Quando em 1964 se publicou O Coronel e o Lobisomem, de José Cândido de Carvalho, o autor recebeu imediatamente a aprovação dos círculos da crítica e dos leitores. Havia sem dúvida algo de novo nesse romance, onde se percebia, ao menos, um humor cheio de viço. O narrador, em primeira pessoa, conta com fluência e inusitadas descrições a sua história: "A bem dizer, sou Ponciano de Azeredo Furtado, coronel de patente, do que tenho honra e faço alarde. Herdei do meu avô Simeão terras de muitas medidas, gado do mais gordo, pasto do mais fino. Leio no corrente da vista e até uns latins arranhei em tempos verdes da infância (...). Digo, modéstia de lado, que já discuti e joguei no assoalho do Foro mais de um doutor formado. Criado pelo avô, que nele vê "todo o sintoma do povo da política por ser "invencioneiro e linguarudo, esse Ponciano com herança e patente de coronel tem na falta de cerimônia o impulso para apoderar-se - como um bom contador de histórias - do que deseja e aventurar-se nas mais estapafúrdias situações, como a caça de uma onça; o namoro com uma sereia; a companhia de um galo de briga e de estimação, o Vermelhinho; a luta contra um lobisomem. Seu poderio na região de Campos de Goitacazes decai com o tempo, à medida que perde seus bens. A paixão por Esmeraldina, mulher casada, nada lhe rende concretamente. Termina enlouquecendo. Essas singulares memórias de um homem que já estaria louco revelam, no conjunto e no saldo negativo dessas aventuras, a inadequação do protagonista - um homem ligado a um mundo rural, autoritário e patriarcal - ao circuito urbano e a um tempo de nova política e novos costumes.
Os méritos de O Coronel e o Lobisomem se devem às construções lingüísticas que o escritor, calculadamente, empregou. Há não apenas deliciosas inserções do folclore brasileiro na trama, mas também o uso de termos e expressões regionais em perfeita harmonia com a narrativa. É curioso notar como já se aproximou este romance de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Em ambas as obras, há um esforço contínuo e bem elaborado de conciliação entre a linguagem do narrador e o universo que ele descreve. A primeira pessoa impregna-se na narrativa. As lembranças dos bordéis freqüentados por Ponciano, as conversas com subalternos, o uso de palavras construídas por prefixos e sufixos inesperados, tudo remete à linguagem falada popular e regional: "Andei vai-não-vai para soltar o ferrão da língua nos costados deles todos, cambada de mariquinhas, magote de assombrados. (...) fui levar (...) os espavoridos de volta ao robalo. E mais: como sou sujeito humanal, levantei o ânimo decaído dele.
José Cândido de Carvalho nasceu em 1914 em Campos, Rio de Janeiro, e faleceu em 1989, em Niterói. Filho de portugueses que se estabeleceram em Campos de Goitacazes e formado em direito, trabalhou como jornalista em várias publicações. É também autor de Olha para o Céu, Frederico! e Ninguém Mata o Arco-Íris (perfis jornalísticos). Deixou inacabado o romance O Rei Baltazar.
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