Educar para Crescer
busca

Educar para crescer

DE OLHO NA EDUCAÇÃO

Maria Helena Guimarães e Castro: boa de ideias - e de briga

Poucos conhecem tanto sobre Educação brasileira quanto Maria Helena Guimarães de Castro. Que discute e bate o pé em nome do que acredita


12/12/2014 17:08
Texto Marion Frank
Educar
Foto: Maurício Mello
Foto: Maria Helena Guimarães avalia como têm sido os resultados das políticas públicas para a educação no Brasil
Maria Helena Guimarães avalia como têm sido os resultados das políticas públicas para a educação no Brasil

"Pergunta para a Maria Helena!".
É assim que se aconselham formadores de opinião diante de dúvidas sobre taxas relevantes do ensino no Brasil. Professora aposentada da UNICAMP, socióloga de formação com doutorado em Ciências Políticas, Maria Helena Guimarães de Castro é conselheira do Educar para Crescer e um dos nomes mais recorrentes entre especialistas, quando o tema diz respeito a políticas educacionais. "Consigo traduzir as articulações entre os níveis de governo, como é o padrão de financiamento etc.", diz ela, prática.


Primeira Infância O que é o Educar para Crescer
Conheça a missão e os objetivos do movimento

Secretária-executiva do ministério de Educação no governo Fernando Henrique Cardoso  (2002), ela já esteve à frente do INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas) e hoje é diretora da Fundação SEADE, em São Paulo. Por onde passa, no entanto, causa sempre impressão o ardor com que defende seus pontos de vista. "Como é que vou atrair bons professores, se o início da carreira é uma porcaria? E eu vivo brigando por isso, sou conhecida como ‘bicuda’, mas não tem jeito...", revela.

Do Brasil, que conhece de Norte a Sul, Maria Helena guarda memória das escolas de chão de terra "...que ainda hoje existem no interior da Paraíba, do Piauí, uma tristeza". Conheça mais sobre essa brasileira apaixonada na entrevista a seguir.

Para ler, clique nos itens abaixo:
1. Ideologias à parte, estamos vivendo um momento de incertezas, às vésperas do segundo mandato do governo Dilma...
Maria Helena: Ninguém sabe para onde vai o País, não é mesmo?
2. Pois então, como vai a Educação no Brasil?
Maria Helena: Acho que vai mal - e por algumas razões. Houve, nos últimos quinze anos, um processo gradual de melhoria e de prioridade à Educação Fundamental e, depois, à Educação Infantil e muitas tentativas de reforma no Ensino Médio, mas o que mostram as avaliações nacionais é uma situação estranha, que ainda não aconteceu em outro país, só no Brasil. Entenda. Nos anos 90, há um grande processo de inclusão - todas as crianças entram no Ensino Fundamental, imagine a situação, você tinha, em 1994, apenas 89% das crianças de 7 a 14 anos na escola e as que estavam fora eram exatamente as mais pobres... E o governo FHC (Fernando Henrique Cardoso) terminou e o governo Lula (Luiz Inácio Lula da Silva) teve início, em 2002, com 96% das crianças dessa faixa etária na escola. Efeito de duas políticas principais, o FUNDEF (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério), criado em 1996 e implantado em 1998, que, por sua vez, deu origem ao FUNDEB (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e Valorização dos Profissionais de Educação), em 2007, criado pelo governo Lula.
3. Você poderia falar um pouco sobre o FUNDEF e o FUNDEB?
Maria Helena: Eles funcionam com a mesma lógica. Um sistema de financiamento da educação básica - a partir de todos os recursos vinculados à educação, 18% do governo federal e 25% dos estados e municípios, como é determinado pela Constituição brasileira, esse dinheiro passou a ser dirigido à educação básica, ou seja, garantir que todas as crianças de 7 a 14 anos fossem à escola - regra em vigor em todo mundo, até mesmo na Finlândia. Foram identificados problemas como o do Maranhão, onde, em 1995/1996, o aluno da escola pública estadual custava mais ou menos R$ 2500 por ano, ao passo que o aluno da escola pública municipal (a extensa maioria, a propósito) custava cerca de R$ 70 por ano - os professores ganhavam R$ 20 por mês, acredita? O que deixou o ministro da Educação Paulo Renato (Souza) e o presidente Fernando Henrique completamente estatelados... Então, qual era a prioridade? Estabelecer uma política de inclusão e equidade.
4. Como funcionou, na prática, essa política de inclusão e equidade?
Maria Helena: Os recursos de educação foram distribuídos aos estados de acordo com o seu número de matrículas. No Maranhão, por exemplo, quem perdeu dinheiro foi exatamente o governo estadual em benefício das prefeituras (com maior número de escolas públicas); já em São Paulo, onde acontecia situação oposta, a grande maioria dos alunos estava matriculada em escolas públicas estaduais, enquanto as escolas municipais só atendiam à educação infantil... Então, quem ganhou ali foi o governo estadual. Em suma, essa medida promoveu a regra de equidade, além de favorecer a inclusão de todos. Uma política que começou a ser implantada a partir de 1998.
5. E a respeito do FUNDEB, o que valeria destacar?
Maria Helena: Em 2007, no governo Lula, a mesma regra ganhou outro nome, FUNDEB, incluindo a Educação Infantil e o Ensino Médio - e considerando, claro, que todas as crianças de 7 a 14 anos já estão na escola.
6. Então, dá para concluir que houve de fato um avanço na nossa educação nos anos 90...
Maria Helena: Sim, sendo que o avanço da década seguinte, de 2000 a 2010, foi o de expandir o atendimento da educação infantil, porque o ensino médio permaneceu estagnado... Creche e pré-escola realmente cresceram nessa década, assim como a melhoria da qualidade de ensino dos anos iniciais, o da alfabetização. Também é preciso destacar, nos anos 90, a criação do SAEB (Sistema de Avaliação da Educação Básica) em 1995, e do ENEM (Exame Nacional de Ensino Médio) em 1998, sistemas de avaliação mantidos nos governos seguintes, é a importância do monitoramento e dos indicadores de desempenho, de grande valia para os estados e municípios, além de devolver informação para a sociedade. E aqui eu chego ao grande problema...
7. Algo vai mal com o nosso ensino básico, ok. Mas o quê?
Maria Helena: Veja, em 2005, foi realizada a primeira Prova Brasil, que alcançou todas as escolas urbanas com mais de 100 alunos. Era uma avaliação muito oportuna e necessária, servindo de referência para melhorar o ensino e a formação do professor etc. Em 2007, foi observado que as crianças do 4º ano que, depois se tornou 5º, estavam melhorando. E a expectativa de todos os que trabalhavam em educação é que haveria um reflexo forte, promissor, nos anos subsequentes - no final do Ensino Fundamental, no 9º ano. Mas não foi o que aconteceu. Esse é o grande fracasso da política educacional dos últimos anos.
8. Você já tem uma avaliação sobre o que está dando errado nesse período do Ensino Fundamental?
Maria Helena: Sim, tenho. E isso acontece praticamente em todo o Brasil, talvez só em Minas Gerais e no Ceará houve avanço dos alunos no 9º ano, em razão de políticas regionais muito interessantes. No estado de São Paulo, o 5º e o 9º anos mantém um processo de melhoria gradual, mas sem dar um salto de qualidade. E ainda em relação a São Paulo e também ao estado de Santa Catarina e ao de Goiás, vale lembrar que eles apresentam o melhor desempenho em Ensino Médio, mas se trata de um desempenho que precisa ser avaliado com muito cuidado, pois é pífio. O resto do país? Triste, muito triste. Então, o que aconteceu? Tenho várias hipóteses. Há uma total desconexão entre os anos iniciais do Ensino Fundamental e os anos finais do Ensino Médio. Nos anos iniciais, 80% das matrículas são municipais, ao passo que, nos anos finais, 70% delas são estaduais. Isso significa que a criança que sai alfabetizada da escola municipal vai ingressar quase sempre em uma escola estadual, ou seja, a transição entre o 5º e o 6º anos está acontecendo da forma mais desordenada do mundo! Lembre-se. A partir do 6º ano, há um professor de matemática, outro, de português, outro ainda de história e mais um, de geografia - e até o 5º ano, é um professor só. No meu tempo, havia um exame de admissão para entrar no ginásio. Era um exame que servia de peneira, se o aluno não estivesse preparado, ele não ia para o ginásio...
9. O exame de admissão servia de controle de qualidade, certo?
Maria Helena: Sim, mas o que temos hoje? Existe uma avaliação nacional e ela mostra que, ao final do 5º ano, a criança está melhorando, está lendo melhor, está aprendendo a fazer contas etc., só que ela se perde do 6º ano em diante!
10. Talvez a falta de um currículo nacional possa também explicar esse ‘buraco negro’ do 6º ano...
Maria Helena: Esse é o primeiro grande problema, a falta de uma base curricular nacional comum, o professor recebe um aluno que não sabe nada, essa é a grande queixa por parte dos professores - e os alunos, de sua parte, chegam ao 6º ano desesperados, porque gostariam de entender alguma coisa... Mas há um segundo problema. A formação inicial e continuada do professor. Esse professor, que atende do 6º ao 9º anos, não tem experiência prática com a didática, com a sala de aula... Por isso, o 6º ano vem apresentando taxas muito altas de reprovação, aliás, a reprovação não melhora o aprendizado, porque o problema é muito mais da escola que do aluno, algo em torno de 15% a 18% de reprovação a nível nacional, o que é muito alto - se olhar a taxa de reprovação da escola particular, ela é em média de 5%, no 6º ano... De um universo de 30 milhões de crianças, é uma taxa muito alta! E o pior é isso, a criança chega e não entende onde está, nem tem o devido acolhimento...
11. Do jeito que você expõe a situação, a escola se mostra bastante desorganizada do 6º ano em diante...
Maria Helena: Sim, existe uma dificuldade em receber esse aluno por parte da escola, não há mais o exame de admissão, que servia de transição... A criança sai de uma escolinha e cai em uma muito maior, onde a sala está lotada de alunos, onde há falta de professor, onde há violência etc. Aí está um grande nó e ninguém anda mexendo nisso. Há uma ausência de políticas públicas na área de educação, com foco nessa etapa, do 6º ao 9º anos. Como é que eu faço para criar um regime de colaboração entre o estado e seus municípios para que não ocorra esse divórcio, o pior divórcio do mundo porque em nada amigável, entre a gestão estadual e a gestão municipal...
12. O PNE, a propósito, não determina metas para a união entre estado e municípios?
Maria Helena: Mas isso não se faz por decreto, certo? Quem sabe alguma coisa de gestão pública sabe também que isso depende de estratégias políticas, de um conjunto de regras, mas também depende de como os três níveis de governo vão se articular - e, sobretudo, depende do governo federal, que tem um papel de coordenação nacional da política de educação que não está sendo cumprido.
13. Daí você ter iniciado esta entrevista dizendo que a educação brasileira vai mal...
Maria Helena: Sim. O que diz a Constituição - e nisso, todos nós, de todos os partidos, estamos defendendo - quem é sério e está preocupado com a educação brasileira acaba por fazer o mesmo diagnóstico, todos falam a mesma coisa, nós precisamos criar um regime de colaboração que realmente funcione e garantir o papel do Ministério da Educação na coordenação nacional das políticas - o que está garantido na Constituição e na LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional). Quando Haddad (Fernando) era ministro da Educação, em 2007, esse papel foi tentado com o Programa de Ações Articuladas (PAR). Ele foi lançado pelo Haddad, junto com o FUNDEB, e era uma boa ideia, sim. Só que, em lugar de funcionar como um plano de articulação conjunta, de integração entre o estado e seus municípios, com o papel complementar da União, ele se tornou uma espécie de estratégia de negociação caso a caso... Agora, o prefeito "A" vai negociar direto com o Ministério da Educação um plano de obras e... bem, isso não vai dar em nada. Enfim, temos um problema de currículo, que eu entendo ser gravíssimo, junto com outro, a falta de formação dos professores.
14. E a ausência de uma gestão de qualidade, não lhe parece um problema igualmente grave?
Maria Helena: Ela vem depois... Porque se eu tenho uma base curricular nacional comum, que ela fique clara do Oiapoque ao Chuí, do qual 60% do que deve ser garantido que todo mundo aprenda será depois avaliado pelo Ministério da Educação - e os outros 40%, podem ficar por conta das adaptações de cada escola, não é preciso meter o bedelho nisso, não. E a formação inicial dos professores, a esse respeito, o MEC tem a faca e o queijo na mão, afinal, 75% do ensino superior no Brasil é particular. Mais: o ensino superior privado tem 60% dos alunos financiados pelo PROUNI (Programa Universidade para Todos) e pelo FIES (Fundo de Financiamento Estudantil) - ou seja, o ensino superior brasileiro é financiado pelo Ministério da Educação, que tem assim todas as condições de exigir mais qualidade, de inovar o currículo de formação dos professores... Com os nossos impostos, é certo, mas por que o ministério não cobra uma formação inicial melhor? E tem ainda mais um ponto: definir um pacote de medidas que vão do tamanho da creche ao material paradidático, o MEC tenta sempre fazer isso bem feito, organiza comissões, faz a compra, a escola recebe o material e fica tudo guardado em uma sala até a diretora poder checar - e aí, bem, entra a gestão...
15. No Brasil, o diretor de escola tem de olhar e cuidar de tudo o que acontece no local onde trabalha...
Maria Helena: Sim, em nosso País, não existe algo que é perfeitamente normal nos países desenvolvidos, ou seja, um diretor administrativo e um diretor pedagógico ou um diretor geral, que é o mínimo que se exige para colocar uma escola funcionando... O administrativo vai cuidar da prestação de contas, checar se chegaram todos os livros enviados pelo MEC, a questão da merenda, o dinheiro do FUNDEB que deve atender o aluno... Enfim, há uma enorme burocracia que o diretor não dá conta, muito menos da qualidade do ensino.
16. Em suma, o nosso aluno, em plena era do conhecimento, frequenta uma escola atormentada por problemas do século passado...
Maria Helena: Afora o currículo, que é uma tragédia grega. Excessivamente disciplinar e ainda por cima, superficial. O aluno não tem a oportunidade de aprofundar em nada. Para você ter uma ideia, no Canadá, o currículo do Ensino Médio tem apenas quatro disciplinas obrigatórias, a Inglaterra, cinco, e o nosso, treze!!! Você acha que vai funcionar? Só que os alunos, no Canadá, ficam em média seis horas e meia na escola por dia...
17. A propósito, quantas horas você entende que o aluno deve passar na escola em nome de um currículo de qualidade?
Maria Helena: No mínimo, cinco horas e meia a seis horas diárias para dar conta de um currículo. No Brasil, os nossos alunos ficam em média quatro horas. Seria ótimo que houvesse uma lei nacional que tornasse obrigatório a criança ficar seis horas por dia... Isso é mais viável do que uma escola em tempo integral, que vai apenas atender a um número pequeno de alunos - em cinco anos, atingiu apenas 10%.
18. Mas seria uma permanência na escola associada a práticas esportivas, por exemplo?
Maria Helena: Associada a atividades esportivas e culturais, muitas delas articuladas com o currículo, certo? Com um belíssimo programa de leituras e visita a museus, teatro, cinema, exposições etc., que tenha respaldo no currículo regular, isso tudo precisa andar junto, mas para que isso aconteça é preciso professor e tempo.
19. E pode-se atribuir a esse currículo ‘trágico’ responsabilidade pela alta taxa de evasão escolar no Ensino Médio?
Maria Helena: Sim, porque no Ensino Médio piora tudo, o currículo não conversa com o aluno, não faz sentido para a vida dele... Apesar dos avanços já obtidos, como no ponto de vista da inclusão e também ao definir regras mais justas de financiamento, evitando enormes disparidades que existiam - e ainda assim permanecem desigualdades educacionais enormes no Brasil até hoje, e isso mesmo definindo o investimento per capita por aluno/ano, cerca de R$ 2 mil, o que ainda é pouco, em minha opinião... Quando o estado não consegue alcançar essa meta, o Ministério de Educação complementa o que falta, mas a desigualdade se mantém. Em São Paulo, a média de investimento é de R$ 3,2 mil por aluno/ano; no Distrito Federal, mais de R$ 4mil por aluno/ano; e, em Roraima, onde tem dinheiro, mas não tem aluno, essa média é superior a R$ 5 mil! Então, coisas bem estranhas andam acontecendo no Brasil.
20. É tão ruim assim a situação do nosso Ensino Médio?
Maria Helena: É uma desgraça! Você tem 54% dos jovens entre 15 e 17 anos do País frequentando o Ensino Médio e, a respeito dos que concluem, cuja média chega à metade dos que entraram, só 10% adquire os conhecimentos básicos de Matemática - e só 28%, os conhecimentos básicos da Língua Portuguesa. É muito tris-te!!! E daí os jovens ficam desesperados, entram nas universidades sem ter os conhecimentos necessários, de sua parte, as universidades não sabem o que fazer, agora estão fazendo curso de nivelamento quando entram...
21. Mas, de certa forma, você conseguiu mostrar que o problema começa antes, já no Fundamental, quando o ensino das crianças começa a andar para trás...
Maria Helena: Para mim, esse é o momento crucial. O aluno já chega derrotado, despreparado, a um momento importantíssimo da sua instrução. E tem outro grave problema, que é o próprio currículo do Ensino Médio, um currículo trágico, fragmentado e superficial, e ainda agravado porque não tem professor suficiente para dar aula...
22. Para ficar claro, o custo do aluno hoje por ano é de aproximadamente R$ 2 mil, é a média nacional, certo? E, quando comparada a um país desenvolvido...
Maria Helena: Essa média é ridícula! Um país desenvolvido tem como média, falo dos países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), algo em torno a US$ 6,5/7 mil dólares por aluno/ano. Ou seja, chega a ser sete vezes maior que o investimento brasileiro. Isso não acontece, porém, no ensino superior público - um aluno de uma universidade federal custa para o governo federal e para o MEC o mesmo que a média da OCDE, cerca de US$ 15 mil dólares.
23. Qual a razão desse alto investimento brasileiro no universitário por parte do governo federal?
Maria Helena: O nosso ensino público universitário tem aquilo que os americanos chamam de ‘mistargeting’, ou seja, erro de posicionamento. É um ensino para poucos - 75% do ensino superior brasileiro é privado e 25%, público, é a média nacional, sendo que a de São Paulo é ainda maior, 90% do ensino é privado! O que acontece? O ensino público brasileiro, seja aonde for, é seletivo, de maior qualidade, a maioria dos cursos em período integral, o que faz ser um ensino muito caro porque custa caro manter os alunos (e ainda mais a dedicação exclusiva de professores) o dia todo na universidade, e desde a sua criação, primeiro no Recife, e mesmo depois aqui, a USP (Universidade de São Paulo), foram universidades criadas segundo o ideal francês de excelência... Claro, ninguém é contra, mas é bem ao contrário da filosofia em vigor na universidade pública americana - que é exatamente de atender às grandes massas. No Brasil, não. As melhores universidades foram criadas para atender às elites, bancadas pelo Estado, com oferta de ensino de alta qualidade, ao passo que a educação básica, que era para todos, não recebia atendimento especial algum... O que me deixa ainda hoje revoltada.
24. A educação é mesmo a sua vida, não é?
Maria Helena: Sim, eu mexo com educação há muito tempo... Sou professora aposentada da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), mas, nos anos 80, eu era diretora do núcleo de Políticas Públicas daquela universidade, período em que me dediquei a avaliar as políticas educacionais e também as de saúde. Esse sempre foi o meu foco. Sou formada em Sociologia, com doutorado em Ciências Políticas. Por isso, eu consigo traduzir o que acontece dentro de uma política pública, como acontecem as articulações entre os níveis de governo, como é o padrão de financiamento etc.
25. Então, a partir da sua expertise, você entende que o novo PNE tem ou não sua utilidade?
Maria Helena: Pode até ser... Ele tem algumas coisas boas, como a formação de professores e o incentivo à carreira - porque esse é outro grave problema, como é que eu vou atrair bons professores, se o início da carreira é uma porcaria? Eu vivo brigando por isso... Sou rigorosa mesmo. Para a carreira do professor seja atraente já desde o Ensino Médio, a carreira do professor precisa ser valorizada pela sociedade e precisa também ter um salário atraente! O PNE, nesse ponto, estabelece a obrigatoriedade da carreira, assim como a do piso salarial - até hoje existem 11 estados que simplesmente não cumprem, não sei como...
26. Qual é o piso salarial do professor brasileiro?
Maria Helena: Hoje é, em todo o território nacional, de R$ 1780 para a jornada de 40 horas. O que continua a ser pouco. E eu brigo, eu falo, sou conhecida como ‘bicuda’, mas não tem jeito...
27. Você acredita na implantação do PNE recém-aprovado?
Maria Helena: Olhe, a respeito do anterior, de 2001, ele não seguiu adiante... E daí a maioria dos especialistas em educação simplesmente não acredita que desta vez será diferente... Por exemplo, sou totalmente a favor de investir 10% dos royalties do petróleo em educação, mas... Isso vai de fato acontecer? Vai?
28. Você considera esse dinheiro suficiente para dar uma boa mexida na nossa educação?
Maria Helena: Sim, acho que é suficiente... Desde que não seja desviada para pagar propina para a Petrobrás... Enfim. É um plano de dez anos, que foi aprovado em 2014 e vai valer até 2024. E não se trata apenas de uma questão de vontade política, mas sim de regulamentar uma serie de coisas para fazer esse plano valer... Por exemplo. A Base Nacional Comum para a Educação Básica (que pretende criar uma base de ensino de Norte a Sul) deve ficar pronta até 2016... Está lá, é uma das metas a ser alcançada. Acredita nisso? Du-vi-do! Até porque o MEC só chamou até agora as universidades federais e os sindicatos para discutir, todo mundo têm a sua ideia e todo mundo é contra... O MEC vai querer fazer um acordo para ficar de bem com as universidades públicas, os grandes doutores e coisa e tal - e não vai sair nada. Estou a cada dia mais frustrada, porque defendo a criação dessa Base Nacional Comum, faço parte de um grupo de trabalho, mas não estou acreditando muito... Tem também a questão das carreiras. Aí, se houver uma pressão forte dos sindicatos etc. em favor da carreira e do salário inicial, pode ser que aconteça alguma coisa, mas aí há o problema de que os municípios não vão aguentar pagar, o que vai obrigar à União aumentar a contribuição dela... E ela vai pagar? Não sei...
29. E quanto à meta da educação infantil, de universalizar esse ensino para todas as crianças entre 4 e 5 anos até 2016... Acha possível?
Maria Helena: Tenho certeza de que vamos atingir essa meta, faltam 900 mil vagas, e isso vai acontecer até 2016, certeza absoluta. Creches? De 0 a 3 anos, a meta é atingir 50%, até 2024. Também vai se chegar até lá, as mães vão pressionar - e creche dá voto (sim, eu sou prática...).
30. Qual meta do novo PNE você considera irrealizável?
Maria Helena: A do Ensino Médio. Só do governo Lula para cá, o MEC já lançou cinco reformas do Ensino Médio e nenhuma conseguiu ser implantada, sabia disso? Em 2004, o Lula desfez a reforma iniciada pelo Paulo Renato em 1998 e introduziu algumas mudanças; em 2005, incluíram a Filosofia e a Sociologia, definindo alguns conteúdos curriculares obrigatórios que mais ou menos não fizeram nenhuma diferença no aprendizado... Só o Haddad lançou três reformas entre 2007 e 2011, depois o Mercadante chegou e... Cada um que chega lança uma coisa e não acontece rigorosamente nada, entendeu?
31. E vamos assim perdendo a oportunidade de dar um ensino de qualidade à nossa juventude...
Maria Helena: Exatamente. Agora, quanto ao financiamento, eu sou a favor, mas desde que aconteça um claro monitoramente da aplicação de recursos de modo a que esse dinheiro seja investido onde realmente importa - na formação e na carreira dos professores e também nas condições de trabalho da escola. Não adianta nada ter um prédio maravilhoso, por exemplo, se ele não tiver o acesso à internet para que todos os alunos possam acessar as plataformas digitais ou a oferta de transporte para facilitar a vida do aluno que mora longe... Tem um básico aí, que precisa ainda ser feito, não adianta... Vai passear pelo Brasil! Eu conheço escola que até hoje tem chão de terra, isso acontece no interior da Paraíba, do Piauí... Acho tudo isso uma tristeza.
32. Enfim, qual é a sua conclusão sobre o PNE?
Maria Helena: Se for cumprido em 50% das metas, já está bom. E as minhas prioridades, em relação a esses 50%, são: garantir a universalização da pré-escola, melhorar a carreira do professor (incluindo a remuneração inicial), mudar a formação desse profissional, com residência pedagógica desde o início (porque a ênfase hoje é apenas teórica, e não didática), ter uma Base Nacional Comum e, o mais importante, usar os resultados das avaliações nacionais para melhorar o que é dado em sala de aula. Isso não vem acontecendo de modo bem feito... Ou seja: pego os resultados de uma Prova Brasil e analiso pedagogicamente, faço uma capacitação dos professores dentro da escola e coloco uma supervisão pedagógica para acompanhar as escolas de pior desempenho de modo a checar se elas estão ou não melhorando... Isso é muito fácil de fazer e não custa dinheiro, gente!
33. Você nada falou sobre o desempenho do Ensino Médio no Rio Grande do Sul...
Maria Helena: Só piora, vai mal. O estado que realmente melhorou, no Ensino Médio, foi Goiás - e eu estou até agora curiosa, quero entender o que aconteceu por lá para ter alcançado esse bom resultado. O Ceará também teve melhorias, graças a um novo sistema de financiamento do Ensino Médio e de apoio aos municípios, o que é muito legal, um regime de colaboração que funciona. Aonde vamos bem? Santa Catarina tem um desempenho bom, mas também Santa Catarina é, digamos, a Finlândia brasileira em educação, são quatro milhões de habitantes e um universo sócioeconômico homogêneo, com professores bem formados - você sabia que até hoje 30% dos nossos professores não tem nível superior nem titulação específica?
34. Eles são uns heróis...
Maria Helena: Com certeza, são.

 

amigos do educar

 


lição de casa

Crianças que fazem a lição de casa diariamente aprendem mais, têm notas melhores e se tornam mais seguras. Faça a sua parte!



depoimentos

Marina Silva, Martha Medeiros, Nelson Motta e outras personalidades brasileiras revelam o impacto de uma boa Educação no futuro



recomendamos

EDUCAÇÃO INFANTIL
Como contribuir com essa importante fase de formação da criança

ENSINO FUNDAMENTAL 1
Como acompanhar os primeiros passos da vida escolar de seu filho

ENSINO MÉDIO
Dicas para pais e alunos enfrentarem esta fase de novos desafios

mais lidos

ALFABETIZAÇÃO
11 dicas para ajudar na alfabetização de seu filho

TECNOLOGIA
52 sites que ensinam e divertem a criançada