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Literatura

A poesia infantil de Cecília Meireles

Ela escreveu poesia para o público infantil, produção que atrai de fato o leitor de todas as idades. Ótimo pretexto para conhecer vida e obra de uma brasileira invulgar


06/11/2013 12:48
Texto Marion Frank
Educar
Foto: Arquivo Pessoal
Foto: Cecília Meireles
Cecília Meireles na biblioteca de sua residência, no Cosme Velho, RJ

Neste dia 7 de novembro, a carioca Cecília Benevides de Carvalho Meireles faria aniversário, o 112º. Como Cecília Meireles, ela conquistou um lugar de destaque na poesia nacional, dona de um estilo ''puro'', admirado até mesmo pelos modernistas. Acontece que ainda é pouco conhecida uma de suas qualidades poéticas, a de escrever para crianças. ‘‘Ela foi a maior, influenciando todos os poetas que escreveram para o público infantil depois dela’‘, diz Hélder Pinheiro, um estudioso do assunto. ‘‘A obra Ou Isto ou Aquilo é excepcional.’‘


O livro a que o professor de Literatura Brasileira da Universidade Federal de Campina Grande (PB) se refere foi publicado em 1964, já no final da sua vida. Mas Cecília Meireles dedicou atenção ao universo infantil ao longo de toda a sua trajetória profissional, preocupando-se inclusive em usar a sua coluna diária no jornal Diário de Notícias para discutir a educação brasileira. Também se esforçou em destacar a importância de escrever para o público infantil sem banalizar o conteúdo. ‘‘Ela sempre esteve atenta ao modo de ser e perceber o mundo da criança... Por isso, o seu livro infantil mais importante, após quase 50 anos de publicação, continua atual’‘, destaca o especialista.


Autor de livros sobre poesia infantil - entre eles, ‘‘Poemas para crianças: reflexões, experiências e sugestões’‘ e a coletânea ‘‘Pássaros e bichos na voz de poetas populares’‘ -, Hélder Pinheiro explica porque vale a pena ler Cecília Meireles para crianças de colo. Outros destaques da entrevista, como as razões de encantamento infantil pelos versos da grande poeta nacional, a seguir.

Para ler, clique nos itens abaixo:
Saberia explicar de onde vem esse gosto de Cecília Meireles de escrever para crianças? Seria o amor que ela sempre demonstrou à educação?
Hélder Pinheiro: Cecília, em ‘‘Crônicas sobre Educação’‘, fala inúmeras vezes da alma infantil, de como podemos aprender com esse mundo da infância. Isso, no início da década de 30 do século passado, quando a poesia que circulava era eminentemente informativa e moralista. Não sei se a visão dela é a de transmitir informação - para mim, antes de informar, é de fazer ver o mundo com outros olhos, fazer perceber nuanças da vida e da natureza que passam despercebidas (e um importante exemplo disso é o poema ‘‘Leilão de Jardim’‘). Como a criança está descobrindo o mundo, tudo pode soar de modo novo, encantador. Nesse sentido, a poesia procura seguir as pegadas. E o resultado é que, ao mesmo tempo em que aprende com a criança, contribui para que ela e nós, leitores, tenhamos uma visão diferenciada das coisas, das pessoas e das mais diferentes situações representadas nos poemas - há crianças, velhos, animais, lugares etc.
O que a criança (e o jovem) ganha(m) ao ler poesia?
Hélder Pinheiro: Não há um ganho computável, mensurável. O ganho está no plano espiritual, da formação do ser, dos valores humanos e, sobretudo das percepções. Creio que as crianças e os jovens que convivem com a poesia, que se deixam levar por aspectos reflexivos, fantasiosos, em evidência nesses textos terão mais chances de serem mais atentos aos detalhes significativos da vida. Mas não há garantia de nada... Mesmo assim, é melhor fecundar a vida das crianças e dos jovens com poesia do que deixá-los abertos para outras formas de preenchimento em nada humanos - nada esteticamente encantadores.
Que temas Cecília Meireles aborda para atrair a curiosidade infantil?
Hélder Pinheiro: A questão do tema deve sempre vir associada à linguagem. Cecília esteve muito atenta ao brincar das crianças. Muitos de seus poemas retomam brincadeiras infantis (‘‘A bailarina’‘ e ‘‘Jogo da Bola’‘, por exemplo), mas também há temas mais duros, como o da morte (‘‘A pombinha da mata’‘ e ‘‘Uma flor quebrada’‘). O modo de tocar os temas traz muitas vezes o apelo à fantasia, como ocorre em ‘‘O menino azul’‘ e ‘‘Sonho de Olga’‘. Há também um jogo imagético muito significativo em inúmeros poemas, caso de ‘‘Tanta tinta’‘ e ‘‘Bolhas’‘. Não é bem o tema o que atrai a curiosidade da criança, mas sim o modo como ele é tratado.
Sim, a musicalidade da poesia de Cecília funciona como ímã...
Hélder Pinheiro: A musicalidade quase sempre produz um efeito de sentido marcante. O modo mais visível dessa musicalidade, na poesia de Cecília Meireles, são as assonâncias (veja-se em ‘‘Rio na sombra’‘, em que a repetição de /õ e i/ reforça o significação de ‘‘frio/bom/do longo rio’‘) e as aliterações (‘‘P tem papo/o P tem pé./ É o P que pia?’‘), do poema ‘‘O passarinho no sap钑); as rimas que comparecem em dezenas de poemas, dos mais diversos modos (repare no belo exemplo de ‘‘As meninas’‘: ‘‘Arabela/abria a janela./ Carolina/abria a cortina’‘); as repetições de palavras (em ‘‘As duas velhinhas’‘) e o paralelismo - recurso presente em muitos poemas, caso de ‘‘O menino azul’‘, com a repetição da estrutura ´O menino quer...´. Tudo isso conjugado, como muitas vezes aparece, pode sugerir movimento ou barulho. Além disso, como se vê nos exemplos apresentados, são muito bem construídos.
Na coluna do Diário de Notícias, Cecília comentou que a ‘‘escrita de livros para crianças deveria estar sujeita a determinadas regras''. Entre elas, a do vocabulário ser simples, mas jamais banal. O que ela quis dizer?
Hélder Pinheiro: Havia uma tradição meio parnasiana que ostentava um vocabulário cheio de palavras raras, de expressões eruditas, de inversões bruscas. Cecília, por estar atenta ao modo de ser e perceber o mundo da criança, lança mão de um vocabulário que está bem próximo desse universo infantil. Afinal, a função da poesia não é a de ensinar vocabulário. Não sei bem o que ela considerava banal, mas possivelmente se refere à tendência que havia de infantilizar a criança... Após quase 50 anos de publicação do livro de poemas para crianças, sua poesia continua atual - e uma das razões para tanto é a de não ter buscado palavras raras ou ensinar o público infantil.
Deve-se ler a poesia de Cecília Meireles a partir de que idade?
Hélder Pinheiro: Acho que em qualquer idade, mesmo quando a criança ainda não fala, mas o ouvido já está sendo educado, treinado para os efeitos sonoros mais significativos. Nunca é bom ter um receituário. Mas é fundamental buscar caminhos, ouvir outras pessoas que leem para crianças - professores, amigos etc. Para a criança, ouvir alguém a quem está ligada afetivamente é uma atividade muito agradável, fortalece as relações afetivas. Nunca esquecemos alguém que nos contava histórias ou lia/recitava poemas para nós, na infância.
Haveria algum exercício que o professor dá em sala de aula que poderia ser seguido, em casa, para despertar o interesse infantil por poesia?
Hélder Pinheiro: Exercício, no sentido tradicional, não. Mas trazer trechos de poemas para brincar com as crianças pode funcionar como incentivo. Ler dísticos, por exemplo, como ‘‘Não me olhe de lado/que não sou soldado’‘, ‘‘Não me olhe do meio/que não sou recheio’‘. As crianças gostam de rima e isso estimula a ler/ouvir poemas inteiros. Para mim, o grande exercício é ler.

 

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