A relação que o mineiro Otto Lara Resende (1922-1992) manteve com seu único romance é quase tão relevante quanto a qualidade da obra em si. Publicou-o pela primeira vez em 1963, por pressão dos amigos, mas arrependeu-se. Deixou de lado os originais por muitos anos, até que, no final da década de 1980, lhe foi encomendada uma segunda edição revisada. Maníaco por escrever — e reescrever —, Otto envolveu-se numa relação conturbada com o livro, num processo que chamou de “extenuante e às vezes até sofrido”. Acrescentou e eliminou as palavras, as frases e até capítulos inteiros. Aumentou a participação de alguns personagens, diminuiu a de outros. Mas não conseguia pôr fim à nova versão.
Quando morreu, aos 70 anos de idade, ainda não tinha terminado o último capítulo, para o qual havia feito três diferentes versões arquivadas e outras inúmeras descartadas. Coube à amiga e escritora Ana Miranda terminar a narrativa, que traz o relato de Laurindo Soares Flores, inspetor de um asilo para órfãos. Homem medíocre e melancólico, o funcionário é braço direito do padre que mantém a instituição. É um “acessório” e vê a si mesmo como tal, numa existência anódina que se ancora num catolicismo solitário cuja força impregna toda a atmosfera do romance. Para construir a fala do narrador-personagem, Otto Lara Resende elaborou um estilo condizente com o modo de ser do narrador. Transpôs-lhe um certo jeito mineiro de falar, mas distante dos cacoetes e estereótipos. Um trabalho preciso.
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