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LITERATURA

Broquéis

Os poemas de Cruz e Sousa rompem com o cânone da época em versos que revelam musicalidade, intensa emoção e obsessão pela cor branca


11/07/2011 17:33
Texto Daniel Schneider e Thiago Minani
Bravo
Foto: Wikimedia
Lua
A delicadeza de Cruz e Sousa busca nos 53 poemas a pureza por meio do uso da cor branca, seja na luminosidade do luar, seja na neblina, como em Antífona, o poema de abertura.
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Poeta Negro, Dante Negro, Cisne Negro... Não são poucas as alcunhas criadas para homenagear João da Cruz e Sousa, poeta catarinense nascido em novembro de 1861 na cidade de Desterro, atual Florianópolis, capital da então província de Santa Catarina. Filho de escravos alforriados, com a morte de seus protetores (que lhe cederam o sobrenome) foi obrigado a largar os estudos e trabalhar. Sofreu uma série de perseguições raciais, que culminaram com a proibição de assumir o cargo de promotor público em Laguna, para o qual fora indicado. Negro numa sociedade escravocrata, Cruz e Sousa militou pela alforria, discutiu as questões cadentes de seu tempo e fundou jornais alternativos. Em 1890 mudou-se para o Rio de Janeiro, onde entrou em contato com a poesia simbolista francesa e seus adeptos. Cruz e Sousa colocou a nova escola em diálogo com a tradição brasileira e esteve à frente do novo movimento, que encontrou repercussão em grande parte do território brasileiro. Vencido pela tuberculose, o poeta morreu em março de 1898, aos 36 anos de idade, na cidade de Sítio, Minas Gerais.

Num momento em que o cânone poético do país era determinado pelo Parnasianismo, o aparecimento em 1893 de Broquéis, trazendo poesias de emoção intensa e grande musicalidade, causou impacto ao inaugurar o Movimento Simbolista no Brasil. A linguagem do poeta catarinense foi de tal forma revolucionária que acabou por integrar os traços do parnasianismo num novo código verbal, com significados inteiramente novos.

Broquéis é composto por 53 poemas marcados pela constante busca da pureza por meio do uso da cor branca, seja na luminosidade do luar, seja na neblina, seja na presença da neve, seja no brilho dos cristais, como em Antífona, o poema de abertura. O soneto (ainda um traço parnasiano) é a forma poética mais presente na obra, cuja temática, no entanto, é inteiramente simbolista. O poeta faz farto uso de recursos sonoros como assonâncias, aliterações, sinestesias e cognações, criando assim uma musicalidade delicada, que se soma a uma linguagem erudita e a um sutilíssimo jogo de palavras. Vogais nasaladas e consoantes líquidas ou sibilantes alternam-se, prolongando a duração do fluxo sonoro, já intensificado pelas rimas e outros recursos fonéticos. Cruz e Sousa enveredou também, em suas poesias, pelos caminhos da espiritualidade, às vezes de um misticismo exaltado.

Apesar de todas essas características impressionantes, alguns críticos acreditam que a expressão mais acabada da poética de Cruz e Souza não está nesta sua obra do período inicial, mas nos mais maduros Últimos Sonetos, publicados postumamente em 1905. Mesmo assim, é inegável que Broquéis renovou a expressão poética em língua portuguesa, ao romper com a norma parnasiana e optar pela invenção lingüística e consciência formal como bases da expressão. Poucas obras conseguem ombrear-se a ela no que diz respeito à força e à originalidade empregadas. 



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