Ficções, do escritor argentino Jorge Luis Borges (1889-1986), foi editado em 1944 a partir de alguns dos melhores textos do maior contista latino-americano. Num jogo entre ordem e acaso, entre a lógica combinatória e o simbolismo mágico, Borges mescla duas coleções distintas, O Jardim dos Caminhos que Se Bifurcam (1941) e Artifícios (1944), alcançando uma obra, para usar um termo que a consagrou, "fantástica".
Borges era um escritor especular, que refletia nas palavras o que sentia com a alma. "Na realidade não tenho a certeza de que exista. Sou todos os autores que li, toda a gente que conheci, todas as mulheres que amei, todas as cidades que visitei, todos os meus antepassados", disse ele sobre si mesmo. Já o chamaram de "poeta mecânico", pela grande quantidade de versos que escreveu ao longo de sua carreira - ele mesmo não retrucou a acusação quando, numa entrevista, se viu como uma "máquina de fazer versos que nos diz para não pensar, esgotando as possíveis combinações das palavras até ao momento em que tais palavras dariam algumas ideias".
O escritor argentino estudou a teoria das possibilidades, aplicando a lógica matemática aos hologramas da história, da linguística, da teologia e do esoterismo mitológico dos povos. O resultado foram histórias "mágicas", que têm vida própria e marcam a história da literatura. Em Pierre Ménard, Autor do Quixote, um escritor imaginado por Borges escreve uma obra inteira absolutamente igual ao Quixote de Cervantes, mas plenamente distinta porque Ménard reproduziu interiormente todo o processo psicológico que levou à sua fabricação. Existem espelhos disseminados nas salas hexagonais de A Biblioteca de Babel, conto central no universo do autor, que "fielmente duplicam as aparências".
O mais conhecido de seus contos, talvez, e o que catapultou a carreira de Borges (ainda que não lhe tenha rendido o Prêmio Nobel), A Biblioteca de Babel traduz tudo o que já foi dito sobre o autor, inclusive sua busca pela apropriação do "tudo", do eterno. O conto foi escrito por um Deus insano e tem a forma de uma torre forrada do lado de dentro por infinitas estantes, em infinitos andares com todos os livros passíveis de existir. Nenhum livro é igual ao outro, alguns são diferentes por uma vírgula. Tudo o que foi dito, feito ou pensado está ali - "suas estantes registram todas as possíveis combinações dos vinte e cinco símbolos ortográficos, ou seja, tudo o que nos é dado exprimir: em todos os idiomas. Tudo: a história minuciosa do futuro, as autobiografias dos arcanjos, o catálogo fiel da biblioteca, milhares e milhares de catálogos falsos, a demonstração da falácia desses catálogos, a demonstração da falácia do catálogo verdadeiro..." e mesmo "um livro que seja a chave e o resumo perfeito de todos os outros".
Para Jorge Luis Borges, esse "tudo" era o Aleph, nome cabalístico que dá título a outra obra reconhecida e homônima, publicada em 1949. Mas o Aleph de Borges pode ser encontrado em todo lugar, até mesmo em um livro de sua biblioteca - com certeza, diluído em cada página de suas Ficções.
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