"Escuta" é um termo consagrado no jargão dos psicanalistas, uma palavra que eles usam com frequência e reverência. A qualidade de um bom profissional depende de sua disposição para escutar o que diz o paciente, e de sua capacidade de identificar na fala deste as racionalizações que ocultam os complexos mapeados na obra de Sigmund Freud. O título do novo livro da psicanalista, escritora e colunista de VEJA Betty Milan, portanto, é uma apaixonada profissão de fé no ofício analítico. Em Quem Ama Escuta (Record; 416 páginas; 42,90 reais), porém, a atenção ao discurso do paciente não se dá no contexto ortodoxo do consultório com divã. O livro reúne textos publicados em VEJA.com, nos quais Betty responde a dúvidas e angústias que os leitores mandam por e-mail.
A autora qualifica sua coluna como um "consultório sentimental". Mas não se encontra aqui o tom moralizante que esse gênero tantas vezes assumiu. Betty não dá conselhos segundo um receituário pronto. No primeiro texto do livro, aparece uma mulher que, depois de se enredar em um relacionamento complicado com um parceiro bem mais velho, se envolve com um homem casado que não tem a menor intenção de se divorciar. Betty, na trilha das investigações de Freud sobre a compulsão à repetição, aponta a evidente queda que a consulente tem por "homens impossíveis" - e, embora não recomende explicitamente que ela dê um pé no amante casado, sugere que esse é, sim, o caminho da liberdade. Mais adiante, porém, para a mulher casada que ama tanto o amante quanto o marido, a autora sustenta que o triângulo amoroso pode ser a solução geometricamente ideal. Nas angústias dos leitores, Betty identifica as constrições do tradicionalismo moral (um dos casos mais tocantes é o da mãe que, depois de se assumir como lésbica, é quase rejeitada pelos filhos), mas também acusa uma tendência mais recente e igualmente repressora: a imposição do sexo livre, fácil e frequente, de preferência com o maior número possível de parceiros. Essa "tirania do sexo", para usar sua expressão, está na raiz da angústia de muitos dos consulentes.
Psicanalistas como o próprio Freud e o francês Jacques Lacan - de quem Betty foi aluna e paciente - são citados ao longo do texto, mas a autora não pesa a mão na teoria. O tom é de conversa íntima, com uma coloquial mistura dos pronomes "você" e "te". É claro que não estamos diante do processo psicanalítico em toda a sua longa e lenta extensão (aliás, para os traumas mais entranhados, Betty recomenda que o consulente se engaje em uma terapia). Mas é, digamos, um uso tópico da psicanálise. Com sensibilidade e inteligência, Betty desvenda, nas poucas linhas que seus consulentes escrevem, manobras diversas para evadir o centro de seus problemas. Eis mais uma marca da boa psicanálise: ensinar as pessoas a escutar a si mesmas.
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