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DE OLHO NA EDUCAÇÃO

Investir na educação infantil

Quem cuida do desenvolvimento das aptidões da criança cuida também de corrigir graves problemas do nosso ensino, garante o especialista Naercio Menezes Filho


17/12/2014 16:14
Texto Marion Frank
Educar
Foto: Maurício Mello
Foto: Para Naercio, resolver os problemas da Educação Básica é essencial para as etapas seguintes de ensino
Para Naercio, resolver os problemas da Educação Básica é essencial para as etapas seguintes de ensino

Naercio Menezes Filho tem formação em economia (Universidade de São Paulo, com doutorado na Universidade de Londres), mas é na área de educação que aplica o seu conhecimento em busca de soluções. Não tem sido tarefa fácil. Apesar dos avanços dos anos 90, com o crescimento do número de crianças e jovens nas escolas brasileiras, a tendência não permaneceu a mesma, ao contrário. "Ainda há uma parcela considerável de jovens fora da escola ou que entram no ensino médio e não ficam até a conclusão", alerta Naercio. "E existe um desafio grande de melhora, na avaliação da Prova Brasil, no 9º ano e no final do ensino médio".

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Para mudar de vez essa situação, Naercio aponta a prioridade: focar na educação infantil, a base de tudo. "Há um trabalho urgente de investimento nos primeiros anos de vida da criança, sobretudo entre as famílias mais pobres de modo a que seus filhos cheguem à escola em condições de desenvolver aptidões". Porque a maioria dos problemas detectados nos diversos níveis do ensino brasileiro - e que se acentuam na escola pública - são decorrentes do descaso com a primeira infância, avalia o especialista.

Naercio é conselheiro do Educar para Crescer. Confira o raio-x da educação que ele trouxe para nós.

Para ler, clique nos itens abaixo:
1. Como vai a educação brasileira?
Naercio: A nossa educação melhorou nos últimos 20 anos, só que o ritmo de melhora vem diminuindo - continua melhor o acesso das crianças às escolas (e também a permanência dos jovens), as matrículas nas universidades estão crescendo ano a ano, mas... O ritmo do crescimento, em todos os níveis, é hoje menor do que há dez anos.
2. Há alguma justificativa para essa ‘lentidão’?
Naercio: Na década de 90, houve a conquista de fazer com que um número maior de jovens entrasse na escola e permanecesse até o Ensino Médio - o que levou, em consequência, a um aumento de matrículas nas faculdades. Com os programas de financiamento estudantil e a criação do PROUNI (Programa Universidade para Todos), houve ainda a possibilidade de fazer com que jovens de classes econômicas mais baixas ingressassem na universidade privada e permanecessem por lá. Porém, esse aumento de matrículas não continuou com o passar do tempo, ao contrário, ainda há uma parcela significativa de jovens que estão fora da escola ou então, que entram no Ensino Médio, mas que não ficam até a sua conclusão. Nós não conseguimos melhorar essa situação nos últimos anos, infelizmente. Houve, portanto esse empurrão inicial nos anos 90, quando praticamente foi triplicado o número de jovens que ingressavam no Ensino Médio (e isso possibilitou o aumento de jovens também no Ensino Superior)...
3. Essa tendência de mais jovens na escola agora se inverteu?
Naercio: Eu diria que estabilizou... A evasão escolar no Ensino Médio continua alta, idem no Ensino Superior, afora o dado mais importante, a qualidade do nosso ensino só vem melhorando até o 5º ano do Ensino Fundamental. Ainda existe, portanto um desafio muito grande de melhora, na avaliação da Prova Brasil, no 9º ano e no final do Ensino Médio. Assim, as perspectivas da nossa educação para curto prazo e médio prazo não são muito animadoras...
4. Qual a razão do ritmo de crescimento ser hoje menor na nossa educação?
Naercio: Isso está ligado à qualidade da educação básica. O que tem de acontecer para haver uma melhora é investir nos primeiros anos de vida de uma criança. No Brasil, muito da sua vida futura depende de onde você nasceu - se nasceu em uma família de classe média alta ou alta, você tem todas as possibilidades pela frente e pode exercer suas escolhas e assim por diante, mas se nasceu em uma família de classe média ou baixa, as suas possibilidades de escolha são muito limitadas pelo fato de não receber um investimento em capital humano desde os seus primeiros anos de vida, o que implica ficar para trás no desenvolvimento das suas habilidades cognitivas e sócio-emocionais... Ou seja, quando você chega à escola, já está atrás dos seus colegas de maior poder aquisitivo - e esse processo vai se agravando ao longo do tempo com a repetência que, posteriormente, leva à evasão. Então, há um trabalho urgente de investimento nos primeiros anos de vida das crianças, sobretudo das famílias mais pobres até para estimulá-las seja por meio das próprias mães e avós ou na creche, com oferta de endereços de qualidade e cuidadoras. Para que essas crianças pobres cheguem à escola em condições de desenvolver todas as suas aptidões.
5. O seu principal foco de preocupação é, portanto a educação infantil?
Naercio: Sim, é a base de tudo. Porque, apesar dos avanços obtidos pelas reformas educacionais na década de 90, seja o FUNDEF (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério), depois o FUNDEP e o fim dos programas de repetência, afora o aumento de renda familiar que aconteceu nesse período, enfim, tudo isso fez com que as crianças e os jovens permanecessem mais tempo na escola. Porém, continua a existir um grupo que ainda está muito atrasado e sem condições de desenvolvimento. O que é decorrência desses problemas na primeira infância e que se acentuam na escola pública, com a desorganização, o corporativismo dos professores - e a própria formação desses professores, que deixa muito a desejar -, a rotatividade dos diretores de escola, as deficiências da própria família em incentivar os estudos e acompanhar os deveres de casa, então é todo um processo que começa desde o nascimento da criança e que vai ocorrendo ao longo da escola. Então, quando ela chega ao Ensino Médio, se chegar, já chega com idade de ir trabalhar e abandona a escola em nome de qualquer emprego, prejudicando o seu desenvolvimento.
6. E a alta taxa de evasão escolar no Ensino Médio é um dos retratos mais tristes da deficiência educacional brasileiro, concorda?
Naercio: Exatamente. É um problema sério, que se explica por tudo isso que aconteceu nos anos anteriores... O jovem chega ao Ensino Médio muitas vezes aos 18 anos e não quer saber de concluir, qualquer oportunidade de trabalho de salário mínimo que permita a ele comprar uma camiseta e um tênis, já é o suficiente para ele não ficar na escola, vai se sentir desestimulado...
7. E como fazer a escola brasileira se tornar interessante para essa juventude?
Naercio: Eu diria que os professores precisam ter uma formação melhor, as faculdades de Pedagogia hoje têm muito mais de cursos de filosofia e de história do pensamento e muito pouco é voltado para a didática e os métodos de ensino... Então, esse professor não tem a formação necessária para inovar em sala de aula, para prender a atenção do aluno - e isso acontece do início do Fundamental até o seu final, atingindo também o Ensino Médio. A licenciatura é muito pouco desenvolvida...
8. E a respeito do nosso currículo, a ausência de um currículo nacional, o que você tem a dizer?
Naercio: Isso é muito grave, seria bom existir uma orientação sobre o que se deve esperar que o aluno saiba a cada ano, isso é muito importante. Não importa tanto o método que o professor utilize, ele pode variar o uso deste ou daquele livro, mas importa sim saber o que o aluno tem de aprender - e cobrar do professor esse aprendizado no final do ano.
9. Também não é possível usar de muito rigor em relação ao professor porque ele trabalha em condições aquém do desejado...
Naercio: Não concordo. Ele fez um concurso, passou e tem um emprego como outro qualquer. Ok, pode ser cansativo, porque ele às vezes trabalha em dois ou três lugares...
10. E aí é que está, por que ele tem de dar aula em dois ou três lugares?
Naercio: Muitas vezes para complementar o salário...
11. Então, você concorda que o salário médio do nosso professor é altamente desestimulante... Como é que você vai atrair bons profissionais com salário tão baixo?
Naercio: Bem, a minha opinião é a seguinte, o professor, quando escolhe essa profissão, já sabe qual será a remuneração dele. Agora, quando é feita a comparação com a remuneração das escolas públicas com as privadas, e levamos em consideração os anos de aposentadoria etc., em média, o professor da escola pública vai ganhar quase o mesmo que o da escola privada. O problema aqui seria como aumentar o salário dos professores... Sim, isso deveria ocorrer desde que houvesse uma forma de remuneração por desempenho!
12. Estimular o desempenho do professor com a possibilidade de fazer carreira em sua atividade...
Naercio: Ou seja, os professores de maiores salários seriam aqueles que fossem os melhores, cujos alunos alcançassem os melhores resultados a cada ano... Professores que não tirassem licença médica, que não faltassem...Esse é um problema muito sério que aflige o nosso sistema de ensino. Como todo mundo ganha a mesma coisa independentemente do resultado, as pessoas acabam se acomodando... O ideal seria, portanto a existência de um currículo que permitisse conhecer de antemão o que cada aluno deve aprender em cada ano e que os professores que atingissem esse objetivo fossem "estimulados", recebendo um aumento salarial. Caso contrário, se ocorrer aumento salarial sem a cobrança de resultados, nada vai mudar.
13. Você disse recentemente que uma das boas notícias do novo Plano Nacional de Educação, o PNE, é a de estabelecer políticas de estímulo às escolas para melhorar o desempenho no IDEB, o que também inclui um plano de carreira para os professores dessas escolas...
Naercio: Sim, isso foi bastante importante.
14. De modo geral, como você avalia o PNE?
Naercio: Ele é muito ruim. Basicamente é um plano feito para atender os movimentos corporativistas dos professores, diretores e educadores - e menos os alunos. Tem muita coisa de gestão democrática do ensino, muita palavra bonita, metas de gastos, metas de salários e formação de professores, enfim, metas irrealistas em todas as áreas... E muita pouca coisa voltada para o aluno, o que ele deve efetivamente saber. Um plano voltado para os agentes que estão no meio do processo, servindo para defender os seus interesses. É muito ruim.
15. Você poderia citar exemplos de metas do PNE que entende irrealizáveis?
Naercio: No ensino infantil, por exemplo, ampliar a oferta de creche em 50% para atingir crianças de até 3 anos... É completamente irrealista! Não tem instalação, não tem local, o ritmo de construção de creche é lento, o investimento é alto para cada criança, precisa de cuidadora, enfim, é algo impossível de ser alcançado em dez anos. Também a meta da formação continuada de professores com pós-graduação...
16. Sim, no PNE, ela determina que 50% dos professores do ensino básico estejam formados em nível de pós-graduação... Algo impossível?
Naercio: Sim, isso não existe, há ainda uma grande parcela de professores sem graduação quanto mais pensar naqueles com pós-graduação...
17. Ou seja, pode-se dizer que o novo PNE é utópico demais?
Naercio: Totalmente, mas não tem problema. As metas desse plano não serão atingidas, então ninguém será responsabilizado, ninguém vai levar a culpa, é só para agradar os movimentos corporativistas, não haverá consequência mais séria, na verdade...
18. E em relação ao financiamento... Quando se estabelece 10% do PIB até o final de dez anos de vigência do plano, o que está sendo feito é mais um jogo de cena, político, para agradar a sociedade?
Naercio: Sim, é isso mesmo, porque é outra meta impossível de ser atingida, além de não ser necessária. Com a mudança demográfica, o número de alunos está diminuindo e o País já gasta bastante dinheiro em educação, cerca de 6,2% do PIB, o que é similar ao gasto de outros países desenvolvidos... Então, o grande problema não é só o dinheiro, mas sim a forma como os recursos são gastos, a sua gestão. Sobral, no Ceará, por exemplo, conseguiu aumentar 100 pontos na Prova Brasil de Matemática em cinco anos somente com melhoria de gestão, foco na alfabetização, avaliação constante de todos os alunos, afastamento dos professores que não estavam desempenhando bem, treinamento dos melhores professores e escolas, adoção de um currículo básico unificado para todas as redes... E tudo isso sem gastar mais, só com gestão, isso tudo, sobretudo na rede municipal de ensino.
19. Exemplo notável, que poderia fazer escola Brasil afora...
Naercio: Claro. Ou seja, enquanto não houver foco na gestão de premiar os melhores professores e no incentivo das melhores práticas, acho que não vamos dar passos rápidos no sentido de uma educação de qualidade, que é o que todos nós queremos.

 

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