Alice no País das Maravilhas é daqueles livros que resistem a infinitas leituras sem nunca perder a graça, pois sempre têm algo a mais a dizer, um novo detalhe a apresentar, uma palavra a ensinar. A história da linda menina de vestido rodado que vive aventuras num lugar estranho com gente esquisita é uma das mais lidas, traduzidas, adaptadas, encenadas e filmadas. Parece uma fórmula simples, mas não é: há quase 150 anos, a obra-prima escrita pelo inglês Lewis Carroll cativa leitores e intriga estudiosos em busca de respostas para os seus enigmas. Não é à toa que o cinema já a tenha apresentado diversas vezes.
A mais recente empreitada cinematográfica é assinada pelo norte-americano Tim Burton, que dirigiu também "Batman", "Edward Mãos-de-Tesoura" e "Noiva Cadáver", entre muitos outros filmes encantadores e... um pouco estranhos. Produzida pela Disney, a nova versão de "Alice no País das Maravilhas" chega aos cinemas brasileiros em 21 de abril. Nos Estados Unidos e na Inglaterra, onde já estreou, ficou em primeiro lugar nas bilheterias por várias semanas consecutivas.
A febre atual gerada pelo filme foi além da trilha sonora: invadiu desde lojas de roupas e assessórios até objetos de arte, bolos de festa - todos fazendo referência massiva às personagens dos contos protagonizados por Alice - "No País das Maravilhas" e "Através do Espelho", este escrito por Carroll logo depois do primeiro. Assim, o Gato que sorri, o Chapeleiro Maluco e a Rainha de Copas andam estampando bolsas, sapatos e camisetas e por aí afora.
Será que todos que estão hipnotizados por esses objetos - e que verão o filme - conhecem a real origem desse frenesi? Há só uma maneira de tirar a prova: lendo o livro. A seguir, confira comentários sobre o texto original e sobre algumas das principais traduções brasileiras de "Alice no País das Maravilhas". Veja também os principais filmes já produzidos pelo cinema - inclusive, claro, o de Burton. E, por fim, faça o teste e descubra que personagem desta obra-prima é você.
Para estudiosos de literatura, Alice é considerada uma personagem-referência, pois simboliza a infância e a curiosidade. É como se ela fosse a encarnação do modo de pensar infantil e, por isso, da relativização de ideias e da pureza de pensamento. A escrita de Carroll é, por sua vez, vista como transgressora, pois, diferentemente da maioria das criações voltadas para crianças, sobretudo de sua época, ela não tem por objetivo transmitir uma determinada moral ou educar os pequenos leitores conforme ditames sociais. Muito pelo contrário. O texto de Carroll desafia a lógica comum com ironias a respeito da autoridade (encarnada pela Rainha de Copas e pela Rainha Vermelha), do funcionamento da escola (a história da Falsa Tartaruga), da contagem do tempo (o relógio do Chapeleiro) e de muitos outros pilares da cultura de sua Inglaterra.
A crítica social, entretanto, fica em segundo plano quando pensarmos na escrita brilhante de Carroll. Jogos de palavras e de ideias, rimas e poemas estão espalhados por seus textos garantindo um ritmo, uma melodia e um encadeamento de sentidos (ou de ausência de sentidos) muito únicos. Os diálogos aparentemente sem pé nem cabeça - como o que Alice tem com o Gato, ou com a Lagarta - são a base de um conceito muito usado para classificar a obra de Carroll, o de nonsense (sem sentido, em inglês). Notou-se que a falta de sentido é o próprio sentido - esta noção de dar nó na cabeça acabou por atrair muitos matemáticos e físicos ao estudo dos contos de Alice. Já as figuras oníricas (ou seja, que só podem mesmo fazer parte de um sonho) do "País das Maravilhas" e as questões existenciais da personagem Alice deram (e dão) pano para manga de muitos ensaios psicanalíticos.
E é por tudo isso que os contos de Carroll não apenas sobreviveram até hoje, como estão mais vivos do que nunca no momento e com certeza viverão para sempre: eles possuem uma capacidade de se atualizar e de trazer algo novo a cada década, a cada século, a cada leitor que decide se aventurar por eles.
"Aventuras de Alice no País das Maravilhas" e "Alice Através do Espelho e O Que Alice Encontrou Lá" (Tradução: Sebastião Uchoa Leite. Editora: Summus) Considerada por muitos a melhor tradução de Carroll já feita no Brasil. O tradutor Uchoa Leite, que também era poeta e estudioso de teorias literárias, dedicou-se a um trabalho minucioso de transposição fiel, mas não literal. Portanto, como fez Nicolau Sevcenko agora, também Uchoa Leite buscou não perder o sentido e o espírito do texto original. Para quem quer conhecer os contos de "Alice" em sua plenitude, sem dúvida é uma das melhores opções.
"Alice - Edição Comentada", de Matin Gardner (Tradução: Maria Luiza X. de A. Borges. Editora: Jorge Zahar) A grande vantagem deste lindo livro, além de reunir os dois contos de "Alice" em um só volume, é trazer comentários detalhados e interessantíssimos sobre o texto de Carroll, as circunstâncias em que foi escrito e as referências obscuras contidas nele. A tradução de Maria Luiza Borges também é admirável.
"Alice no País das Maravilhas" (Tradução: Monteiro Lobato. Editora: IBEP Nacional) Lobato foi um dos primeiros a traduzir "Alice" para o português. Mas se trata, na verdade, mais de uma adaptação do que de uma tradução, pois trechos inteiros e nomes de personagens foram deliberadamente modificados com o provável objetivo de aproximar crianças brasileiras do texto. O resultado é irregular, mas os interessados em literatura infanto-juvenil não podem deixar de dar uma olhada na obra do gênio inglês adaptada por nosso gênio brasileiro.
"Alice no País das Maravilhas" (Tradução: Ana Maria Machado. Editora: Ática) Uma das autoras de literatura-infantil brasileira mais produtivas das últimas décadas, Ana Maria Machado optou também por um caminho de adaptação mais livre em sua tradução de "Alice no País das Maravilhas". Ela substituiu as canções e os poemas originais por exemplares brasileiros, como "A Casa", de Vinicius de Moraes. Essa mistura, porém, fica um pouco confusa, pois Alice continua sendo uma menina inglesa do século 19, só que declamando poemas brasileiros do século 20. Excetuando esse artifício, o texto é gostoso de ler e encontra boas soluções para os jogos de palavras originais.
"Alice no País das Maravilhas" (Produção: BBC. Direção: Johnathan Miller. 1966) Sem dúvida, uma das versões mais esquisitas da obra de Carroll. As imagens chegam a ser bizarras em alguns momentos, e Alice não é uma menina carismática, mas sim uma jovem dama enigmática e de paciência curta. Os diálogos do livro são transpostos quase que literalmente para a tela. Não há, porém, personagens-animais, e tudo se passa em clima de sonho, de inconsciente, como era comum nos filmes de arte da década de 1960. Por tudo isso, é um filme claramente para adultos, pois crianças não só podem não entender, como também se assustar. Conhecer o texto original antes de assistir ajudará muito.
"Alice no País das Maravilhas" (Produção: Columbia Pictures. Direção: Harry Harris. 1985) Versão feita para a TV, bastante transmitida no Brasil pela Rede Globo no final da década de 1980. Não é tão artística quanto as outras e às vezes parece um pouco cafona, mas consegue atrair as crianças para o universo de Carroll de maneira leve e bem colorida.
"Alice - Adventures in Wonderland" (Produção: Joseph Shaftel Productions. Direção: William Sterling. 1972) Fiona Fullerton, a atriz desta adaptação inglesa, costuma ser considerada uma das melhores Alices do cinema. O filme seria mais atraente se não fosse tão lento. Como se trata de um musical (com belas canções, é verdade), pode se tornar maçante em alguns momentos. Também mistura os dois contos de Alice, e não deixa de ser uma boa opção para fãs de Carroll e de musicais.
"Alice no País das Maravilhas" (Produção: Disney. Vários diretores.1951) O mais conhecido e visto dos filmes baseados em Carroll até hoje. A animação mistura os dois contos de Alice e simplifica um pouco os diálogos, deixando-os mais palatáveis para o público infantil. Essa versão teve papel essencial no boom de interesse que Carroll despertou nos anos 50 e 60 do século passado, tanto em leitores comuns, como em matemáticos e psicanalistas que passaram a investigar a estranha lógica escondida atrás dos jogos de palavras de seus contos. Os visuais cridos pela Disney já são imortalizados. É difícil imaginar Alice sem o vestido azul com avental branco, e mais difícil ainda imaginá-la morena, embora a menina não pareça loira nas ilustrações originais (em preto e branco), feitas por Carroll e John Tenniel. O Gato com listras pink e a cartola alta do Chapeleiro Maluco também invadiram o imaginário mundial para nunca mais sair.
"Alice in Wonderland" (Produção: BFIfilms. Direção: Percy Stow e Cecil Hepworth. 1903) Este você pode ver on-line! É uma joia do começo do século 20. Lançado em 1903 com duração de 12 minutos, foi o filme mais longo feito na Inglaterra até então. É interessante notar como a cena que antecede a entrada de Alice no País das Maravilhas - quando ela bebe da garrafinha para diminuir de tamanho e come o bolinho para aumentar - é fiel ao livro já nesse pequeno filme. Esta é uma das poucas partes preservadas em praticamente todas as adaptações cinematográficas. Assista: http://www.youtube.com/watch?v=zeIXfdogJbA
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