A prosa urbana moderna. Esse é o lugar literário da obra do escritor Marques Rebelo, que, deste modo, se insere na linha de Manuel Antônio de Almeida, de Machado de Assis e de Lima Barreto. Como seus predecessores, Rebelo aprendeu as armas do distanciamento e da ironia, que usa nos melhores momentos de sua ficção. O crítico Alfredo Bosi o classifica como um neo-realista que, contudo, não perde sua veia lírica, empregada comedidamente. Seu mundo é o de gente simples, mocinhas aventureiras, pequenos funcionários, caixeiros-viajantes, donas-de-casa, estudantes, malandros, marinheiros, boêmios, sambistas, cujos pequenos dramas são focados numa prosa “tensa e lírica", cuja naturalidade resulta de sutil estilização dos valores da linguagem coloquial, sobretudo nos diálogos.
Publicado em 1939, A Estrela Sobe se passa em grande parte “no pequeno mundo das estações de rádio", contando as peripécias e sofrimentos de Leniza Maier, moça suburbana que, no Rio de Janeiro da década de 1930, sonha com o sucesso como cantora. Sua jornada rumo ao estrelato é marcada por percalços e dilemas morais: quer cortar os laços com todos os que possam atrapalhar sua ascensão, mas a nostalgia pela vida pregressa a domina. No fim, engravida e aborta, chegando à beira do delírio e da morte. Salva-se, mas sua crise está longe de terminar. Antes de dar um fecho convencional à história, porém, o autor prefere deixá-la em aberto. Diz o narrador: “... aqui termino a história de Leniza. Não a abandonei, mas, como romancista perdi-a".
Para o escritor Mário de Andrade, o final inacabado confirma a modernidade do romance, pois privilegia mais o fluir da vida do que a elaboração de um entrecho bem-acabado, atrevendo-se até a apor um final arbitrário. Conforme explica o professor Ariovaldo José Vidal, o fator decisivo para a vitalidade da obra é a capacidade de representar as tensões do quadro social, sem que o romancista ceda a dogmatismos ideológicos. Leniza “não se arrepende ou se converte, salvando o romance de um possível esquematismo tardiamente romântico."
Marques Rebelo é pseudônimo de Eddy Dias da Cruz. Nascido no Rio de Janeiro em 1907, fez os estudos primários em Barbacena, Minas Gerais, para onde sua família se transferiu, em 1911. Em 1926, publicou algumas poesias na revista Verde, lançada por amigos em Cataguases. Colaborou, depois, na Antropofagia e em Leite Crioulo. Nessa época conheceu e tornou-se amigo de Mário de Andrade e de Alcântara Machado. Sua estréia como escritor aconteceu em 1931, com a publicação de Oscarina. Nos anos seguintes, lançou A Estrela Sobe e o livro de contos Estela Me Abriu a Porta (1942). Em 1959, saiu o primeiro tomo de seu extenso “diário-narração" cujo título geral é O Espelho Partido. Em fins de 1964, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, tomando posse no ano seguinte. Morreu em sua cidade natal em 1973.
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