A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy, do escritor irlandês Laurence Sterne (1713-1768), é considerado pela crítica o "antirromance do século", alcunha mais do que merecida para uma obra que faz não uma paródia de um livro, mas de todo o gênero romanesco. Originalmente publicado em vários volumes - os dois primeiros em 1759, e os demais no decorrer dos dez anos seguintes - o livro teve reações dissonantes entre os escritores da época, mas o humor grosseiro foi bem aceito pela sociedade londrina. Em nenhum outro romance as expectativas de um leitor comum são tão destratadas como na obra-prima de Sterne. Quais expectativas? Encontrar um enredo convencional, contando a vida de um personagem bom ou ruim. Ou compreender a história pelos fatos - quase nada acontece em Tristram Shandy, e sobram as opiniões e digressões do narrador, que constituem a maior parte da narrativa. Mais curiosos são os recursos gráficos, com o uso de símbolos, reticências, uma página inteiramente pintada de preto, alguns capítulos em branco sem nenhuma palavra e até uma página em branco para que o leitor desenhasse sua amante. Recursos, aliás, familiares ao público de Machado de Assis, que em Memórias Póstumas de Brás Cubas assumiu a influência da obra de Sterne em sua escrita.
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