de que foram introduzidas Filosofia e Sociologia nos cursos fundamentais do Brasil... O nosso estudante se vê diante de uma pletora de matérias que reduz muito a eficiência no aprendizado. Temos de encontrar também uma maneira de atrair para o magistério as pessoas mais qualificadas, em que a atividade de professor tenha uma atração não apenas financeira, mas também de realização profissional...
24. Porque o fato é que hoje ninguém mais quer ser professor no Brasil, a profissão caiu em desuso...
Maílson: E por que na Finlândia deu certo e aqui não? De outro lado, há um problema ainda mais sério e de natureza cultural, que diz respeito aos pais estarem satisfeitos com a qualidade da educação brasileira... E há também uma lógica, eles veem que há mais escolas, que os seus filhos estão mais presentes nas salas de aulas - uma situação melhor, se comparada à de 20 anos atrás, mas não diante das necessidades atuais do País. É bom lembrar que o trabalhador brasileiro tem uma produtividade equivalente a apenas 20% da do trabalhador americano - e isso tem muito a ver com a educação.
25. E o que dizer do operário coreano em relação ao brasileiro?
Maílson: A disparidade deve ser ainda maior... Temos de incorporar a ideia de que a educação é peça fundamental do processo de crescimento da economia brasileira. E temos de abandonar a ideia, muito difundida no Brasil, de que o êxito da Coreia derivou de políticas industriais - não foi o que ocorreu! Elas tiveram seu papel, mas há duas distinções importantes de serem feitas: as políticas públicas coreanas de industrialização se submeteram a mecanismos de avaliação, de cobrança; e o êxito estupendo em educação, talvez o maior do século 20, só comparável ao que foi conseguido em educação no Japão, no século 19. E a história está aí para confirmar essa tendência...
26. É possível acompanhar a valorização da educação a partir de uma leitura da economia mundial?
Maílson: Veja, até meados do século 15 e do século 16 prevaleceu a ideia de que o desenvolvimento era função de conquistas de território, tornando o país um império (caso de Roma, que viveu da pilhagem dos territórios que ocupou). Depois, surgiu outra história, o desenvolvimento seria originário do acúmulo de ouro e prata, porque todos olhavam Espanha (e Portugal) acumulando bens preciosos a partir das minas nas colônias da América Latina. Por fim, no século 18, chegou um escocês, Adam Smith, para dizer que a riqueza de uma nação é função do tamanho do seu mercado e da divisão do trabalho, ou seja, é a noção de produtividade. Começam então a ser criados os mecanismos que iriam impulsionar essa produtividade - caso da inovação. Ela começa a frequentar as indústrias que surgiam, a têxtil, a de sapatos... Uma inovação diferente, ainda baseada no trabalho de tentativa e erro do artesão. Foi só a partir do século 19 que se começa a perceber a associação entre o conhecimento e a inovação. E é interessante observar que os ingleses, que ganharam enorme projeção e riqueza com a Revolução Industrial, fazendo da Inglaterra uma potência mundial, não haviam ainda incorporado a ideia de que a educação era essencial para atingir a inovação por meio do conhecimento. Cambridge e Oxford, a título de exemplo, em plena Revolução Industrial, eram universidades da elite, onde se lecionava filosofia, sociologia. Na virada do século 19 para o 20, metade dos operários ingleses era analfabeta!
27. E onde acontece a mudança de atitude em relação ao papel da educação?
Maílson: Ela se dá no Japão, na Alemanha e na Bélgica, e também nos Estados Unidos (e depois, no Canadá). A Alemanha foi a primeira a colocar a educação como fonte de conhecimento e de inovação. Depois da unificação de Bismark, em 1861, ela criou um sistema universitário orientado para a pesquisa, o que fez acelerar o seu crescimento, tornando-se campeã em áreas industriais ‘novas’, a química, por exemplo. Resumindo: o desenvolvimento no moderno capitalismo, que se consolida a partir de meados do século 19, está muito associado à educação. Foi quando os Estados Unidos universalizaram o Ensino Fundamental...
28. A família brasileira já tem o entendimento de que a educação é essencial para o êxito de cada um de seus filhos?
Maílson: Acho que já estamos chegando nisso, mas é preciso dar o passo seguinte, ou seja, a família precisa se conscientizar de que a nossa educação é ruim e que ela tem de se mobilizar pela mudança. A educação não pode mais ficar a reboque das corporações, mas sim das famílias, da sociedade. Temos de quebrar ainda o tabu, o da escola superior pública e gratuita... Eu não me conformo que os filhos de banqueiro e de grande industrial, que já frequentaram as melhores escolas, ainda possam frequentar a Poli (Escola Politécnica da Universidade de São Paulo) de graça! É uma das grandes escolas de engenharia do País e do mundo! As classes A e B, eu vi em uma estatística recente, detém 55% das vagas das universidades públicas e eles representam apenas 35% da população. Na China, o ensino superior não é gratuito, o Estado dá apoio ao jovem talentoso que vem de família pobre - e essa família privilegia bastante a educação. Hoje existem 1,1 milhão de jovens chineses estudando no exterior, não é impressionante?
29. A esse respeito, é bom frisar que a procura pelo ensino superior aumentou significativamente entre os brasileiros...
Maílson: Sim, essa procura explodiu nos últimos anos (sob o impulso do FIES, claro), o que é um bom sinal... Sinal de que a família e o jovem brasileiro perceberam que o curso na universidade pode ser o diferencial de renda no futuro. Agora, ainda é uma legião de desiludidos porque, sem uma escola de qualidade, eles não vão poder enfrentar o mercado como gostariam... Esse é um debate-tabu, porque a esquerda brasileira é totalmente contra a gratuidade do ensino superior, um paradoxo, pois justo a esquerda, que se diz favorável à melhor distribuição de renda, defende uma posição que só aumenta a desigualdade.
30. Em suma, apesar dos pesares, você se mantém esperançoso sobre o futuro da nossa educação?
Maílson: Sou, e sabe por quê? O Brasil deu passos fundamentais em diversas áreas, que criaram uma nova realidade. Temos instituições sólidas, a democracia, a liberdade de imprensa e a independência do Judiciário, uma classe média que se torna majoritária... Nós incorporamos finalmente a ideia de que a inflação é ruim, estamos nos convencendo que a corrupção tem de ser combatida, ela não é natural, a sociedade já se convenceu de que a educação é fundamental, tanto é que hoje temos um ambiente cada vez mais propício ao debate.
31. O que estamos fazendo aqui, no portal, divulgando esta troca de ideias sobre educação, formando opinião entre os nossos internautas...
Maílson: Exatamente. E também temos mais livros sobre o tema... Enfim, muita coisa vai ser difícil resolver, como essa história de investir 10% do PIB em educação... De acordo com um trabalho anual da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento), "Education at Glance", não há um país importante que hoje faça investimento dessa ordem... Só Cuba investe 13% , mas é uma educação que, em muitos casos, não tem sentido. Basta dizer que a camareira do hotel onde fiquei hospedado tinha curso superior e o motorista do táxi que aluguei, era professor da Universidade de Havana. Cuba tem êxito na saúde e também na educação, mas esses gastos não resolveram os problemas do desenvolvimento. Mas... Sim, eu continuo muito otimista. Em algum momento, nós vamos romper as barreiras, até porque temos especialistas discutindo os problemas como em nenhuma outra época.

 

amigos do educar

 


lição de casa

Crianças que fazem a lição de casa diariamente aprendem mais, têm notas melhores e se tornam mais seguras. Faça a sua parte!



depoimentos

Marina Silva, Martha Medeiros, Nelson Motta e outras personalidades brasileiras revelam o impacto de uma boa Educação no futuro



recomendamos

EDUCAÇÃO INFANTIL
Como contribuir com essa importante fase de formação da criança

ENSINO FUNDAMENTAL 1
Como acompanhar os primeiros passos da vida escolar de seu filho

ENSINO MÉDIO
Dicas para pais e alunos enfrentarem esta fase de novos desafios

mais lidos

ALFABETIZAÇÃO
11 dicas para ajudar na alfabetização de seu filho

TECNOLOGIA
52 sites que ensinam e divertem a criançada