Um Bonde Chamado Desejo, do dramaturgo Tennessee Williams (1911-1983), tornou-se um clássico entre os clássicos do teatro americano ao narrar a decadência de Blanche Dubois, que se refugia na casa da irmã Stella para fugir do passado e sucumbe ao presente vulgar de seu cunhado Stanley.
Estrelado em 1947 por Marlon Brando e Jessica Tandy na Broadway, dirigido por Elia Kazan, o texto ganharia notoriedade mundial no cinema, quatro anos depois, quando o mesmo Kazan dirigiu Brando e Vivian Leigh nos papéis principais.
Apesar do clima de tensão deixado após os anos de luta na Segunda Guerra Mundial, a Broadway dos anos 1940 não atendia às expectativas de uma sociedade que mudava a passos rápidos e era dominada por musicais de comédia e releituras dos clássicos gregos, de William Shakespeare e Bernard Shaw (1856-1950). Quando a peça de Williams estreou foi um choque - os americanos ansiavam por uma obra que traduzisse um drama ao mesmo tempo social, pessoal, psicológico e tratasse de personagens tentando reconstruir a vida no pós-guerra.
O espetáculo começa com a sulista decadente Blanche Dubois chegando a New Orleans para visitar a irmã grávida, Stella, e o cunhado, Stanley Kowalski - para isso, ela precisa pegar o bonde chamado Desejo (Desire, rua de New Orleans). Pela primeira vez uma peça continha sexualidade em cada um dos diálogos, em cada olhar ou jogo de cena, em cada personagem encerrado em um apartamento do tamanho de suas perspectivas.
Na minúscula residência, os egos lutam por espaço, em um jogo de poder entre os cunhados. Stanley tenta intimidar Blanche e mostrar quem manda ali, enquanto ela não se submete e revida tentando, de brincadeira, seduzir o cunhado. Mas Stanley descobrirá no passado de Blanche Dubois máculas indissolúveis - ela viu o marido suicidar-se por ter sido flagrado com outro homem, perdeu as propriedades da família em uma hipoteca, foi acusada de ter seduzido um aluno quando professora e até se prostituiu em um hotel de quinta. O próprio Stanley não é um homem dos mais sutis - é violento, luta por seu espaço contra a cunhada invasora e acabará violentando-a.
Stella, apesar de ter um papel secundário na disputa entre a irmã e o marido, será o elemento determinante para a compreensão da peça e do ideário de Tennessee Williams. Ao aceitar e até legitimar o domínio e o abuso do marido, ela corrobora o conceito moralista da união familiar contra elementos desafortunados e imorais.
Um Bonde Chamado Desejo foi produzida para ser uma peça de tirar o fôlego e se transformou em uma obra que, para alguns críticos, é perfeita, completa, viva. "Sempre dependi da bondade de estranhos", diria Blanche, já no fim da peça, arrematando a sensação de desconsolo que dominara o enredo, como uma "moral" reconstruída, sintetizada na última cena: quando Blanche vai embora, Stella soluça ao segurar seu bebê, e Stanley procura a abertura de sua blusa com os dedos.
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