Eu quero a estrela da manhã.
Onde está a estrela da manhã?
Meus amigos meus inimigos
Procurem a estrela da manhã.
Com esses versos do poema Estrela da Manhã (1936), o recifense Manuel Bandeira abre seu livro homônimo, que lançou quando tinha já 50 anos. A tiragem inicial foi de apenas 47 exemplares previamente encomendados (o papel não foi suficiente para os 50 anunciados no livro).
Ao contrário de Libertinagem (1930), em que o sopro de um primeiro momento do Modernismo ainda era forte, Bandeira retoma aqui, sem perda das conquistas daquela fase nem prejuízo para o coloquialismo lírico que o consagrou, algumas formas tradicionais da poesia, como o rondó, a balada e a cantiga. Mesmo nesses casos, porém, o emprego dos padrões antigos carrega um elemento de subversão, seja no tema, seja na forma. É o que ocorre, por exemplo, em O Rondó dos Cavalinhos, onde a temática e a linguagem popular entram em franco confronto com a afetação elegante de uma composição de inspiração francesa, como é o caso do gênero rondó.
Há no livro muitos poemas hoje consagrados, como Canção das Duas Índias, Poema do Beco (“Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?/ O que eu vejo é o beco."), Balada das Três Mulheres do Sabonete Araxá, Momento num Café, Trem de Ferro (“Café com pão/ Café com pão/ Café com pão// Virge Maria que foi isso maquinista?") e Tragédia Brasileira. Neste último, como em O Desmemoriado de Vigário Geral, Bandeira, como havia feito em Poema Tirado de uma Notícia de Jornal (de Libertinagem), volta a pôr em xeque os limites da poesia com versos que utilizam recursos da narração (tempo no passado, enumeração, prosaísmo): “Misael, funcionário da Fazenda, com 63 anos de idade,/ Conheceu Maria Elvira na Lapa —prostituída, com sífilis, dermite nos dedos, uma aliança empenhada e os dentes em petição de miséria".)
Evidenciam-se, novamente, do ponto de vista formal, o extremo apuro com o ritmo, quer nas linhas fluidas, quer nas notas dissonantes; e o uso da técnica moderna da colagem. Balada das Três Mulheres do Sabonete Araxá, por exemplo, compõe-se de uma costura de versos de outros poemas; versos que, à força da repetição, acabaram na condição de frase feita). Na temática, percebem-se o lirismo de fundamento erótico e memorialístico e a dualidade entre esse apego ao amor carnal e a religiosidade, que, como salientou o crítico Affonso Romano de Sant’Anna, é um dos tópicos mais dramáticos de nossa cultura. Em todos os poemas, o leitor se depara com a grande lição do autor, que, segundo resumiu o tradutor e ensaísta Ivan Junqueira, é “dizer tudo com um mínimo ou quase nada, o que surpreende no caso de alguém que foi, como ele [Bandeira], o poeta poeticamente mais culto e senhor de seus recursos de toda a literatura".
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