"Não há dúvida que esse pobre homem foi louco, mas há algo na loucura dele que me interessa mais que a sanidade de Lorde Byron ou Walter Scott."
As palavras do poeta inglês William Wordsworth (1770-1850) foram proferidas por ocasião da morte de seu compatriota e companheiro na poesia William Blake (1757-1827) e marcam bem a impressão que o autor de Canções da Inocência (1789) e Canções da Experiência (1794) deixou em seu tempo. Mal compreendido, Blake tinha sido tomado por profeta louco em seus últimos anos, quando publicara uma miscelânea de poemas de fundo místico, como As Visões das Filhas de Albion (1793), Milton (1808) e o épico Jerusalém (1820).
Além de se dedicar à produção literária, o velho Blake nunca descuidou das práticas que aprendera na juventude: a gravação e a pintura. Com pouca instrução formal, com exceção do curso feito na Academia Real de Artes de Londres, o poeta faria uso delas em Canções da Inocência, um de seus primeiros livros. Usando cera e ácido, gravava os textos e as ilustrações de seus poemas em placas de cobre, usadas para imprimir as páginas do volume, que depois coloria meticulosamente. A primeira tiragem da obra contou com cerca de 30 volumes.
Essa poesia inicial é marcada por uma linguagem simples, dotada de intensa força simbólica e sutil musicalidade. Imagens de embasamento cristão misturam-se a retratos da natureza e são permeadas pelo espírito de inocência do título, sintetizado nos símbolos do cordeiro, do bom pastor e do paraíso divino. Mas, mesmo nesse universo idílico, há sempre um sopro de realismo, que implica a violência e a pobreza, a crueldade e as contradições humanas — em geral associadas à metrópole, fruto da Revolução Industrial.
Na segunda metade do século 18, a Revolução Industrial impunha profundas transformações nas estruturas e valores do trabalho, da moradia e da convivência social. O ambiente agrícola era substituído pelo cenário urbano, e o homem espiritual e religioso perdia lugar para o pensador empírico e racionalista.
Em Canções da Experiência, publicado cinco anos depois, percebe-se o aprofundamento dessas contradições e a reelaboração dos modelos cristãos contidos em Canções da Inocência. A Revolução Francesa despertara no espírito do poeta a necessidade de buscar uma voz própria, que rompesse com as certezas frágeis de sua obra anterior. A inspiração revolucionária proveniente da França não só ressalta as mazelas do capitalismo incipiente como também revela a capacidade transformadora do homem revoltado. Nesse contexto, Blake contrapõe o aspecto infernal e místico de Canções da Experiência às figuras pastoris, ao racionalismo e ao didatismo das Canções da Inocência.
Percebe-se, nos poemas de sua obra mais madura, toda a sorte de crítica contra os modelos morais e religiosos, bem como contra as convenções políticas e sociais. Os poemas dialogam com os de sua obra anterior. O contraste mais intenso reside na transformação imposta à imagem de Cristo. Enquanto no primeiro livro ele surge como o cordeiro que salva a humanidade, aqui ele é um tigre, representação da energia criadora do Universo.
Se em vida Blake foi um louco para muitos de seus leitores e não leitores, após a morte o tempo o canonizou. Tornou-se referência para a poesia moderna de Walt Whitman, W. B. Yeats e T. S. Eliot. Se Wordsworth tinha motivos para indicar a semente de loucura que havia em seu conterrâneo, pois o próprio Blake dizia conversar com santos e profetas, tinha ainda mais razões para apontar a genialidade do poeta.
depoimentos
recomendamos
MAIS LEITURA
Conheça atividades simples - e baratas! - que podem transformar seu filho em um pequeno grande leitor
TESTE
Você sabe lidar com seu filho adolescente?
mais lidos
VESTIBULAR
Os 100 melhores livros da literatura brasileira para você ler uma vez na vida
FÉRIAS E FILMES
Uma seleção de filmes que passam grandes lições e podem tornar as férias mais divertidas
blogs