Monumental é um termo corriqueiro e rasteiro para descrever os sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido, do escritor francês Marcel Proust. Não apenas pelas mais de 3 mil páginas que acompanham as dezenas de edições já publicadas em qualquer língua - ou pelo número de personagens (25 principais e uma miríade de secundários) e cenários (cinco, cada qual com seu papel na narrativa) -, mas pelo gigantismo da proposta literária de Proust: dissecar a relação do homem com o tempo e com a memória.
Em As Ideias de Proust, o crítico Roger Shattuck discute qual a melhor maneira de ler um dos livros mais complexos e densos da história. Sugere a criação de métodos com anotações, a leitura concomitante do original em francês e de uma tradução e até a leitura em voz alta - cada personagem de Proust tem uma sonoridade distinta, que pode ser oprimida pelo peso das páginas.
Ler Proust é mesmo um exercício existencial - para o dramaturgo irlandês Samuel Beckett, devido ao "estilo cansativo, mas que não cansa a mente", pois a "fadiga que se sente é uma fadiga do coração, uma fadiga do sangue". E o autor dá pistas a serem seguidas, como refrões, leitmotiven que orientam o ritmo da narrativa. No primeiro volume, No Caminho de Swann, por exemplo, a questão sobre quem estava com Odette na tarde em que ela não atendeu à porta vira o eixo da vida de Swann.
Proust cria familiaridades para depois, com um só dado novo, embaralhar a narrativa e formular novas perspectivas. Por isso, deve-se ler Proust com o mesmo cuidado com que se lê um romance policial, já que cada detalhe pode se tornar uma pista para todo o resto.
Em Busca do Tempo Perdido tem cinco cenários principais: a aldeia de Combray, Paris, Balbec, Doncières e Veneza. Combray colore as primeiras 200 páginas do romance. É onde estão as raízes da família - e da civilização francesa -, é o campo em oposição a dois caminhos tomados na narrativa: o caminho de Guermantes, ou da aristocracia, e o caminho de Swann, ouda arte e da depravação.
Paris é onde quase todo o romance se desenvolve. Primeiro nos jardins dos Champs-Élysées, onde ele conhece Gilberte Swann. Depois no apartamentoda família junto ao duque e à duquesa de Guermantes - é no emaranhado de salões, pátios e ruas dessa parte da cidade que Marcel conhecerá tanto a aristocracia quanto a depravação. Já Balbec é uma cidade de veraneio imaginária no litoral normando. É onde fica o estúdio de Elstir e onde se materializam as "moças em flor". Doncières é uma cidade militar onde Marcel vive sua primeira experiência longe da família. E Veneza, que fica na memória de Marcel pela viagem planejada, desejada e cancelada pelo pai, emerge anos depois com a visita que faz com a mãe.
O eu em marcel Proust é também múltiplo. A tendência é crer sempre que o narrador é Marcel, o protagonista que cresce junto ao romance e tem o nome mencionado apenas duas vezes ao longo da história. Mas pode ser também a persona literária do próprio Proust, que adentra o romance para comentar sua relação com a realidade. Alguns estudiosos veem até setes eus diversos - todos enlaçados na produção de um só eu que é o próprio livro.
Sua narrativa tende sempre à plenitude da existência. Não porque tenha todos os significados, mas porque oferece todas as perspectivas possíveis. O autor consegue em um período com 13 orações, 12 delas subordinadas à primeira, exibir todas as nuanças de dois personagens (Swann e Odette) que se encontram, se conhecem e terão juntos um futuro capturado já nessa primeira leitura. Cada frase cria a noção de um tempo contínuo, dilatado, um tempo vivido a cada momento.
Se o livro é sobre o Tempo, é também sobre a Memória. Quando a avó do narrador morre, sua agonia é retratada como um lento desfazer, que se evapora até o vácuo. Em O Tempo Recuperado, Marcel recua ao passado das lembranças, navegando nas recordações de cheiros, sons, paisagens e toques. E é esta uma das mais celebradas invenções proustianas, a "memória involuntária", que permeia os sete volumes e brinca com os sentidos do leitor.
Proust deixa de lado a memória voluntária, feita de lembranças cotidianas que, depuradas, caem no esquecimento, para retomá-las como involuntárias - nacos do tempo que, captados pelos cinco sentidos e não organizados pela razão ou lembrados à força, podem esperar para sempre, até que apareçam como poesia.
Para Proust, todo ser é um artista em potencial. Não à toa, grande parte do romance dedica-se à teoria da arte, enfocando personagens como o pintor Elstir e o músico Morel.
Shattuck se pergunta: "Quando terminarem os direitos autorais, será que nos oferecerão um Proust em edição de bolso, com 300 páginas?". A pergunta tem resposta: já há até uma edição em quadrinhos, disponível nas livrarias. E nisto os estudiosos concordam: faltam séculos de exegese para que se compreenda o significado maior da obra proustiana - para que se vá além do "tempo perdido" na leitura de tantas páginas. Como crê o especialista Alcântara Silveira, ao dizer que Em Busca... é "como esses quadros antigos que se tornam mais admiráveis quanto mais sobre eles corre o tempo, descobrindo-se neles belezas que os homens de outrora não descobriram".
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