Les événements mennuient", ou "os acontecimentos me entediam". A epígrafe, de autoria do poeta francês Paul Valéry, prenuncia a temática predominante em Claro Enigma (1951), a melancolia e o desencanto com a vida que se encaminha em direção à morte. Desenganado com a capacidade de intervir no mundo, Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) experimenta o fim da esperança engajada que conhecera em meados dos anos 40, em A Rosa do Povo.
A mudança de foco, contudo, nada tem a ver com um eventual distanciamento da realidade. Drummond muda de objeto poético, afastando-se dos fatos concretos para falar de ausências, perdas e temas abstratos como o tempo e a vida. "O poeta volta-se para os seus mitos, dá razão ao inato transcendentalismo, colocando-se a par dos grandes poetas do idioma. Não mais a lírica admiração do próprio ego, mas o descortino dos arquétipos", na opinião do crítico Massaud Moisés. É a poesia metafísica que, para o poeta e ensaísta Affonso Romano de SantAnna, "une o choro individual ao coletivo".
Este sombrio retrato é feito do sentimento de culpa que oprime o poeta e da visão crepuscular que dá o tom da obra: a noção da impossibilidade, estabelecida entre o transitório e o definitivo, a essência das coisas e seu fracasso diante do tempo. Marca-se, também, a volta definitiva de um tema fundamental: o amor, descrito sempre como vivência dolorosa. "Mas o que antes aparecia travestido de ironia, nesse momento cede lugar a recorrentes imagens de violência e mutilação", diz o crítico Vagner Camillo.
Do ponto de vista formal, Claro Enigma afasta-se do estilo livre e coloquial dos modernistas; divide-se em seis partes: Entre Lobo e Cão; Notícias Amorosas; O Menino e os Homens; Selo de Minas; Os Lábios Cerrados; A Máquina do Mundo. Aqui o poeta se mostra mais atento à métrica e à forma dos versos, atitude tomada pela crítica da época como um retrocesso. Mas logo comprovou-se que Drummond tinha plena consciência dos riscos de alienação existentes na arte pela arte. A releitura de formas antigas fortificou seus versos.
Entre os poemas que compõem o livro, A Máquina do Mundo é considerado por muitos o maior da literatura brasileira. O título faz alusão ao trecho de Os Lusíadas em que a Vasco da Gama é revelado o funcionamento da máquina do mundo, após o navegador ter conquistado o caminho para as Índias. Todo composto em tercetos, a versão do poeta mineiro mostra o eu-lírico que, durante um fim de tarde, recebe a visita da máquina. Circunspecto, ele a desdenha friamente. Então a experiência, que a princípio parecia grandiosa, se desfaz: "(...) baixei os olhos, incurioso, lasso,/ desdenhando colher a coisa oferta/ que se abria gratuita a meu engenho". Revela-se aí o conflito fundamental eu-mundo, presente em toda a obra de Drummond, a recusa que faz da tentativa de entender a história, tal como experimenta em A Rosa do Povo. "É o clímax da trajetória do gauche, quando sujeito e objeto se fundem, a aparência e a essência se integram", diz o crítico Affonso Romano de Santanna.
depoimentos
recomendamos
MAIS LEITURA
Conheça atividades simples - e baratas! - que podem transformar seu filho em um pequeno grande leitor
TESTE
Você sabe lidar com seu filho adolescente?
mais lidos
VESTIBULAR
Os 100 melhores livros da literatura brasileira para você ler uma vez na vida
FÉRIAS E FILMES
Uma seleção de filmes que passam grandes lições e podem tornar as férias mais divertidas
blogs