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LITERATURA

Claro Enigma

Carlos Drummond de Andrade se afasta do coloquialismo e recorre à métrica rigorosa para falar da melancolia e do desencanto


Bravo

01/08/2008 17:38

Texto
Daniel Schneider e Thiago Minani

Foto:
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade, que em "Claro Enigma" abandona o tom coloquial e aproxima-se de temas mais abstratos

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Les événements m’ennuient”, ou "os acontecimentos me entediam”. A epígrafe, de autoria do poeta francês Paul Valéry, prenuncia a temática predominante em Claro Enigma (1951), a melancolia e o desencanto com a vida que se encaminha em direção à morte. Desenganado com a capacidade de intervir no mundo, Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) experimenta o fim da esperança engajada que conhecera em meados dos anos 40, em A Rosa do Povo.

A mudança de foco, contudo, nada tem a ver com um eventual distanciamento da realidade. Drummond muda de objeto poético, afastando-se dos fatos concretos para falar de ausências, perdas e temas abstratos como o tempo e a vida. "O poeta volta-se para os seus mitos, dá razão ao inato transcendentalismo, colocando-se a par dos grandes poetas do idioma. Não mais a lírica admiração do próprio ego, mas o descortino dos arquétipos”, na opinião do crítico Massaud Moisés. É a poesia metafísica que, para o poeta e ensaísta Affonso Romano de Sant’Anna, "une o choro individual ao coletivo”.

Este sombrio retrato é feito do sentimento de culpa que oprime o poeta e da visão crepuscular que dá o tom da obra: a noção da impossibilidade, estabelecida entre o transitório e o definitivo, a essência das coisas e seu fracasso diante do tempo. Marca-se, também, a volta definitiva de um tema fundamental: o amor, descrito sempre como vivência dolorosa. "Mas o que antes aparecia travestido de ironia, nesse momento cede lugar a recorrentes imagens de violência e mutilação”, diz o crítico Vagner Camillo.

Do ponto de vista formal, Claro Enigma afasta-se do estilo livre e coloquial dos modernistas; divide-se em seis partes: Entre Lobo e Cão; Notícias Amorosas; O Menino e os Homens; Selo de Minas; Os Lábios Cerrados; A Máquina do Mundo. Aqui o poeta se mostra mais atento à métrica e à forma dos versos, atitude tomada pela crítica da época como um retrocesso. Mas logo comprovou-se que Drummond tinha plena consciência dos riscos de alienação existentes na arte pela arte. A releitura de formas antigas fortificou seus versos.

Entre os poemas que compõem o livro, A Máquina do Mundo é considerado por muitos o maior da literatura brasileira. O título faz alusão ao trecho de Os Lusíadas em que a Vasco da Gama é revelado o funcionamento da máquina do mundo, após o navegador ter conquistado o caminho para as Índias. Todo composto em tercetos, a versão do poeta mineiro mostra o eu-lírico que, durante um fim de tarde, recebe a visita da máquina. Circunspecto, ele a desdenha friamente. Então a experiência, que a princípio parecia grandiosa, se desfaz: "(...) baixei os olhos, incurioso, lasso,/ desdenhando colher a coisa oferta/ que se abria gratuita a meu engenho”. Revela-se aí o conflito fundamental eu–mundo, presente em toda a obra de Drummond, a recusa que faz da tentativa de entender a história, tal como experimenta em A Rosa do Povo. "É o clímax da trajetória do gauche, quando sujeito e objeto se fundem, a aparência e a essência se integram”, diz o crítico Affonso Romano de Sant’anna.

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