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LITERATURA

Febeapá

Stanislaw Ponte Preta driblou a censura da ditadura militar usando o pseudônimo que o consagraria nos três volumes sobre o "Festival de Besteiras" do país


11/07/2011 16:17
Texto Daniel Schneider e Thiago Minani
Bravo
Foto: Divulgação
Foto: Sérgio Porto morreu no mesmo ano em que consolidou sua trilogia
Capa do livro "A Revista do Lalau", que reúne textos assinados pelo cronista Sérgio Porto e por sua criação Stanislaw Ponte Preta

Nascido no Rio de Janeiro em 1923, o humorista e cronista Sérgio Porto, que também trabalhou em rádio e para o cinema, realizou na imprensa carioca uma obra crítica de espírito eminentemente popular. O codinome Stanislaw Ponte Preta, criado em 1951, foi inspirado por Serafim Ponte Grande, personagem de Oswald de Andrade. O humor de Stanislaw ficou celebrizado nos tipos que criou (Tia Zulmira, Primo Altamirando, Bonifácio Patriota, Dr. Data Vênia e outros) e nas criações vocabulares ou de lugares-comuns que lançou e se incorporaram ao patrimônio coloquial brasileiro.

É autor de uma obra carioquíssima, até hoje insuperável, transpondo para jornais, livros e revistas o saboroso coloquial da cidade. Segundo o escritor Mário da Silva Brito, Stanislaw, mais "heterônimo" do que pseudônimo de Sérgio Porto, "era a encarnação do riso popular e da crítica alegre e festiva, maliciosa e amena, mas nem por isso menos contundente, de nossas posturas individuais e coletivas".

Foi com Febeapá — Festival de Besteiras que Assola o País (1966), volume dedicado aos abusos cometidos no país sob inspiração da ideologia da Redentora, apelido do golpe militar de 1964, que ele alcançou seu grande sucesso. O autor afirmava ser difícil precisar o dia em que as besteiras começaram a assolar o Brasil, mas disse ter notado um alastramento desse fenômeno depois que uma inspetora de ensino do interior de São Paulo, ao saber que o filho tirara zero numa prova de matemática (embora sabendo que o menino tratava-se de um debilóide), não vacilara em apontar o professor às autoridades como perigoso agente comunista. Outro exemplo, pela pena do autor: "Quando se desenhou a perspectiva de uma seca no interior cearense, as autoridades dirigiram uma circular aos prefeitos, solicitando informações sobre a situação local depois da passagem do equinócio. Um prefeito enviou a seguinte resposta à circular: 'Doutor Equinócio ainda não passou por aqui. Se chegar será recebido como amigo, com foguetes, passeata e festas’". Era mestre das comparações enfáticas, como "mais inchada do que cabeça de botafoguense", "mais feia do que mudança de pobre".

Devido ao enorme sucesso alcançado pelo livro, Stanislaw lançou em 1967 um segundo volume, o que, de acordo com a professora Maria Célia Rua de Almeida Paulillo, "atesta a perseverança de tão nefasto festival em nosso país".

Ainda conforme Maria Célia, Stanislaw parece escrever seus textos não para o leitor interessado em literatura, mas para aquele que compra o jornal para acompanhar o noticiário ou consultar as ofertas de emprego e que, casualmente, topa com a crônica, que lê de modo rápido e desatento. Por isso, ao analisarmos os escritos do autor, percebemos que "seus procedimentos são verdadeiros 'ganchos' capazes de sensibilizar o mais distraído ou desinteressado leitor de crônicas".

Em 1968, lançou seu último livro, Na Terra do Crioulo Doido — A Máquina de Fazer Doido (Febeapá nº 3). A série Febeapá se transforma em "trilogia". No mesmo ano, morreu no Rio de Janeiro.




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