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LITERATURA

Brás, Bexiga e Barra Funda

Com uma linguagem que beira a notícia de jornal, os contos de Antônio de Alcântara Machado registram o cotidiano do imigrante italiano em São Paulo


Bravo

01/08/2008 19:24

Texto
Daniel Schneider e Thiago Minani

Foto:

Centro Histórico da Imigração Italiana, nacionalidade extremamente nos bairros do Brás, Bexiga e Barra Funda

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Em 1927, as bases paulistanas do Modernismo brasileiro testemunharam o surgimento de uma das primeiras grandes obras de sua escola: o livro de contos Brás, Bexiga e Barra Funda, de Antônio de Alcântara Machado. O escritor retratava as transformações que o imigrante italiano trazia para a cidade de São Paulo. E incorporava ao texto a fala e até mesmo a dinâmica da vida cada vez mais urbanizada da cidade. Em 11 pequenas histórias, contos que beiram a crônica ou mesmo a notícia de jornal, aspectos pitorescos e casos do cotidiano reproduzem uma nova realidade social. Para ser mais exato, reportam, uma vez que o primeiro texto, Artigo de Fundo, apresenta galhardamente o livro como um jornal, “como membro da livre imprensa que (...) tenta fixar tão-somente alguns aspectos da vida trabalhadeira, íntima e quotidiana desses novos mestiços nacionais e nacionalistas”.

Alcântara Machado reúne nesse livro-jornal o que ele próprio chama de "episódios de rua”: a história do menino que sonhava sair na frente de um cortejo fúnebre (Gaetaninho); uma moça estrábica que não é cortejada por ninguém (Carmela); o patriotismo de um soldado que esbofeteia outro por não ser brasileiro (Tiro de Guerra no 35); um homem cuja confissão de homicídio (por amor) vira refrão de música (Amor e Sangue); a recusa de um pai em deixar a filha se casar com um italiano (A Sociedade); o desejo de uma menina por um urso de pelúcia (Lisetta); amores e desapontamentos em uma partida de futebol (Coríntians [2] vs. Palestra [1]); o futuro de Gennarinho, que passa a ser criado por uma família portuguesa e a se chamar Januário (Notas Biográficas do Novo Deputado); o luto de uma mãe e os fragmentos de um enterro (O Monstro de Rodas); os sonhos de riqueza de um grupo de pessoas pobres (Armazém Progresso de São Paulo); um italiano que, primeiramente decidido a apenas falar na língua materna, decide naturalizar-se brasileiro (Nacionalidade).

Nessas histórias, percebe-se uma grande habilidade em captar a linguagem popular, aqui, a fusão do português com o italiano, e empregá-la no texto sempre em favor do coloquialismo e da representação viva dos personagens. Veja-se um trecho de A Sociedade: "Tirou o charuto da boca, ficou olhando para a ponta acesa. Deu um balanço no corpo. Decidiu-se. - Ia dimenticando de dizer. O meu filho fará o gerente da sociedade... Sob a minha direção, si capisce. - Sei, sei... O seu filho? - Si. O Adriano. O doutor... mi pare... mi pare que conhece ele?”. A concisão, as frases curtas e a descrição espacial enxuta, tudo é concentrado nessas notícias de São Paulo: "Foi-se chegando devagarinho, devagarinho. Fazendo beicinho. Estudando o terreno. Diante da mãe e do chinelo parou. Balançou o corpo. Recurso de campeão de futebol. Fingiu tomar a direita. Mas deu meia volta instantânea e varou pela esquerda porta adentro. Eta salame de mestre!” (Gaetaninho).

Nascido em 1901, em São Paulo, e falecido no Rio, em 1935, Antônio de Alcântara Machado ainda demonstraria a evolução como prosador nas obras seguintes: Laranja da China (1928), Mana Maria (1936, inacabado) e Cavaquinho e Saxofone (1940, póstumo).

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