O papel de Rubem Braga (1913-1990) para a crônica brasileira está em ter elevado o gênero ao nível da melhor prosa já produzida em língua portuguesa. Nascido em Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, e falecido no Rio, dedicou-se durante 62 anos ao jornalismo, nos quais escreveu mais de 15 mil crônicas. A efemeridade desses textos, escritos para jornal diário, Rubem Braga superou com o estilo e o tratamento que dava aos temas escolhidos. A antologia 200 Crônicas Escolhidas (1978) reúne os melhores exemplos desse trabalho.
Crônicas selecionadas de nove livros de Rubem Braga estão aqui: O Conde e O Passarinho, Morro do Isolamento, Com a FEB na Itália, Um Pé de Milho, O Homem Rouco, A Borboleta Amarela, A Cidade e a Roça, Ai de Ti, Copacabana, A Traição das Elegantes. Há nos próprios títulos dessas obras os indícios do universo do escritor. Homem do interior do Espírito Santo, ligado à terra - cultivava um jardim e uma horta na cobertura que tinha em Ipanema, no Rio -, deleitava-se com as coisas mais simples para então escrever. Um exemplo é a crônica O Conde e o Passarinho, de 1935, em que trata de uma condecoração que o conde Francisco Matarazzo recebera. Um passarinho, segundo o Diário de S.Paulo, tomou-lhe pelo bico uma medalha e saiu voando. É o mote para o "Velho Braga" discorrer sobre as fábricas de Matarazzo, o poder econômico e a natureza. Não de modo panfletário, mas com o lirismo de quem canta a natureza. Um outro exemplo é Um Pé de Milho, de 1945, que se abre com este parágrafo: "Os americanos, através do radar, entraram em contato com a Lua, o que não deixa de ser emocionante. Mas o fato mais importante da semana aconteceu com o meu pé de milho". O cronista deixa de lado a ciência, depois dessa referência rápida e fria, e conta uma pequena história sobre como nasceu, cresceu e floresceu um pé de milho no seu quintal, "um belo gesto da terra".
Os temas constantes de Rubem Braga - a natureza, o amor, a compaixão, os pequenos dramas do dia-a-dia - saem de cena na obra mais forte: Com a FEB na Itália (1945), fruto do trabalho para o jornal Diário Carioca. Como correspondente de guerra durante a ocupação da Itália pela Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra, Braga tinha, para si próprio, a missão de conciliar o relato jornalístico objetivo com o tom da crônica. A Menina Silvana e Cristo Morto foram destacados para esta antologia. No primeiro texto, o encontro de uma menina de 10 anos atingida por estilhaços de uma granada choca o cronista, que então é levado a refletir sobre o papel do repórter e seus limites como informante. Cristo Morto trata de uma imagem de Cristo decapitada: a descrença nos homens e no divino, diante dos horrores da guerra, manifesta-se.
Rubem Braga formava com os amigos Fernando Sabino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos o seleto grupo de cronistas brasileiros contemporâneos. Era considerado o "sabiá da crônica", o mais sonoro entre esses contadores de histórias.
depoimentos
recomendamos
MAIS LEITURA
Conheça atividades simples - e baratas! - que podem transformar seu filho em um pequeno grande leitor
TESTE
Você sabe lidar com seu filho adolescente?
mais lidos
VESTIBULAR
Os 100 melhores livros da literatura brasileira para você ler uma vez na vida
FÉRIAS E FILMES
Uma seleção de filmes que passam grandes lições e podem tornar as férias mais divertidas
blogs