Educar para Crescer
busca

Educar para crescer

DE OLHO NA EDUCAÇÃO

"O segredo é colaborar"

A hora é de união, em todos os níveis de poder, com foco no futuro sustentável do nosso ensino. Palavra de um expert, Mozart Neves Ramos


24/03/2015 15:40
Texto Marion Frank
Educar
Foto: Maurício Melo
Foto:
"A educação não pode mais ficar a reboque das corporações, mas sim das famílias, da sociedade.", diz Mozart

As crianças, base do ensino brasileiro, até que vão bem. Mas os nossos jovens... "É o maior desmantelo", avalia Mozart Neves Ramos, um dos mais respeitados especialistas em Educação do País. Com um currículo extensíssimo - entre outros destaques, foi ex-reitor da Universidade Federal de Pernambuco e ex- secretário de educação daquele estado e hoje é integrante da diretoria do Instituto Ayrton Senna, em São Paulo -, dá mesmo para dizer que ele conhece o tema de trás para frente e de todos os lados. Mozart é categórico: "Se houvesse mais dinheiro em educação, eu o colocaria para tornar a carreira de magistério mais atraente". E assim investir em uma formação sólida dos professores, sem o quê a nossa educação (e o nosso País) não serão capazes de alcançar um futuro sustentável.

Primeira Infância O que é o Educar para Crescer
Conheça a missão e os objetivos do movimento
Se os problemas são enormes, porém, nem por isso Mozart Neves Ramos perde a gana. De lutar por um trabalho colaborativo, entre estados e municípios, cujo foco é o desenvolvimento da educação como um todo. Ideias que despertam a atenção, na entrevista a seguir.

Para ler, clique nos itens abaixo:
1. Como vai a educação brasileira?
Mozart: Temos de separar o filme da fotografia. Se a gente olha a fotografia, tem muita coisa ainda a ser feita, principalmente nos anos finais do Ensino Fundamental e no Ensino Médio, onde o País está literalmente estagnado desde 1999 - se a gente olha a aprendizagem escolar, o Brasil não conseguiu se descolar da década de 90, os patamares são muito baixos... E o que aconteceu de avanço importante, naquela época, foi o FUNDEF (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e da Valorização do Magistério, em vigor de 1998 a 2006), um belíssimo instrumento de regime de colaboração e financiamento entre estados e municípios e com a articulação da União, grande conquista da gestão de Paulo Renato (Souza, ministro da educação de 1995 a 2002)... E foi também quando começamos, naquela década, com a cultura de avaliação a partir do SAEB (Sistema de Avaliação da Educação Básica) - ou seja, tanto no financiamento quanto na avaliação demos passos importantes no período. Depois, o avanço que vi aconteceu na gestão do ministro Fernando Haddad, quando ele introduziu o IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), em 2007, muito pressionado pelo próprio movimento Todos pela Educação...
2. Quer dizer que o governo resolveu agir, na criação do IDEB, de modo a não ser engolido pela sociedade?
Mozart: Veja, o Todos pela Educação havia lançado um conjunto de cinco metas para o Brasil até 2022, quando da sua criação em setembro de 2006 - e o ministro e o poder público perceberam que era preciso agir rápido... Aí o próprio Haddad tomou a iniciativa de implantar o IDEB, criar uma cultura de metas, colocando inclusive o nome de "Compromisso Todos pela Educação" (rs). Ele foi sábio, de certa maneira, ou seria ditado pela sociedade - porque foi o mesmo que dizer, ‘se estou no barco, eu vou ser o condutor pelo menos!’. Então, eu diria que isso de ter metas e indicadores, mesmo sem serem perfeitos, foi outra iniciativa muito importante em educação do nosso País. A própria questão de transformar o FUNDEF em FUNDEB (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais de Educação; criado em 2004 e regulamentado em 2007), no financiamento para toda a educação, é outro aspecto muito importante, afora a Prova Brasil (criada em 2005), que permitiu ter o diagnóstico por escola. Aliás, o FUNDEB e a Prova Brasil também foram dois belos exemplos de continuidade política pública entre governos de posições políticas diferentes. Isso é raro e, em educação, mais raro ainda...
3. Continuidade política que também aconteceu por pressão da sociedade?
Mozart: Veja bem, quando o FUNDEF foi instituído, uma das suas metas era a universalização do Ensino Fundamental, o ministro Paulo Renato havia sido muito objetivo a respeito, era essa a prioridade - e ele tinha razão, não se faz milagres em quatro anos... Então, ele priorizou o Ensino Fundamental e foi bastante competente no que fez, não resta a menor dúvida. Agora, os problemas da universidade na sua época, bem, é aquela questão da escolha... Não se teve um crescimento econômico como o presente nos primeiros quatro anos de governo Lula, que aproveitou a boa onda econômica deixada pelo governo de Fernando Henrique mais a boa onda europeia e também a asiática, e aconteceu que o País não cresceu como deveria...
4. E tudo indica que vai crescer menos ainda ante a crise econômica atual...
Mozart: Sim, não dá para fazer a desconexão com a situação econômica porque o financiamento da educação depende do tamanho do PIB - agora, por exemplo, vamos pagar um preço enorme, 10% do PIB (investimento em educação previsto no novo Plano Nacional de Educação - PNE), mas talvez não fique o equivalente ao que se tem em curto prazo, se não for retomado o crescimento econômico... E o que se vê é o País com crescimento zero, estagnado, o que vai refletir na educação, óbvio. Enquanto os países europeus e os Estados Unidos dão sinais de retomada de crescimento, vamos ficar para trás do ponto de vista do impacto dos recursos em educação.
5. Mas, de volta à continuidade em políticas de educação, como entender a decisão do governo Lula de avançar com o que havia sido iniciado pelo governo Fernando Henrique?
Mozart: Foi uma percepção estratégica importante... Quando o governo Lula tomou a iniciativa de financiar da creche ao Ensino Médio, na verdade, ele percebeu o seguinte, o FUNDEB tinha sido um dos elementos que universalizou o Ensino Fundamental (entretanto, tanto Ensino Médio quanto a pré-escola não estão ainda perto de universalizar...). Então, o FUNDEB serviu também para repercutir na questão salarial do professor do Ensino Médio: 60% do fundo, no mínimo, vão para o salário do professor - o que foi um impacto -, além de financiar toda a Educação Básica.
6. Essa foi a última iniciativa importante no universo da nossa educação?
Mozart: Não, não podemos esquecer a lei do piso salarial do professor, de 2008... Se compararmos o crescimento salarial das outras profissões com o que aconteceu com o piso do professor, vamos reparar que ele cresceu muito mais, algo em torno de 20% a mais. Mas os professores ganhavam muito pouco, é verdade... Faltam os planos de carreira, eis o ponto. Havia uma diferença salarial negativa de 11% entre o salário do professor e de outras profissões de mesma titularidade no início de carreira. Acontece, porém, que essa diferença aumenta em média para 40% com o passar do tempo, ou seja, as outras profissões permitem um crescimento salarial ao longo do percurso muito mais rapidamente que a do professor. Mesmo assim, a lei do piso salarial foi uma conquista importante.
7. E quais seriam os gargalos mais graves da nossa educação?
Mozart: O que se observa ainda é uma estagnação em patamar muito baixo em termos de aprendizagem escolar. Nos anos iniciais de ensino, o Brasil vem melhorando e eu diria mesmo de modo consistente. Onde não estamos conseguindo avançar de jeito algum? Nos anos finais do Fundamental I e no Ensino Médio - aí, literalmente o Brasil parou e em posição muito ruim. O maior desastre que nós temos hoje no País é a chamada escola dos jovens, o Ensino Médio. Em Matemática, dos que terminam o ciclo, apenas 9% dos alunos aprendeu o que seria esperado na disciplina; e em Língua Portuguesa, 27%... Médias nacionais! E ainda é preciso levar em conta que metade dos jovens ficou pelo caminho, ou seja, dentre 100 alunos matriculados no Ensino Médio apenas 50 concluem e, desse total, com o patamar de aprendizagem que acabei de destacar. Então, nós temos um grave gargalo da educação brasileira que é a escola dos jovens.
8. E por que o gargalo do Ensino Médio é tão grave?
Mozart: O Brasil está passando por uma janela demográfica, ele ainda tem um ‘bônus’... Mas, em 2030, ele deve perder esse bônus demográfico, ou seja, vamos ter pessoas mais idosas que, somadas às crianças, ultrapassam os jovens no total de massa crítica viva. Então, não podemos mais nos dar ao direito de perder um jovem sequer para o mundo do trabalho sob o risco de não termos musculatura sustentável para manter esse envelhecimento da população e a queda da natalidade em nosso País. Para ter uma ideia da baixa natalidade, do Censo de 2000 ao Censo de 2010 perdemos cinco milhões no estrato populacional de 0 a 19 anos. E essa é uma tendência, vamos ter uma população mais velha ao mesmo tempo em que diminui a base do censo demográfico, o que aumenta a necessidade de ter jovens bem preparados.
9. Como você avalia a presença de jovens no Ensino Superior, ela chega a ser considerável?
Mozart: No Brasil, existem cerca de 7,2 milhões de estudantes matriculados em universidades públicas e privadas - 70% desse total no privado. É muito pouco. Há mesmo uma estimativa de que o Brasil vai precisar 33% de jovens entre 18 e 24 anos no Ensino Superior - ou seja, o dobro da atual situação (16,5%). O problema é que, além do problema do novo financiamento do Ensino Superior, que começa a dar sinais de estagnação por parte do governo federal, tanto no FIES (Fundo de Financiamento Estudantil) quanto no PROUNI (Programa Universidade para Todos), a propósito, dois belos instrumentos para alavancar, agora o governo dá marcha a ré muito forte, pensando em reduzir drasticamente sob o argumento da qualidade. Mas, não é só em razão da qualidade, não.
10. O governo quer reduzir o financiamento estudantil porque não tem recursos para investir, certo?
Mozart: Sim, o governo vem percebendo que não há crescimento econômico, o que está afetando o crescimento do investimento em educação... O problema da qualidade realmente existe, mas ele sozinho não explica a situação real. Então, o Brasil para expandir terá de melhorar a qualidade da Educação Básica. Porque, se for ‘espremer’ os atuais 7,2 milhões de jovens do Ensino Superior, talvez iremos encontrar uns dois milhões que deveriam de fato estar fora da universidade. São jovens ainda com alto índice de analfabetismo para a idade e a etapa da sua formação educacional - a alfabetização, entenda, é um processo que lhe acompanha ao longo da vida. E, quando se está no Ensino Superior, espera-se de um jovem certo nível de alfabetização em termos de compreensão de texto, conhecimento... Aí, quando você vai medir, os resultados são realmente impressionantes, se não me engano, 38% desses alunos são analfabetos de acordo com o que deveriam saber, é o INAP (Instituto Nacional de Aperfeiçoamento Profissional) que faz esse tipo de controle... Então, voltando, temos a base, as crianças estão indo bem; e os jovens, um desmantelo.
11. E os professores brasileiros, em que pé estão?
Mozart: Veja, eu não conheço um País que tenha futuro sem bons professores... Todo país que tem futuro sustentável passa por ter bons professores na Educação Básica, que é onde se começa o processo de formação de todos os demais profissionais. E ninguém mais quer, no Brasil, se tornar professor - segundo uma pesquisa divulgada pelo próprio portal Educar para Crescer, apenas 2% dos alunos que terminam o Ensino Médio querem se tornar professores. E mesmo assim são jovens de um fator sócio econômico relativamente baixo e veem na licenciatura o caminho mais fácil para entrar no Ensino Superior. Por mim, se houver mais dinheiro para a educação, eu o colocaria preferencialmente para tornar a carreira do magistério mais atraente...
12. E como você conseguiria tornar a carreira de professor irresistível?
Mozart: Com salário inicial, plano de carreira e uma formação sólida de modo a que o jovem possa atrelar, por exemplo, no plano de carreira, que é o seu desenvolvimento profissional ao longo da vida, a formação continuada e os resultados em sala de aula - e não por tempo de serviço. Então, eu diria que o maior desafio da nossa educação hoje se chama a escola dos jovens e passa pela atratividade da carreira do magistério. E por quê? Uma boa parte dos professores hoje em atividade no Ensino Médio - Química, Física, Matemática, Biologia, Artes... - não foi formada para a disciplina que leciona. Em Física, 61% não têm a formação necessária - são de fato professores de História, Geografia ou de outra matéria que estão dando aula de Física. Esse é um enorme desafio para o País! E mais: é preciso trabalhar com um currículo que dialogue com o mundo juvenil. O currículo atual é chato, de um excesso de conteúdos, que não vê o que deveria ver com a profundidade necessária, já que é tudo fragmentado e sem o diálogo concreto com o mundo dos jovens.
13. Qual a sua avaliação sobre o mais recente PNE?
Mozart: Eu gosto. A turma critica muito - em minha opinião, o PNE anterior é que era muito ruim, eram 200 e tantas metas, metade das quais não tinha indicadores claros... Agora, claro, não estou dizendo que o PNE atual é a sétima maravilha do mundo, não. Mas, ele tem 20 metas, algo que o movimento Todos pela Educação, entre outros, sempre defendeu, ou seja, poucas metas... Ele erra talvez em algumas estratégias, poderia ter um foco melhor. Exemplo: na aprendizagem escolar, pautada muito só no IDEB, acho que deveria ter um pouco mais de elementos qualitativos na aprendizagem... Mas dá para ver claramente, de outro lado, a preocupação com a universalização do ensino, enfim, se esse PNE for cumprido, vamos ter outra educação no País.
14. Por que você acredita que o PNE atual pode mudar a educação brasileira?
Mozart: Veja, haverá a universalização do ensino, da Pré-Escola ao Ensino Médio; a valorização salarial e o plano de carreira do professor; a formação continuada e inicial do professor com outra concepção; as escolas em tempo integral; o aumento significativo na educação profissional e tecnológica... Vamos dar um salto em educação, se ele de fato for cumprido.
15. E qual seria o maior problema desse plano de educação?
Mozart: O maior problema do PNE, no meu entender, não é na essência, que é onde as pessoas estão batendo, mas sim na ausência de responsabilização pelo não cumprimento das metas - quem vai responder, se chegarmos, por exemplo, a 2016, sem ter universalizado o ensino para a faixa de 15 a 17 anos? Quem vai responder por essa falha - o governo estadual ou o federal? Quer dizer, a ausência de responsabilização é mesmo muito ruim...
16. De acordo com esse PNE, o investimento em educação será de 10% do PIB... É suficiente?
Mozart: Acho que nós ainda investimentos pouco em educação, quando fazemos uma comparação per capita... Agora, quando olhamos o percentual do PIB, percebemos que o Brasil é quem tem mais avançado em relação aos países da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento), algo em torno a 6,1% do PIB em educação, o que é bastante significativo. Entrentato, quando se tem uma massa estocada de alunos, uma dívida histórica muito grande de jovens e adultos que ainda precisam de educação - na Europa, a propósito, não existe mais esse tipo de preocupação... -, ainda existe uma repetência grande etc., enfim, temos uma dívida histórica e um sistema bastante ineficiente que faz inclusive com que a gente gaste duas ou três vezes mais com a mesma coisa. E para o sistema ser mais eficiente não vale apenas fazer o menino passar de ano, mas sim fazer com que ele aprenda. E que se tenham instrumentos capazes de tornar mais eficiente e eficaz o processo de aprendizagem escolar no Brasil. Aí talvez a gente consiga ter, com melhor gestão, também mais recursos para a educação.
17. Consegue ver o Brasil acompanhando o século 21, a era do conhecimento?
Mozart: Olhe, você tocou em um ponto... Veja que interessante. O Brasil, na área de Ciência e Tecnologia, é o país que lidera a América Latina, com a formação de 14 mil doutores e cerca de 40 mil artigos científicos por ano - está na 13ª do ranking mundial em produção científica, colado na Coreia, a 12ª, acredita? E, quando a gente olha a Educação Básica, a Coreia está lá no topo e nós, na rabeira... Então, em Ciência e Tecnologia, pesquisa e desenvolvimento, o Brasil consegue dar uma resposta extremamente satisfatória - algo que não conseguimos em Educação Básica.
18. E como foi que o País conseguiu essa excelência em Ciência e Tecnologia?
Mozart: Pensando fora da caixa, rompendo com algumas questões que, do ponto de vista dos governantes, falta coragem para fazer... Volto no tempo. Escola de tempo integral. Lá em Pernambuco, quando fui secretário de Educação (entre 2003 e 2006), cheguei a ser enterrado três vezes pelo sindicato, mas eu acreditava que deveríamos ter uma escola com o menino chegando de manhã, professor ganhando diferenciado com base nos resultados, gestão profissional... E, por isso, encaramos de corpo e alma a iniciativa. Que acabou virando lei e hoje Pernambuco é o estado que mais avançou... Mas, para começar, a luta que foi, todo mundo depois se esquece... Sair da inércia - o difícil foi romper com o tradicionalismo.
19. Mas, ainda sobre Ciência e Tecnologia, o desempenho do Brasil prova que dá para chegar lá...
Mozart: E por que isso não acontece? Essa é uma das razões que levou o Instituto Ayrton Senna a trazer cientistas para qualificar o debate educacional... Porque nós estamos em um ponto de saturação - e eu me enquadro na situação de quem lida com o tema e que já adquiriu vícios, pensamentos que precisam ser renovados, novos questionamentos, novos conhecimentos... Se colocar todos os especialistas ao redor de uma mesa, você verá que o discurso é igual, as diferenças surgem na hora de fazer, diagnosticar. E, em minha opinião, se não mudarmos a formação dos professores, se não chamarmos as universidades para uma mudança radical nessa formação, vamos continuar com professores que têm boa base teórica e péssima prática em sala de aula.
20. Consegue relembrar os primeiros passos do Brasil rumo a uma posição de destaque em Ciência e Tecnologia?
Mozart: Foi algo muito interessante - e eu represento um pouco essa história. Quando me formei engenheiro químico em 1982 e depois de ter terminado o doutorado, era uma época em que o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) dava apoio ao pesquisador - nós éramos tão poucos que você fazia sua própria pesquisa e pedia aporte para desenvolvê-la... O CNPq avaliava o mérito - ponto fundamental! -, havia mesmo rigor nessa avaliação... E o CNPq começou assim a aumentar a massa crítica de doutores no País, ele perguntava para pesquisadores como eu se havia outros colegas no meu departamento com os quais poderiam ser criados grupos de pesquisa, e isso foi ganhando corpo dentro dos departamentos da universidade. Até chegar o momento de trabalhar em redes nacionais em áreas estratégicas, como nanotecnologia, novos medicamentos etc. Então, a pesquisa sempre foi organizada segundo o mérito e a qualidade. E era simples, ou você trabalhava de forma colaborativa ou não conseguia muita coisa...
21. Na atualidade, existe a preocupação de se trabalhar de modo colaborativo em educação?
Mozart: Não, não se tem conseguido fazer colaboração nem dentro de uma mesma rede de ensino... Então, o modelo de gestão da educação brasileira é ultrapassado, modelo ainda muito verticalizado e pouco colaborativo. Fala-se muito em colaboração, que é estratégica para o sucesso do PNE, só que não se tem um plano que retrate esse regime de colaboração e cooperação. Um dos temas debatidos no Conselho Nacional de Educação - e eu fui o relator dessa matéria - diz respeito aos arranjos de desenvolvimento de educação, ou seja, você trabalhar de forma colaborativa entre escolas e municípios, algo que o governo federal nunca fez, apesar de ter os instrumentos. E por que ele não induz nessa direção? São 5.700 municípios do Brasil, você acha que há um remédio igual para todos? Se há situações diferentes às vezes até mesmo em escolas do mesmo bairro...
22. Qual seria o remédio mais adequado, pensando em estratégia de governo, para melhorar a saúde da nossa educação?
Mozart: Acho que temos de trabalhar de uma forma mais organizada, puxada pelo mérito de forma a continuar puxando para cima, o que não vem acontecendo... O sistema não dialoga entre si, você tem o governo federal dizendo que as escolas não são minhas, mas sim dos estados e municípios, só que é ele que detém o dinheiro... De 70 a 80% dos impostos recolhidos pela União ficam por lá mesmo, apenas os 30% restantes é que são compartilhados.
23. Acredita no interesse prioritário pela educação nesta segunda gestão do governo Dilma?
Mozart: É muito cedo para dizer e olhe que não estou fugindo da resposta... Ainda não vi o plano do atual ministro (Cid Gomes), vai depender qual é o foco... O meu feeling? Vejo com enorme preocupação a questão do financiamento em decorrência da crise econômica, a redução do FIES e do PROUNI, que são recursos públicos para as instituições privadas - sem elas, a rede não poderia crescer no Ensino Superior... Concordo com o governo que é preciso mais qualidade e que ela pode ser avaliada por meio da prova do Enem (Exame Nacional de Ensino Médio), mas também é preciso cobrar um melhor acompanhamento dos cursos oferecidos por essas instituições... Olho, também com alguma preocupação o PRONATEC (Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego Institucional) - é importante, sim, crescer as matrículas, mas organizá-las melhor com a cadeia produtiva local, não adianta apenas dar o diploma para o menino, que vai depois ficar desempregado, se não houver diálogo com a cadeia produtiva da região, afinal, quais são as demandas do entorno. Também gosto muito da ideia do programa Ciências sem Fronteiras, ela precisa ser aperfeiçoada, mas a internacionalização vai cada vez mais permear tanto a educação superior quanto a educação de base... No mundo de hoje, os jovens não querem mais ficar enraizados no local, eles desejam experiências diversas, o contato com culturas diversas, conhecer mais de um idioma, então...
24. E sobre o novo ministro de Educação, Cid Gomes, algo a declarar?
Mozart: Ainda não se sabe onde é que ele vai fazer foco, onde será a prioridade, isso ainda não está claro... Ele vai precisar de uma equipe bem operativa e de prestígio político junto à presidência para tomar certas decisões - se não tiver, bem, será tudo muito complicado... Ministro da Educação precisa ter dinheiro, equipe operativa, foco e prestígio junto à presidência. Aliás, para lidar com esse cargo, é preciso, antes de mais nada, muita paixão. Ciente de que é uma missão e que terá de cumprir bem. É preciso ter foco e não ficar em discussão com muita gente - porque quem fica em discussão, não faz nada.

 

amigos do educar

 


lição de casa

Crianças que fazem a lição de casa diariamente aprendem mais, têm notas melhores e se tornam mais seguras. Faça a sua parte!



depoimentos

Marina Silva, Martha Medeiros, Nelson Motta e outras personalidades brasileiras revelam o impacto de uma boa Educação no futuro



recomendamos

EDUCAÇÃO INFANTIL
Como contribuir com essa importante fase de formação da criança

ENSINO FUNDAMENTAL 1
Como acompanhar os primeiros passos da vida escolar de seu filho

ENSINO MÉDIO
Dicas para pais e alunos enfrentarem esta fase de novos desafios

mais lidos

ALFABETIZAÇÃO
11 dicas para ajudar na alfabetização de seu filho

TECNOLOGIA
52 sites que ensinam e divertem a criançada