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LITERATURA

O Ex-Mágico

Livro de estréia do contista Murilo Rubião investe na literatura fantástica para descrever as precariedades do cotidiano


11/07/2011 19:15
Texto Daniel Schneider e Thiago Minani
Bravo
Foto: murilorubiao.com.br
Foto: Apesar de coloquial, a prosa de Rubião narra cenas fantásticas
Apesar de coloquial, a prosa de Rubião narra cenas fantásticas

Jornalista e escritor mineiro que somente se tornou reconhecido após a publicação de O Pirotécnico Zacarias em 1974, Murilo Rubião (1916-1991) é o primeiro contista moderno na incipiente literatura fantástica brasileira. Escreveu apenas alguns contos, a maioria redigida na busca obsessiva pela clareza característica ao seu estilo.

Seu primeiro e melhor livro, O Ex-Mágico (1947), foi recebido pela crítica com pouco interesse. O crítico Álvaro Lins reconheceu nele algumas qualidades, mas sem se entusiasmar. Mário de Andrade fez o mesmo, mas de maneira mais desconfiada. O livro (hoje em catálogo como Contos de Murilo Rubião) é um coletânea de 15 textos cujo título original é tirado de seu texto mais conhecido — O Ex-Mágico da Taberna Minhota. A história é de um mágico que está desencantado com o mundo. Ele é capaz de tirar animais do bolso e reconstituir as próprias mãos depois de cortá-las fora. Causa espanto e admiração no público, mas ainda assim não se surpreende com seus feitos e se sente entediado com a própria profissão. Tenta se suicidar, mas não consegue. Então passa a trabalhar como funcionário público, o que seria para ele uma espécie de morte lenta. Ele não morre, mas perde os poderes mágicos diante de toda a burocracia.

Evidentemente pontuada por críticas à sociedade, a narrativa utiliza o fantástico para atacar as precariedades do cotidiano, sem fantasias. Os elementos mágicos são tratados com naturalidade e não chegam a causar propriamente estranhamento no leitor — exceto pela excentricidade de alguns casos. “E, por mais absurdas que sejam as novas relações estabelecidas entre as coisas e o homem, a verdade é que elas não são mais absurdas do que as condições de vida normal, controlada pela razão: eis a lição amarga que se tira de sua sátira, tão poética e tão rica de invenção”, escreveu Carlos Drummond de Andrade ao autor. Para os críticos, há nisso uma grande semelhança com o universo de Franz Kafka — autor que Rubião desconhecia na época em que escreveu O Ex-Mágico. O humor irônico e gélido do escritor, que lembraria a literatura machadiana, recai sobre o tédio e a inércia do mundo, que segue inalterado mesmo diante dos feitos mágicos. Para o crítico Jorge Schwartz, “a solidão toma conta dos personagens, que se caracterizam por uma perpétua procura e um contínuo desencontro”. Entre os recursos sobrenaturais mais comuns estão a inversão da causalidade espaço-temporal, a tendência ao infinito, a metamorfose e o zoomorfismo e a contaminação homem-objeto.

A linguagem clara, direta e coloquial contrasta com os enredos fantásticos. Mas, ao mesmo tempo, parece condizente com a origem na anedota mineira que está no coração de vários contos. A presença de Minas Gerais é constante, mas nunca explícita ou exaltada. Está emaranhada em um visão moderna que descreve os pequenos centros urbanos, os palcos das histórias — espaços cinzentos, decaídos e arruinados. Murilo Rubião é também autor de, entre outros, O Convidado (1974) e A Casa do Girassol Vermelho (1978).



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