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LITERATURA

Crônica da Casa Assassinada

Decadência de família rural de Minas Gerais é mote para Lúcio Cardoso descrever um clima de pesadelo por meio da mente atormentada dos personagens


Bravo

01/08/2008 18:34

Texto
Daniel Schneider e Thiago Minani

Foto: Braz Bezerra
Lucio Cardoso

Descobreto pelo poeta poeta Augusto Frederico Schmidt, Lucio Cardoso publicou mais de uma dezena de trabalhos

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Obra máxima de Lúcio Cardoso, um dos mais densos e originais ficcionistas da prosa brasileira surgidos nos anos de 1930, Crônica da Casa Assassinada (1959) é um livro de extrema complexidade, composto de um entrelaçamento de perspectivas e de recursos narrativos como trechos de diários, anotações, confissões, flash-backs, além de modos de expressão que se aproximam da mais pura poesia. Na verdade, todos esses meios são empregados para que o autor possa atingir seu objetivo principal: revelar o estado de alma angustiado de seus personagens e retratar o clima de pesadelo que permeia a história.

O enredo, porém, é simples. Trata da decadência dos Menezes, uma família de fazendeiros das Minas Gerais. Movidos por fortes sentimentos de inveja, incesto, desamor e ambição, os Menezes devoram-se uns aos outros até a mais completa desintegração financeira e moral. O fulcro da ação se dá no relacionamento amoroso entre Nina, mulher de um dos irmãos proprietários da fazenda, e o suposto filho deles, André. “Entre as várias implicações que a ligação André-Nina pode ter com o tema central do romance (a descoberta de Deus no Mal)", afirma a crítica literária Nelly Novaes Coelho, “parece-nos que a mais importante é [...] a dupla ânsia de sobreviver e de vencer as forças que se opunham à total expansão do ser."

O que interessa ao autor não é contar uma história nos moldes tradicionais, mas mergulhar na febre dos sentimentos conflituosos dos atores do drama, que faz par com a atmosfera de morbidez e de trevas que ronda a propriedade rural e o declínio da família. Essa preferência por explorar os fatores psicológicos e existenciais dos personagens, em cuja descrição se revelam traços de delírio, de terror, de anormalidade, já fazia parte dos romances anteriores de Lúcio Cardoso, como A Luz no Subsolo (1936), A Professora Hilda (1946) e O Enfeitiçado (1954). É o próprio romancista quem revela essa sua opção estética em nota ao A Professora Hilda: “O que neles [nos personagens] me interessa, o que quis mostrar nos seus destinos atormentados foi a força selvagem com que foram arrastados para longe da vida comum, sem apoio na esperança, sem fé numa outra vida, cegos e obstinados contra a presença do Mistério".

Nascido em Curvelo, Minas Gerais, em 1913, Joaquim Lúcio Cardoso Filho logo se transferiu para Belo Horizonte, onde completou sua formação escolar, e, depois, para o Rio de Janeiro. Foi na capital fluminense que, recebendo as influências do ambiente intelectual que freqüentava e de inúmeras leituras, iniciou suas experiências literárias. Antes dos 20 anos, já tinha guardadas centenas de páginas de prosa e de poesia. Foi descoberto pelo poeta Augusto Frederico Schmidt (1906-1965), que em 1934 editou seu primeiro livro, Maleita, obra ainda presa à estética regionalista que fazia sucesso na época. Publicou mais de uma dezena de romances, além de escrever poesia, peças de teatro e roteiro de cinema. Crônica da Casa Assassinada virou filme de Paulo César Saraceni, em 1967. Lúcio Cardoso morreu no Rio, em 1968.

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