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LITERATURA

Canaã

Em romance de tese sociológica, Graça Aranha descreve as tensões da colonização alemã no Espírito Santo


Bravo

01/08/2008 18:20

Texto
Daniel Schneider e Thiago Minani

Foto: Cel Lisboa
Academia Brasileira de Letras

Graça Aranha, alem de padrinho da Semana de Arte Moderna de 22, foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras

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Publicado em 1902, Canaã encontrou sucesso imediato entre os leitores. A obra de Graça Aranha divide com Os Sertões, de Euclides da Cunha, o marco inaugural do Pré-Modernismo brasileiro. Trata-se evidentemente de mais um livro a antecipar temas e preocupações de que os modernistas se ocupariam mais detidamente anos depois.

Desenvolvendo uma espécie de tese sociológica, a obra aborda questões sobre a imigração européia no Brasil. Os alemães Milkau e Lentz partem para a região do rio Doce, no interior do Espírito Santo. O primeiro defende o uso da violência e a superioridade da sua raça sobre a população local: os arianos versus “os mestiços". Já Milkau, feliz e romântico, apóia a integração entre os povos em terras brasileiras. Este torna-se defensor de Maria, que, depois de ser renegada pelos patrões quando descobrem que ela está grávida, perde o filho em circunstâncias brutais - devorado por porcos. Considerada culpada, é presa. Milkau a liberta e segue com ela para uma possível terra prometida, a Canaã.

O romance se apóia na objetividade e em recursos naturalistas na descrição de episódios e personagens. Para alguns críticos, haveria até um quê de Simbolismo na prosa. Imagens plásticas e sensações visuais, olfativas e auditivas povoam o texto: “Os primeiros vaga-lumes começavam no bojo da mata a correr as suas lâmpadas divinas... No alto, as estrelas miúdas e sucessivas principiavam também a iluminar... Os pirilampos iam-se multiplicando dentro da floresta, e insensivelmente brotavam silenciosos e inumeráveis nos troncos das árvores, como se as raízes se abrissem em pontos luminosos. (...) Os pirilampos já não voavam, e miríades e miríades deles cobriam os troncos das árvores, que faiscavam cravados de diamantes e topázios". O universo imagético e idealista de Milkau contrasta com toda a barbárie que o escritor faz o leitor testemunhar ao longo da narrativa. Graça Aranha não resvala para as facilidades do maniqueísmo ao opor Milkau e Lentz. Longe disso. Descrevia duas frentes de pensamento da colonização no Brasil.

Nascido em 1868 em São Luís, no Maranhão, Graça Aranha começou a reunir os dados e impressões para a produção de Canaã quando era juiz municipal de Porto Cachoeiro, cidade de imigrantes alemães no Espírito Santo. Um dos membros fundadores da Academia Brasileira de Letras, em 1896, começou uma carreira diplomática que lhe permitiu, na Europa, tomar contato com as novas correntes estéticas. Tendo-as assimilado com entusiasmo, apadrinhou a Semana de Arte Moderna de 22, em que apoiou o movimento dos novos artistas brasileiros. Disse Mário de Andrade: “O que ninguém negará é a importância dele para a viabilidade do movimento, e o valor pessoal dele. Ele trouxe mais facilidade e maior rapidez para nossa implantação".

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