A partir da união da temática urbana, que aborda a vida sem horizontes da pequena burguesia carioca e o mundo dos marginais e investigadores de polícia, com uma prosa enxuta e técnica narrativa que privilegia a ação paralela como a de filmes de suspense, Rubem Fonseca conseguiu atingir o patamar de escritor respeitado, ao mesmo tempo saudado pela crítica e adorado pelo público.
Parte dess universo o autor conheceu bem. Formado em direito, este mineiro nascido em Juiz de Fora em 1925 fez carreira na polícia. Em 1952, começou como comissário do 16o Distrito Policial de São Cristóvão, no Rio de Janeiro. Ficou pouco tempo nas ruas. Foi, até ser exonerado em 1958, policial de gabinete, cuidando do serviço de relações públicas. Na escola de polícia destacou-se em psicologia. Fonseca tinha pendor para pinçar as tragédias humanas que havia debaixo das definições legais. Foi escolhido, com mais nove policiais cariocas, para aperfeiçoar-se nos Estados Unidos, entre 1953 e 1954.
Estreou com a coletânea de contos Os Prisioneiros (1963), a que se seguiu A Coleira do Cão (1965). Este último é visto como ponto alto de sua produção literária, ao lado de O Cobrador (1979). Embora a brutalidade das ruas aflore em vários momentos, em outras ocasiões a narrativa se distende num lirismo angustiado. Segundo o tradutor e ensaísta Boris Schnaiderman, o conto-título contém algumas das cenas mais brutais da obra de Fonseca: "O que há de implacável em nosso sistema policial aparece em toda a crueza”. Mas há também o assassino que tem pena de passarinho e o espancador que, depois, socorre os presos com remédios. "A mistura de barbárie e humanidade no íntimo de uma pessoa é uma constante nestes contos”, diz Schnaiderman.
Na história Madona, um adolescente vai com amigos ao aeroporto do Galeão para assistir ao espetáculo dos aviões decolando. O conto conjuga a falta de perspectiva de uma juventude que não encontrou seu caminho com a perspectiva pesarosa que se instalava no Brasil com o golpe militar: "O aeroporto estava cheio, saíam vários aviões internacionais naquele dia. Havia uma urgência no ar, uma ânsia, uma pressa que não se vê no cais ou na estação ferroviária”. Em A Força Humana, um fisiculturista perde seu posto de astro de academia para um dançarino de rua, e entra em crise. A idéia de "força humana” que inicialmente é apresentada como sendo a força física logo se desfaz ao mostrar uma pessoa com um interior vazio e cheio de expectativas frustradas. O final da história é um dos mais belos concebidos pelo autor.
Inserido na linha de escritores dedicados a descrever a vida das metrópoles, como Oswald de Andrade, Alcântara Machado e Dalton Trevisan, Rubem Fonseca é autor de extensa obra, que inclui, entre outros livros, Feliz Ano Novo (contos, 1975), A Grande Arte (romance, 1983, filmado por Walter Salles Jr., com roteiro do autor), Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos (romance, 1988), Agosto (romance, 1990, adaptado para a televisão), Histórias de Amor (contos, 1995), Secreções, Excreções e Desatinos (contos, 2001) e Pequenas Criaturas (contos, 2002).
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