Educar para Crescer
busca

Educar para crescer

LITERATURA

A Consciência de Zeno

Obra inova ao levar a psicanálise à ficção e retrata de forma irônica o fracasso da língua ao descrever a realidade


24/10/2011 0:12
Texto Redação Bravo!
Bravo
Foto: Wikimedia Commons
Foto: Italo Svevo foi pioneiro em retratar o inconsciente humano, assim como tratado nas teorias de Freud (foto)
Italo Svevo foi pioneiro em retratar o inconsciente humano, assim como tratado nas teorias de Freud (foto)

O século 20 seria, de certa forma, inaugurado com a publicação, em 1900, de A Interpretação dos Sonhos, obra de Sigmund Freud, fundadora da psicanálise. É a partir dessa ciência do inconsciente e do desejo, de seu novo olhar sobre os problemas que reprimem o ser humano moderno, que grande parte dos intelectuais pensaria o mundo contemporâneo. 

O italiano Italo Svevo (1861-1928) foi, nesses termos, pioneiro. Escreveu um dos primeiros romances que faz uso da técnica psicanalítica, A Consciência de Zeno, publicado em 1923 em Trieste. Claro, de maneira irônica - já no título se percebe a jocosidade contida no interior do livro. A consciência refere-se à determinação do personagem em se apresentar como curado diante do doutor S., o analista. 

Cansado e velho, Zeno Cosini, um rico empresário italiano, decide fazer um balanço de sua vida. Deitado no divã, ele conta, sem pressa, os altos e baixos de sua existência. Desde a paixão por uma jovem e o casamento com a irmã dela até as tentativas frustradas de parar de fumar e seus sucessos e fracassos comerciais. A lenta imersão dos fatos e das impressões da memória de Zeno vem sempre acompanhada de sua implacável e sarcástica explanação. 

Cosini é o retrato do amargurado homem do século 20. Sua doença não é física, e sim mental - seja o vício do tabagismo, o medo de envelhecer e morrer, o tédio de viver, seja seu casamento conturbado. Problemas existenciais que ele só conseguiria resolver entregando-se à atividade comercial. É pelo lucro da compra - assim ele pensa - que poderá alcançar a saúde mental, graças à sublimação de uma perda por um ganho. É assim que Zeno chega à conclusão de que sua vida, afinal, "foi mais bela do que a dos assim chamados sãos". 

A Consciência de Zeno se diverte com as distinções entre sanidade e loucura, sucesso e derrota, ao mesmo tempo em que expõe ao ridículo os valores da moral burguesa. Valendo-se de recursos próprios da psicanálise, como a livre associação de ideias, o romance faz ainda uma sátira da ciência de Freud - de quem Svevo, aliás, foi tradutor. Paradoxalmente, o autor assina um libelo pró e contra a psicanálise. 

A narrativa transforma-se em uma comédia de equívocos em que o discurso psicanalítico e os fatos da vida real se misturam num texto repleto de humor. Rompidas as barreiras entre ciência e ficção, o que Svevo descreve é a falência da língua ao pronunciar a realidade. "Uma confissão escrita é sempre mentirosa", escreve. 

A Consciência de Zeno, logo publicado, foi aclamado por escritores como James Joyce. Contemporâneo ainda de Luigi Pirandello e Marcel Proust, entre outros, Svevo soube criar uma narrativa riquíssima, ao retratar a vida burguesa de um doente imaginário. Renovador em sua narrativa simples e transparente, o autor utiliza seu homem comum e a psicanálise para analisar a linguagem humana e a modernidade.



amigos do educar

 
 
 


depoimentos

Marina Silva, Martha Medeiros, Nelson Motta e outras personalidades brasileiras revelam o impacto de uma boa Educação no futuro



recomendamos

MAIS LEITURA
Conheça atividades simples - e baratas! - que podem transformar seu filho em um pequeno grande leitor

TESTE
Você sabe lidar com seu filho adolescente?

mais lidos

VESTIBULAR
Os 100 melhores livros da literatura brasileira para você ler uma vez na vida

FÉRIAS E FILMES
Uma seleção de filmes que passam grandes lições e podem tornar as férias mais divertidas

blogs

Realização

Apoio