Os primeiros esboços de Os Cantos foram feitos pelo americano Ezra Pound (1885-1972) em 1904. Mas os primeiros poemas que integrariam o volume foram publicados apenas em 1917, enquanto os últimos só vieram à luz em 1970. O gigantesco conjunto de versos sofreu inúmeros acréscimos e modificações ao longo da vida do poeta.
"Tentei fazer dos Cantos uma obra histórica, e não de ficção", disse Pound. Para cumprir esse objetivo, rompeu as barreiras do tempo e costurou seus versos sobre referências que vão da Grécia à China, do Renascimento à formação dos Estados Unidos. Assim, uma releitura da Odisseia, de Homero, pode combinar-se com discussões sobre a usura e digressões sobre sistemas bancários com a poesia provençal. Somada a esse amálgama acha-se a interpolação de outras línguas, como o latim, o chinês, o grego, o francês e o italiano - além do uso de arcaísmos, aglutinações, neologismos e abreviaturas.
Para Pound, a grande questão quando concebeu o livro foi o molde que adotaria para produzir uma obra que parecia abarcar todo o cosmo. "Tinha de ser uma forma que não excluísse algo simplesmente porque não se encaixava", comentou. A partir dessa percepção e influenciado pela concepção confuciana segundo a qual a realidade se forma por meio de forças e tensões interagentes, o poeta chegou a seu modelo para Os Cantos. "Somente uma forma musical aceitaria a matéria", disse.
Foi desse modo que Pound deu à sua eterna obra em construção a configuração de um concerto, de uma ópera - gênero que ele mesmo experimentou ao escrever as operetas Le Testament de François Villon e Cavalcanti. Unindo sua ambição histórica a uma melodia poética plasmada em sinestesias, jogos de palavras e liberdade métrica, Pound construiu um dos mais impressionantes documentos líricos da era contemporânea.
A poética do autor dos Cantos exerceu profunda influência em sua época. Paund abandonou os Estados Unidos e estabeleceu-se em Londres, cidade que acreditava ser "o novo centro do Renascimento". Ali se tornou amigo e colaborador de nomes como James Joyce, Ford Madox Ford (1873-1939), William Carlos William (1883-1963) e W. B. Yeats (1865-1939). O poeta T. S. Eliot, um dos principais admiradores de Pound, disse que ele foi "o maior responsável pela revolução poética no século 20".
Ainda em Londres, foi um dos fundadores da escola imagística, que se insurgiu contra o sentimentalismo vitoriano ao defender o uso de versos livres, do coloquialismo, da concisão e do uso de imagens claras e concretas. Em sua atividade como crítico, tradutor, editor e poeta, demonstrou profundo e vasto conhecimento literário, desde a Antiguidade até a lírica moderna americana, sem desprezar os orientais e a tradição trovadoresca medieval. O volume ABC da Literatura, publicado em 1934, foi um esforço didático para esquematizar esse conhecimento, que aparece de forma mais difusa nos versos de Os Cantos.
Em Paris, Pound frequentou os círculos da geração perdida, de Gertrude Stein (1874-1946) e Ernest Hemingway, e a nata das vanguardas modernas. Na Itália, sua aversão pelo capitalismo e pelo liberalismo econômico levou-o a juntar-se às fileiras do partido fascista de Benito Mussolini. Durante a Segunda Guerra Mundial, atuou como jornalista do regime do duce, transmitindo mensagens antissemitas e contra os Aliados através do sistema público de rádio.
Com o fim da guerra, acusado de traição, Ezra Pound foi preso e depois transferido para um sanatório, onde permaneceu 13 anos. Ali escreveu mais duas seções de Os Cantos. Pound morreu na Itália, sem nunca ter concluído seu grande poema épico.
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