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Escrever para crianças parece sempre um desafio. Escrever bem e poeticamente para crianças, uma expressão inegável de arte - e é o que fez Bartolomeu Campos de Queirós, nascido em Papagaio (MG), que publicou seu primeiro livro na década de 1970 e, desde então, escreveu outros 42, muitos deles premiados, como "Indez", "Ciganos" e "Coração Não Toma Sol". Seus textos estão entre o que se considera de melhor na literatura infanto-juvenil nacional e mundial.
Em 2009, Bartolomeu foi indicado ao The Astrid Lindgren Memorial Award, que homenageia a autora sueca de mesmo nome, célebre autora de Pipi Meialonga, e premia com cerca de 700 mil dólares, todos os anos, um autor que escreve para crianças. A brasileira Lygia Bojunga Nunes foi a agraciada de 2004. O próximo ganhador será anunciado em março de 2010.
Para ler, clique nos itens abaixo:
- 1. O senhor já ganhou vários prêmios literários nacionais, como o Jabuti, e internacionais. É gratificante ser indicado a mais esse prêmio, em meio a tantos outros nomes da literatura infantil mundial?
- Os prêmios são significativos na medida em que conferem ao seu trabalho uma qualidade. É sempre bom saber que sua produção encontra respaldo diante de especialistas e meio acadêmico. Por outro lado, passo a exigir mais e mais de mim. Depois, é gratificante saber que você não está oferecendo aos mais jovens um texto que não suporta uma análise literária. Ser indicado a receber agora o Prêmio Astrid em 2010, pelo Brasil, é só por si uma grande responsabilidade. A importância de tal distinção é já sentir-se premiado.
- 2. O que o senhor acha da participação brasileira no cenário internacional da literatura infantil de hoje? Somos suficientemente reconhecidos?
- Lygia Bojunga, ao receber o Prêmio Astrid em 2004, chamou a atenção do mundo sobre a qualidade da literatura infanto-juvenil brasileira. Depois, a literatura não tem fronteiras. O que configura uma literatura como literatura é a qualidade, a responsabilidade diante de sua elaboração. E Lygia tem promovido a nossa literatura em todo o mundo. Somos hoje um país considerado surpreendente na produção para a infância e juventude. Muitas universidades e teóricos do país, muitas entidades, como a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, têm concorrido para o redimensionamento da literatura para jovens. Somos bastante traduzidos e divulgados como renovadores.
- 3. Quais escritores e ilustradores brasileiros de literatura infanto-juvenil o senhor admira?
- Admiro tantos, que fica difícil de nomeá-los. Mas pelo respeito aos jovens, eu apontaria Lygia Bojunga, Marina Colasanti, Luiz Antônio Aguiar, Ana Maria Machado, Ruth Rocha, José Paulo Paes, sem me esquecer de Monteiro Lobato, Lúcia Machado de Almeida, Silvia Ortof e tantos outros que respeitam as exigências da infância.
- 4. E quais são seus escritores preferidos? Houve alguma influência especial em sua obra?
- Os poetas, pela exigência na construção da própria poesia, são meus escritores preferidos. Leio sempre Drummond, Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Garcia Lorca, Affonso Romano de SantAnna, João Cabral de Melo Neto, sem, contudo, ignorar os poetas jovens, que têm inaugurado uma nova linguagem. Mas encanto-me diante da obra de Albert Camus, Bergson, e me intriga as considerações de Teillard de Chardin cobre a evolução do universo e do homem.
- 5. Por que o senhor começou a escrever? E por que literatura infantil?
- Comecei a escrever por uma necessidade interior. Passei a ter necessidade de dividir com os leitores as minhas inquietações e surpreendências. A gente só escreve quando descobre que tem o que dizer. Não acredito que o texto nasça por vaidade, por diletantismo. A literatura é sempre movida por um incômodo interior. Hoje procuro escrever um texto que permita também a leitura dos mais jovens, mas sem esgotar a infância que também persiste nos adultos. Daí acreditar no poder da metáfora para realizar a minha proposição. Não busco uma literatura só para a infância. Tal atitude enfraqueceria o texto. Procuro realizar uma literatura sem fronteiras. Minha primeira experiência de trabalho foi como pesquisador educacional, do Ministério da Educação, e com crianças em idade pré-escolar. Meu convívio diário com elas me fez ver a infância como um lugar de intensas emoções, muitas perguntas, muita recriação do mundo. Daí pude perceber que entre a criança e a arte não há distância. Mas a coragem para produzir só me veio aos 27 anos, quanto estudava no Institut Pedagogique National de Paris, e tendo a solidão como também matéria de trabalho.
- 6. O senhor acredita que exista um segredo para escrever bem para crianças? De que depende essa empreitada?
- O grande segredo é não ter a infância como lugar já perdido. É preciso saber reencontrá-la, reinventá-la. Mesmo sabendo que jamais poderei estar novamente na infância posso revivê-la pela força da fantasia. Depois, não basta tentar se infantilizar para conversar com as crianças. É preciso continuar reinventando, e sempre, o cotidiano.
- 7. Em sua opinião, como se faz para despertar o interesse da criança por literatura?
- Vejo que é necessário ter uma sociedade leitora para que também a criança se faça leitora. Ter uma família envolvida com leituras, valorizar as bibliotecas, frequentar livrarias é também indispensável. Tudo, sem esquecer a função da escola. Uma educação que não valoriza a literatura, um professor não leitor... não concorrerão para a formação do leitor. Depois, é preciso compreender a importância de um país leitor, de uma sociedade crítica e reflexiva para bem incorporar a leitura literária no contexto escolar. Se houve a democratização da escola não houve ainda a democratização da qualidade da escola. Temos hoje uma escola apenas consumidora de informações e não tambêm investidora em transformações. Esse investimento depende, fundamentalmente, do convívio do aluno com a força da fantasia.