Livro dos mais conhecidos de nossa literatura, A Escrava Isaura (1875) é considerado o melhor romance do mineiro de Ouro Preto, Bernardo Guimarães (1825-1884). A história se tornou um megassucesso, no Brasil e no mundo, depois de ter sido transformada em telenovela em 1976 pela Rede Globo, numa adaptação dirigida por Milton Gonçalves e roteirizada por Gilberto Braga. Literariamente, trata-se de obra de molde regionalista, pois abrange a zona rural de Minas Gerais e de Goiás; e romântica, pois aborda a questão abolicionista de maneira sentimental, com um olho mais no bom-tom do que na crítica, numa época em que escritos sobre o tema praticamente não existiam.
Vilão, herói, heroína, amor à primeira vista. Os motivos românticos que formam o cerne da narrativa não constituem novidade, mas são tratados com bastante destreza por Guimarães. A obra fez imenso sucesso junto ao público feminino da época, que vivia numa sociedade em que mulheres somente saíam às ruas acompanhadas e em dias preestabelecidos. Não se trata exatamente, no entanto, de uma história de amor, mas dos sofrimentos do amor, que se deixam perceber pelos conflitos da escrava, que não tem o direito de amar, e os do homem casado, que não pode trair a esposa. O tratamento dos personagens é superficial: planos, estáticos, eles mantêm os mesmos defeitos e virtudes durante toda a narrativa.
A linguagem de Bernardo Guimarães é influenciada pelos padrões românticos. O vocabulário é rico e vasto, compreendendo palavras não só do acervo do romantismo como as de caráter regional. O coloquialismo e a oralidade típica dos “causos” são maiores nos trechos que reproduzem a fala dos escravos. Sobre a crítica ao preconceito e aos “abomináveis e hediondos” crimes da escravidão, convém não exagerar. Toda a beleza da escrava advém do fato de seus traços serem europeus: "A tez é como o marfim do teclado, alva que não deslumbra, embaçada por uma nuança delicada, que não sabereis dizer se é leve palidez ou cor-de-rosa desmaiada". Fisicamente, ela nada fica a dever às damas da corte.
Bernardo Joaquim da Silva Guimarães estudou em seminário e entrou para a faculdade de direito de São Paulo aos 22 anos, tendo concluído o curso em 1952. Em conjunto com Álvares de Azevedo, Aureliano Lessa e outros, entregou-se à boêmia na mocidade. Foi juiz, jornalista e poeta. Depois, foi nomeado professor de retórica e poética no Liceu Mineiro pelo governo da então província de Minas Gerais. Constança, uma de suas filhas, falecida aos 17 anos, imortalizou-se na literatura como a musa de Alphonsus de Guimaraens, a que "morreu fulgente e fria".
A estréia literária de Bernardo Guimarães se deu com uma coleção de poemas: Cantos da Solidão, publicada em 1852, em que predomina o lirismo. Tendo passado quase toda a sua vida no planalto central, Bernardo Guimarães teve amplo contato com o sertanejo, fonte de inspiração para vários de seus romances, como O Ermitão de Muquém (1869) e O Garimpeiro (1872). Outra obra sua de grande êxito foi O Seminarista, de 1872.
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