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LITERATURA

O Encontro Marcado

O livro de Fernando Sabino sobre trajetória de um jovem surpreendeu a crítica na época por sua aderência ao real e por retratar as desilusões de uma geração em crise


Bravo

01/08/2008 19:41

Texto
Daniel Schneider e Thiago Minani

Foto: Ricardo Chaves
Foto: Mestre das crônicas, Fernando Sabino esteve ligado a grandes escritores desde sua juventude

Mestre das crônicas, Fernando Sabino esteve ligado a grandes escritores desde sua juventude

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Segundo o escritor Tristão de Athayde, O Encontro Marcado (1956), de Fernando Sabino, constituiria o “drama de uma geração”. Embora a afirmação esteja correta, é preciso explicá-la melhor: o romance se afirma como sinal de uma época, mas de uma época plasmada pelos olhos de um único personagem, o do escritor Eduardo Marciano. Há dezenas de outras figuras na história, entre amigos, namoradas, a esposa, mas todos servem para esclarecer a trajetória do protagonista. Como bem disse o crítico Wilson Martins: “Os demais personagens do romance, mesmo os que se criou com maior felicidade, se confundem numa espécie de segundo plano brumoso e vago. Eles não têm fisionomia: são corpos fluidos, flutuando na neblina (...) O drama de Eduardo não é o de viver um destino comum com sua geração, mas o de viver uma solidão que o separa irremediavelmente dos homens”.

A época de Eduardo Marciano, sua biografia enfim, confunde-se bastante com a do autor, a ponto de muitos acreditarem que se trata de um romance semi-autobiográfico. Nas confusões do grupo escolar em Belo Horizonte; nos papos posteriores com os amigos, em que a boemia se mistura a discussões literárias; na busca por um emprego por meio do qual pudesse se sustentar para levar adiante a vocação para a escrita; no matrimônio em crise — em cada um desses momentos, pode-se imaginar se Sabino não estava descrevendo situações pelas quais passou. Na verdade são situações pelas quais o autor poderia ter passado, tal o nível de aderência ao real que caracteriza o texto.

Encontro Marcado mostra, principalmente, a angústia de um jovem em desesperada procura de si mesmo e da verdadeira razão de sua vida. Nesse sentido, é, sim, o drama de uma geração; uma geração dilacerada entre os altos anseios e o muro de uma realidade turva, que teima em quebrar-lhe as expectativas. “De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar”, diz o narrador sobre Eduardo. A geração de Sabino bebeu em Jean-Paul Sartre e em Albert Camus, e o existencialismo dos dois filósofos franceses foi seu néctar amargo. Por isso, é precisa a definição do também escritor mineiro Lúcio Cardoso ao dizer que o livro é “a violenta história de uma náusea”, referindo ao título de um romance de Sartre.

Nascido em 1923 em Belo Horizonte, Sabino uniu-se na juventude a Hélio Pelegrino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos em intensa convivência que perduraria a vida inteira. Chamou a atenção dos críticos com a novela A Marca, de 1944, ano em que se casou com Helena Valadares, filha do então governador de Minas. No Rio de Janeiro, para onde se mudou, se liga à roda de escritores, da qual faziam parte Aníbal Machado e Carlos Drummond de Andrade.

Sabino foi um mestre também nas narrativas curtas e nas crônicas, publicando nesses gêneros O Homem Nu, A Mulher do Vizinho, A Inglesa Deslumbrada e Deixa o Alfredo Falar!. Em 1979 lançou seu segundo romance, O Grande Mentecapto, retomando uma história iniciada 33 anos antes. Morreu em outubro de 2004, no Rio de Janeiro. Encontro Marcado, seu maior êxito, hoje se encontra na 67ª edição. 


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