Educar para Crescer
busca

Educar para crescer

DE OLHO NA EDUCAÇÃO

Wanda Engel batalha por uma educação sustentável

De carreira pública notável, defensora da oferta equânime de ensino de Norte a Sul, Wanda Engel mantém-se confiante sobre o futuro da nossa educação – e diz a razão


17/12/2014 16:58
Texto Marion Frank
Educar
Foto: Maurício Mello
Foto: Para Wanda Engel, um dos principais problemas da educação hoje em dia está na formação dos professores e gestores
Para Wanda Engel, um dos principais problemas da educação hoje em dia está na formação dos professores e gestores

Wanda Engel é uma brasileira do tipo inesquecível. Tudo o que ela faz é com o objetivo de progredir - a cidade, o país ou o indivíduo mais próximo. Em defesa do menino de rua, participou da criação do Estatuto do Jovem e da Criança. Quando foi ministra de Assistência Social, no segundo mandato do governo Fernando Henrique Cardoso, teve a ideia do Cadastro Único, que deu rosto e nome à população de baixa renda do País (embrião do atual Bolsa Família). Wanda é também conselheira do Educar para Crescer. E agora, ao lado de grandes empresários, está à frente de um plano que vem revolucionando a educação no Pará desde 2013.

Primeira Infância O que é o Educar para Crescer
Conheça a missão e os objetivos do movimento

Professora de geografia, Wanda viveu ao lado da família uma infância difícil, quando o pai ficou doente e o dinheiro não dava para as despesas do mês. Mas foi ganhar uma bolsa de estudos no Instituto de Educação, então colégio público de ponta, no Rio de Janeiro, para mostrar o talento nos estudos - e a garra que se tornaria sua marca. Poucos sabem tão bem defender a importância da educação na hora de acabar com as nossas desigualdades sociais. "Se você quiser realmente cortar a pobreza pela raiz, tem de permitir que o filho do pobre termine o Ensino Médio. Essa é a verdadeira política de combate à pobreza, é dar essa garantia", diz.

Confira outras ideias de como fazer o País evoluir na entrevista a seguir.

Para ler, clique nos itens abaixo:
1. Estamos vivendo um momento de incertezas, às vésperas do segundo mandato do governo Dilma... Dentro desse contexto, como você vê a educação?
Esse é um governo que fala muito sobre o desenvolvimento econômico e a diminuição da pobreza... E o que está por trás disso? A educação. Ela está relacionada não apenas aos anos de escolaridade, mas também à qualidade do ensino. Por isso, se quisermos alcançar uma taxa de crescimento sustentável, há de melhorar tanto a escolaridade do brasileiro, quanto a qualidade da sua educação. E em termos de anos de estudo, vamos muito mal. O brasileiro tem em média 9,8 anos de escolaridade - ou seja, ele só fica na escola até o final do Ensino Fundamental. O tempo cresceu? Sim, mas não o suficiente.
2. Desde quando o brasileiro permanece mais tempo na escola?
De 1995 até hoje, a média cresceu de 7,2 a 9,8 anos de escolaridade - mas, de fato, ela vem crescendo há 20 anos. Aliás, o único ponto que ficou realmente superior à média da década foi no atendimento a crianças de 4 a 6 anos, a Pré-escola. Quanto a creches e ao Ensino Fundamental, o crescimento foi inferior ao ocorrido nos dez anos anteriores.
3. Você se sente ou não esperançosa no que diz respeito à educação no próximo governo Dilma?
Há de haver um choque heterodoxo na educação. Assim como o modelo econômico está esgotado, o mesmo acontece com o nosso modelo de educação. Nós gastamos hoje algo em torno a 5,3% do PIB em educação e vamos passar a gastar 10%, segundo o que acaba de ser determinado pelo PNE (Plano Nacional de Educação). Ou seja, vamos dobrar o investimento. Mas, o que eu temo é que, se não for feito um trabalho de melhoria de gestão, esse investimento duas vezes maior, esse 5% a mais, possa se perder pelo ralo... Hoje a educação brasileira tem um problema sério de gestão - e em todos os níveis, desde o nível dos sistemas ao das escolas. Aliás, se tivesse de apontar um primeiro problema, ele seria o da formação dos profissionais de educação.
4. O problema da formação dos professores parece ser uma unanimidade entre os especialistas em educação...
Entenda, o gestor não aprende a gerir, o professor não aprende a ensinar, o coordenador não aprende a coordenar e assim acontece, no Brasil, uma formação generalista e altamente ideologizada. Aprendem tudo sobre os maiores nomes - Paulo Freire, Jean Piaget... - e não aprendem o que ensinar, nem como ensinar. Exemplo: Minas Gerais fez uma experiência interessante, disponibilizando itens aos professores de questões da Prova Brasil para que as provas mensais pudessem ficar alinhadas à avaliação nacional. Eles podiam escolher esses itens de acordo com o que estavam dando em aula, mas tinham também de responder às questões para conhecer o gabarito que iriam utilizar... O que teve de professor ganhando zero na prova que ele deveria aplicar aos seus alunos!
5. Falta formação específica também?
Sim, é o professor de Matemática que não tem formação sólida da Matemática que vai dar aula dessa disciplina aos alunos, idem o professor de Língua Portuguesa... Mais: ele não tem formação sobre como dar essa matéria. O engenheiro aprende sua profissão construindo, certo? Mas, o nosso professor não aprende, na escola, a como fazer uma didática em grupo, a como lidar com as questões de violência dentro da classe, enfim, ele não tem metodologia nenhuma! Do mesmo modo o diretor de escola não aprende como aplicar as cinco questões principais do dia a dia da sua escola: o que ele deve fazer para estimular o professor a frequentar a escola, como ele deve agir para que os alunos frequentem a escola - e ocorra então esse encontro ‘mágico’ entre alunos e professores... -, o que ele pode fazer para ajudar o professor a ensinar, o que ele pode fazer para estimular o aluno a aprender e como ele pode criar um clima favorável entre eles... Mas ele não sabe fazer isso, o diretor de escola também não tem formação para dirigir, não sabe gerir e se perde no cipó burocrático.
6. Se o professor se perde no cipó burocrático, você puxaria por aí o fio da meada cada vez mais intricada do ensino brasileiro?
Sim, começaria por aí e ao mesmo tempo conjugaria a formação com a valorização do profissional para estimular e atrair os melhores... Sim, é preciso mexer profundamente na formação de quem trabalha com educação no País. Mas sabe o que é o pior? Quem é que vai dar a formação de serviço? As mesmas faculdades onde esses profissionais fizeram seus estudos. E aí começa tudo de novo, eles vão estudar Teoria da Educação, a Filosofia da Educação Piaget, Paulo Freire... E vão continuar a não saber como ensinar. Enfim, há um ciclo realmente perverso de formação.
7. Como romper com essa formação com tantos vícios?
Sabe o que acontece? Esse professor absolutamente despreparado acaba aprendendo a lecionar na prática, sem ter alguém que possa auxiliá-lo... Agora, em São Paulo, já começa a existir um programa de tutoria (Programa de Formação de Tutores - PROFORT), os mais experientes se tornam preceptores dos mais novos... Hoje os professores de todo País têm direito a 1/3 da sua carga horária para planejamento pessoal, só que esse 1/3 não é aproveitado para nada, nada. Na minha época, havia um Centro de Estudos e todos os professores de uma disciplina se reuniam, por exemplo, em um horário comum para trocar experiências, ideias de planejamento comum...
8. Você deu aula de que disciplina?
Fui professora de geografia, veja só! (rs) Tive uma infância difícil, mas o que fez a diferença em minha vida foi a qualidade de ensino que recebi desde o início, eu frequentei uma escola pública que era simplesmente a melhor da minha cidade, o Instituto de Educação do Rio de Janeiro. Era mais difícil entrar nessa escola do que concorrer a um vestibular de Medicina, algo como seis mil candidatos para 90 vagas, imagine! E o que acontecia? Noventa por cento das alunas pertenciam a classes de alto poder aquisitivo e as suas famílias pagavam uma taxa escolar, que servia de sistema de assistência de proteção social às alunas menos favorecidas - era dinheiro para condução, era bolsa alimentação, era tratamento dentário, era dinheiro para comprar livros... Enfim, tudo de bom.
9. A sua família chegou a passar necessidade?
O meu pai, que era mecânico, ficou tuberculoso e diabético ao mesmo tempo, ele foi para Campos de Jordão se tratar... E ficamos dependendo do salário mínimo da aposentadoria dele, éramos quatro em casa e vivemos na linha da indigência. Agora, a minha irmã já tinha entrado no Instituto de Educação, depois foi a minha vez... Mas, aquele dinheiro que recebíamos da escola era mesmo a nossa proteção social, foi o que nos salvou durante os onze anos que estudamos por lá.
10. Ainda sobre o problema da formação dos professores, seria o caso de o Ministério da Educação, o MEC, estimular o mundo universitário a se comportar de outra forma?
Se o MEC tiver interesse... Como é que você hoje se torna professor de uma universidade? Faz concurso, há uma banca examinadora com professores da própria instituição... E é nessa seleção que já aparece o viés ideológico, que depois vai refletir no ensino transmitido aos alunos.
11. Isso quer dizer que não há solução?
Entenda, eu não sou pessimista em relação à nossa educação e por duas razões conjugadas. Primeira razão: houve um enorme avanço, a avaliação da educação (desempenho e fluxo), que foi o IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica). Essa medida, comparada no tempo e no espaço, é capaz de identificar o problema. E, a partir dessa visibilidade, ela entra na agenda política - ou seja, ganha valor político e, aí sim, pode acontecer uma transformação. Antigamente, o que era qualidade na educação? Ninguém sabia bem... Agora não, existe o IDEB, a nota da escola fica estampada na porta, é comparada imediatamente com a de outros estados e fica mal, não dá para esconder o desempenho...
12. E as mães e os pais, que já entenderam muito bem o que é o IDEB, começam a cobrar, eles não aceitam que a escola do filho vai mal...
Exatamente, eles não aceitam e vão pressionar. Segunda razão: em nenhum outro momento da história do nosso País, o setor privado sofreu tanto com o baixo desempenho da educação. Tem a história recente da Vale do Rio Doce, que fez um concurso, no Pará, com 120 vagas. Foram 600 inscrições e a nota mínima era 5. Sabe quantos passaram? Nenhum, e olhe que o nível da prova era de Ensino Médio! O que fizeram? Diminuíram a nota mínima para 3 - e conseguiram 12 aprovações... Resultado? Importaram mão de obra estrangeira, que é muito mais cara. Então, a infraestrutura de capital humano, neste momento de economia do conhecimento, cada vez mais necessitando de pensamento abstrato, não encontra candidatos à altura, o que é uma trava ao desenvolvimento. É uma situação crítica, que está nos levando ao fundo do poço...
13. O PNE, ao definir 20 metas capitais, serve de alguma forma para tirar a educação do País dessa situação?
Veja bem, o PNE não é nenhuma novidade, ele já existiu na década passada e ficou a maior parte do tempo na gaveta - suas metas não estavam na agenda política... O que me parece reconfortante é perceber que a educação está hoje na agenda dos políticos, dos empresários, dos meios de comunicação... E, nesse sentido, sim, o PNE de agora retrata o baita desafio que se tem pela frente. O que falta é bolar as estratégias para resolver rapidamente os problemas... Porque os outros países estão crescendo! A questão é a seguinte: em uma sociedade agrícola, as pessoas podem ter apenas quatros anos de escolaridade. Em uma sociedade industrial, oito anos. Agora, em uma sociedade do conhecimento, você precisa de onze anos de escolaridade para ter uma chance ou pode esquecer, ferrou... Qual a razão? Os estudos mostram que esse tipo de sociedade exige um tipo de abstração que só se adquire após 11 anos de estudos formais, uma sociedade que exige um pensamento abstrato como nunca aconteceu...
14. Qual é a média atual de escolaridade entre os brasileiros, levando em consideração o poder aquisitivo?
A respeito da nossa população, os mais pobres têm 7,9 anos de escolaridade e os ricos, 12, o que já aponta para o fosso enorme entre classes, sendo que os que concluem a universidade têm a possibilidade de ganhar 259 vezes mais do que aqueles sem essa escolaridade.
15. E por que existe essa incapacidade, entre a maioria dos brasileiros, de pensar de modo abstrato? É consequência de um ensino falho, que nunca se preocupou com isso?
Em parte, isso existe, a falta de qualidade do nosso ensino. Mas também é efeito da falta de quantidade de anos de escola - ou seja, são de fato necessários onze anos (e não menos) de estudos para desenvolver a capacidade de abstração exigida pela sociedade do conhecimento. Porque não depende só da qualidade, certo?
16. As mudanças precisam acontecer rápido - e você deixa isso muito claro. Mas, será que o MEC está disposto a agir? Como poderão acontecer mudanças dentro da universidade?
As universidades públicas estão alinhadas com o MEC, ou seja, o MEC precisa ter vontade política de mudar o que funciona hoje dessa maneira - e eu, infelizmente não creio que essa transformação vai acontecer por aí... Será uma exigência da sociedade, uma pressão que virá de baixo para cima. Qual é a situação hoje do ensino superior? As universidades não dão conta, então todo mundo se vira. Por isso, estão surgindo universidades corporativas, são empresas que criam as suas próprias universidades porque não confiam mais na universidade que existe por aí... Eu acho que os sistemas de ensino de alguma forma deveriam ter clareza do que seriam as habilidades e as competências básicas de um professor, de um diretor... E fazer a demanda clara disso. Não é a universidade que vai dizer qual é o curso que ela pretende dar, entende? Não me parece que a solução virá a partir do MEC, que vai insistir no reforço das bases ideológicas etc., mas sim do nível intermediário, os sistemas de ensino, que vão determinar o que é preciso ser feito para formar o seu pessoal. Um trabalho para gerações!
17. E, quando você fala de sistema de ensino, também pensa na necessidade de ter um currículo básico?
Bem, isso é outra coisa... Em primeiro lugar, há o problema de o professor não saber o que ensinar, nem como ensinar. Mas também não existe, em segundo lugar, um "ensinar a mesma coisa para todo mundo" à disposição do professor. Ou seja, o Brasil jamais conseguiu definir um currículo mínimo a nível nacional - e isso em razão da enorme reação do corporativismo, as universidades, sobretudo as mais influentes, sempre defenderam a diversidade cultural etc. e tal. Sou de opinião que o índio da Amazônia tem de saber o básico, que é igual ao menino que mora em São Paulo, ele tem esse direito, não é porque ele vive no Norte do País que precisa ser diferente, só coisas de índio... Mas foram contra. E o que aconteceu? Começou o sistema de avaliação e aí, em lugar de existir um currículo que definisse esse sistema de avaliação, aconteceu o inverso, o sistema de avaliação adotado como se fosse currículo... Só no Ensino Médio existem 12 disciplinas obrigatórias. E aí veio um gênio que perguntou, ‘por que você quer ser técnico’? ‘Deve ser porque você não quer estudar muito, não é?’ Então, já que você quer abreviar a formação, você terá de estudar, além das doze disciplinas obrigatórias, outras doze do ensino profissionalizante...’.
18. Daí se explica a alta taxa de evasão escolar no Ensino Médio?
Claro, porque ninguém aguenta e larga a escola! E qual seria a competência básica de um indivíduo que termina a sua educação básica, afinal, o que é o básico? Esse é o núcleo comum, que deveria estar acessível a todos e a partir do qual cada um se aprofundaria naquilo que tem interesse, Ciências Biológicas, por exemplo, e assim por diante. E isso tudo está sendo impossível de ser alcançado por corporativismo, por falta de coragem... Recentemente já houve uma intenção de definir algo comum - não é nem chamado de ‘currículo’ para não assustar -, as tais ‘competências mínimas’. E aí falta definir o que é do 1º. ano do Ensino Médio, por exemplo, e como vai ser ao longo do Ensino Fundamental... Caso contrário, cada um dá o que quer, é o samba do crioulo doido.
19. Aliás, esse é um dos problemas que as famílias enfrentam, quando têm de mudar os filhos de escola...
Exatamente. Porque se você muda a escola do seu filho, até mesmo em sua cidade, ele vai sofrer a ausência de um currículo comum...
20. A Fundação Lemann, a propósito, fez um estudo sobre os sistemas de ensino apostilados e como ocorreu o crescimento de IDEB nas escolas que aderiram a esse uso. Você é a favor desse sistema ou acha que ele pode servir de muleta ao professor?
Até parece que o professor sabe correr sozinho... Se ele nem aprendeu direito o que deve ensinar! Ao menos, ele tem ali o básico, tem padrões de exercícios, é o mínimo... A muleta é ruim? Mas, se ele está claudicante e precisa de um apoio! Dá a muleta para ele, que melhora muito. Enfim, surge o pessoal que é contra tudo, e o que se vê é um total liberalismo educacional, ‘vamos deixar que cada um faça a sua escolha e coisa e tal’... Só que para fazer escolhas você precisa ter base para isso!
21. Vale a pena relembrar que você e equipe assinam a criação do Cadastro Único, em 2001, embrião do programa Bolsa Família...
Para mim, ninguém aprende a pescar se tiver fome... A política de proteção é o primeiro degrau do processo de desenvolvimento. Fico irritada, quando chamam que esse tipo de medida é assistencialista... Assistencialismo ocorre quando a medida acaba nela mesma, mas se ela está conectada a uma política de desenvolvimento, não, essa era a ideia dos programas de transferência condicionada... Antes se achava que pobreza era fome e aí se dava comida para enfrentar o problema. Depois, deu para entender que a fome era a consequência de não ter dinheiro para comprar comida. E aí começaram os programas de transferência, caso da renda mensal vitalícia, da aposentadoria rural (que não era contributiva, por sinal) e do benefício de prestação continuada para idosos portadores de deficiência... Tudo começou com o resgate ao trabalho infantil, a ideia de dar uma bolsa para fazer o menino voltar para a escola, abandonando as primeiras formas de trabalho, e ainda fazer uma complementação escolar para sanar a defasagem de instrução em relação aos alunos que já frequentavam a escola... Foi em 1996, durante o primeiro governo FHC (Fernando Henrique Cardoso).
22. Mas você já tinha tomado medidas, no Rio de Janeiro, para sanar problemas econômicos e produzir efeitos benéficos na educação, não é?
Bem, no início dos anos 90, fui diretora do primeiro "Brizolão" (nome popular dos CIEPs, Centros Integrados de Educação Pública), no Rio de Janeiro. E criei uma ONG chamada Roda Viva, voltada para o menino de rua, o que acabou me conduzindo a atuar no movimento em favor do Estatuto da Criança e do Adolescente, a participar da sua redação, de toda aquela luta... E fui eleita à direção do primeiro CONANDA, Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente - e foi então que aconteceu a chacina da Candelária (1993). E o governo foi condenado a ter uma política a favor da criança e do adolescente - e assim aconteceu que o governador (César Maia) me chamou para assumir a Secretaria de Desenvolvimento Social da cidade do Rio de Janeiro. Em 1996, o Fernando Henrique foi eleito presidente e dona Ruth Cardoso tinha, na época, um programa chamado de Comunidade Solidária, que era exatamente a distribuição de cestas básicas de alimentos. Na minha secretaria, também havia um programa de cestas básicas, que já era dado às Associações de Bairros (que, naquela época, já estava ligado com o tráfico de entorpecentes etc.). Então, propus à dona Ruth juntar as duas cestas, dar uma melhorada com proteínas, algo por aí, mas distribuir apenas entre as famílias cujos filhos iam à escola. Era, portanto uma espécie de Bolsa Escola com comida, que servia para garantir a manutenção das crianças na sala de aula. Mas, como seria possível fazer a distribuição correta? Pobre não tem holerite, certo? Fomos então atrás das diretoras das escolas das periferias mais afastadas e perguntamos para elas quem eram de fato os seus pobres... E assim foi feito algo como um controle social. E foi desse modo que eu me aproximei da dona Ruth, que acabou me levando depois para Brasília para trabalhar no governo do Fernando Henrique.
23. E qual foi a sua participação no que foi chamado de IDH14, no governo Fernando Henrique?
Isso aconteceu também em 2000, programa de desenvolvimento econômico e social dirigido aos 14 estados mais pobres da federação. Abarcava nove ministérios e dizia respeito à educação, renda e saúde - e eu fui chamada para coordenar. Mas fui logo dizendo, ‘gente, IDH14 é nome de remédio contra a caspa!’(rs) Virou então projeto Alvorada, criamos um portal, atraímos a participação dos jovens e tínhamos dinheiro, ou seja, todo mundo queria um programa de transferência de renda para chamar de seu...Foi quando eu viajei com o Fernando Henrique para Maceió e aproveitei para conversar com ele, ‘olhe, presidente, o seu governo já tem uma rede de proteção social, todos os grupos mais vulneráveis já possuem de alguma maneira um programa de transferência de renda... O que está faltando é unir esses programas, precisamos de um cadastro único - saber quem recebe, quem são os mais necessitados... E ele topou. Fizemos um cadastro meio ‘Frankenstein’, mas funcionou. Afinal, eu já tinha tido aquela experiência no Rio, junto às diretoras das escolas mais pobres da periferia, e fiz o mesmo, agora com os prefeitos, pedi para que eles fizessem o cadastro dos pobres de cada município e acabou surgindo, como estímulo, o ‘auxílio-gás’ para o pobre que aceitasse se cadastrar (o prefeito também ganhava R$0,60 a título de ajuda no cadastro). E foi assim que conseguimos envolver agências de correio, bancos, lotéricas, botecos, enfim, tudo o que foi possível encontrar nos 5561 municípios que servisse de apoio para a tarefa de cadastrar - um total de mais de cinco milhões de brasileiros recebendo algum tipo de benefício, entre 2001 e 2002.
24. Qual era a ideia principal desse programa unificado de ajuda?
A ideia original era semelhante à que estava em vigor no Chile, ou seja, o beneficiário assinava um contrato de desenvolvimento familiar de participação no programa, obrigando-se, por exemplo, a manter as crianças na escola; depois de cinco anos, ele ganhava uma graduação, passava para outro patamar, onde ele ganhava um auxílio menor, mas com a possibilidade de ter crédito, por exemplo. A ideia do cadastro era exatamente essa, ter uma ideia aproximada do universo dos mais pobres, para depois estimular a graduação e ter uma data marcada para que eles conseguissem avançar na escada social... Tínhamos cinco milhões, agora são 50 milhões que recebem auxílio... E ainda dizem ‘que beleza’? Como podem estar satisfeitos? Você precisa é acabar com a pobreza - e não institucionalizá-la!
25. Com uma história profissional rica de trabalhos com educação, você já deve ter tirado conclusões sobre a origem do nosso ensino tão defasado...
Estou cada vez mais convencida que a pobreza é um fenômeno que se reproduz e que a reprodução dessa pobreza tem como fator determinante as desigualdades educacionais. Então, se você quer realmente cortar essa pobreza pela raiz, você tem de permitir que o filho do pobre termine o Ensino Médio. Essa é a verdadeira política de combate à pobreza, é dar essa garantia. Tornar a educação sustentável. E quando hoje você sabe que apenas 50% dos alunos concluem o Ensino Médio, pombas, o País está jogando fora metade do seu capital humano mais precioso, a juventude!
26. E você também é de opinião que a educação deveria estar unida ao trabalho no dia a dia do jovem brasileiro...
Claro! No Ensino Médio, esse nexo tem de acontecer. Tornar a escola e o currículo mais interessantes, isso será ótimo, mas não é o que vai evitar a sangria... Reter a sangria é fazer algum nexo entre ensino e trabalho. Qual a razão? Esse menino está chegando cada vez mais tarde ao Ensino Médio, já tem 18 anos, não é mais um garotinho e sai da escola para ganhar R$ 100... É muito pouco.
27. Ele precisa de dinheiro até para se sentir honrado, sentir-se um cidadão...
Ele precisa de dinheiro para tudo, até para levar a namorada no cinema! Ele tem 18 anos, não pode pedir dinheiro para família a toda hora... Caso contrário, vai para o tráfico, claro. Ele precisa de dinheiro à medida que for estudando... Eu vejo três saídas para essa situação. Uma delas é o Jovem Aprendiz, o que seria uma contribuição fantástica das empresas... Contratar o menino na escola por quatro horas e já deixar claro que ele vai ter carteira assinada, a partir do segundo ano, se não desistir de estudar - essa seria a melhor forma de responsabilidade social do empresário! Mas não vai dar para todo mundo, certo? Então, alguns mecanismos da universidade poderiam acontecer no nível médio, caso da monitoria, o aluno se torna assistente do professor e ganha um dinheirinho, R$ 100 por mês já seriam suficientes para criar maior identidade com a escola, enfim, algo simples de ser criado. E a terceira saída, o PRONATEC (Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego Institucional), que é uma boa ideia, mas oferecendo bolsa para esse aluno poder realmente participar, criando o turno noturno... Enfim, são pequenas coisas que, se colocadas em prática, ajudariam muito. Assim como a "flexibilização" de currículo.
28. Você não acha que essa "flexibilização" pode pecar por simplificar em excesso, eliminando matérias além da conta e permitindo que o aluno chegue ao Ensino Médio sem ter aprendido o conteúdo do Fundamental?
Veja bem, o importante é definir o mínimo, Português, Matemática, um idioma estrangeiro, enfim, o que é natural ter como disciplina quando se pensa no básico. Agora, se você gostar de Ciências, vai ter aula de Física, Química e Biologia, caso contrário, apenas Ciências no geral. E o mesmo se aplica às Humanas e Exatas, entende? Agora, o que não vai dar é você ter, em todas as escolas, essa enorme diversificação de matérias... Isso vai dar conta, inclusive, de sanar a deficiência de professores em algumas disciplinas - não tem professor de Física suficiente, gente! Vocês sabiam que tem alunos ganhando nota para passar porque não há professor? Nunca tiveram uma aula de Física, é um absurdo! E Filosofia então, agora é obrigatório o estudo de Filosofia nas escolas, só que não há professores em número suficiente!
29. Você costuma dizer que o segredo para não ser pessimista é ter planos e um futuro. É o que você está fazendo, não é?
Sim, e graças a Deus nós ainda temos o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e as suas avaliações nacionais. Você tem um Plano de Educação Nacional, que acaba de definir metas a serem alcançadas no prazo de dez anos. Então, o que falta, está no ‘meio’, ou seja, quais as estratégias mais efetivas para colocar em prática o que já foi avaliado e definido. O Paulo Freire me ensinou a olhar primeiro para o sonho, antes de olhar o diagnóstico - se fizer isso, pode se deixar levar pelo pessimismo e não encontrar saída... Ao passo que se você tiver clareza do sonho e do cenário possível, você olha para a realidade como um conjunto de forças positivas e outro, negativas. E o seu plano será exatamente fortalecer as positivas e neutralizar, as negativas. Aliás, o Paulo Freire ia mais longe. Ele dizia que o importante era armar um tripé: um pé no sonho, um pé na realidade e um pouco de loucura para apostar no imponderável. Por isso, eu digo que chegou a hora de a gente ser um pouco louco e apostar no imponderável da educação, para todo mundo acordar para esse despropósito que é simplesmente dispensar 50% dos nossos jovens da entrada do mercado de trabalho moderno, da sua contribuição para o desenvolvimento do País, o que é isso, minha gente, é preciso acordar e fazer uma revolução!
30. E a sua mais recente experiência profissional, no Pará, ela serve de síntese de suas ideias em educação?
Veja, o Pará é um estado que tem os piores índices educacionais e, ao mesmo tempo, uma das maiores possibilidades de crescimento econômico. Foram descobertas jazidas de minério maiores que as de Carajás, você tem área de expansão da soja, há todos os componentes que alimentam a biodiversidade e, ao mesmo tempo, tem isso, uma empresa como a Vale do Rio Doce precisando de mão de obra e tendo de importar... Eu ainda estava no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), quando apresentei ao governador Simão Jatene o meu plano de educação para o Pará, com dinheiro ‘novo’(empréstimo de R$ 350 milhões de dólares, oferecido pelo BID) mais o interesse dos empresários (em aumentar o capital humano, que depois iria ser aproveitado por eles mesmos...). Pois bem, o governador topou o nosso plano e estamos trabalhando nele desde 2013. Primeiro, com as grandes marcas (Alcoa, Vale do Rio Doce, Natura, Telefônica); e agora, com as empresas locais - a ideia é a parceria em diferentes níveis, criando um pacto estadual, outro, municipal e outro, com a própria escola. Cada pacto tem um plano, todos orientados pelas mesmas metas atrás dos mesmos resultados - tem de melhorar o desempenho escolar? Então, é preciso fazer capacitação de todos, alcançar melhoria da rede física e de gestão e mobilizar todo mundo, inclusive os pais e as famílias, além de usar a tecnologia. Em cada um dos níveis, há um comitê de gestão participativa, cujo presidente é alguém da secretaria de educação e o vice, um representante da empresa local, que deseja melhorar a qualidade de vida da área. Controle total. Em resumo, posso garantir que é bem legal o que está rolando em educação no Pará...
31. Qual é a principal meta educacional a ser atingida no território paraense?
A ideia é aumentar o IDEB em 30% em todos os níveis. A primeira conquista foi mudar o sistema de avaliação do ensino no Pará, que fosse anual e englobasse todos os municípios - e todos já aderiram ao pacto. São 144 municípios, organizados em 13 regiões - e, em cada município, também há um comitê regional para alinhar metas e objetivos. Sim, é tudo muito bom - o meu canto do cisne! (rs)

 

amigos do educar

 


lição de casa

Crianças que fazem a lição de casa diariamente aprendem mais, têm notas melhores e se tornam mais seguras. Faça a sua parte!



depoimentos

Marina Silva, Martha Medeiros, Nelson Motta e outras personalidades brasileiras revelam o impacto de uma boa Educação no futuro



recomendamos

EDUCAÇÃO INFANTIL
Como contribuir com essa importante fase de formação da criança

ENSINO FUNDAMENTAL 1
Como acompanhar os primeiros passos da vida escolar de seu filho

ENSINO MÉDIO
Dicas para pais e alunos enfrentarem esta fase de novos desafios

mais lidos

ALFABETIZAÇÃO
11 dicas para ajudar na alfabetização de seu filho

TECNOLOGIA
52 sites que ensinam e divertem a criançada