"Falo: português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo; leio: sueco, holandês, latim e grego (mas com o dicionário agarrado); entendo alguns dialetos alemães; estudei a gramática: do húngaro, do árabe, do sânscrito, do lituânio, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês, do tcheco, do finlandês, do dinamarquês; bisbilhotei um pouco a respeito de outras. Mas tudo mal. E acho que estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais profunda do idioma nacional. Principalmente, porém, estudando-se por divertimento, gosto e distração."
Não é preciso mais nada, além dessas palavras do próprio João Guimarães Rosa, ditas numa entrevista a uma prima, para entender a causa da exuberância lingüística que transborda em seus escritos, especialmente sua obra-prima: Grande Sertão: Veredas. O romance, publicado em 1956, está repleto de neologismos, arcaísmos recuperados, linguagem coloquial e regionalismo retrabalhado. Trata-se de uma verdadeira revolução na arte de contar "estória" (como Rosa gostava de grafar), que lhe rendeu inúmeros prêmios e lugar como um dos cem livros mais importantes de todos os tempos, de acordo com o prestigiado Círculo do Livro da Noruega.
Guimarães Rosa nasceu na cidade de Cordisburgo, Minas Gerais, em 27 de junho de 1908. Médico e diplomata, o escritor morou em Belo Horizonte, Itaguara (cidadezinha mineira onde exerceu a medicina), e também em Hamburgo, na Alemanha, além de Paris, Bogotá e Rio de Janeiro, onde faleceu em 1967, aos 59 anos, três dias após assumir sua cadeira na Academia Brasileira de Letras.
Grande Sertão: Veredas é uma narração em primeira pessoa das aventuras de Riobaldo pelo sertão mineiro. O protagonista conta sua vida a um "senhor", cuja identidade permanece oculta. O livro é um bloco de texto inteiriço, sem qualquer divisão de capítulos. Se a leitura de início pode parecer custosa, aos poucos a jornada pelo sertão transforma-se numa aventura prazerosa, recheada de descrições dotadas de grande vitalidade. Riobaldo anseia por negar a existência do demônio, com quem fez um pacto para derrotar o jagunço do bando rival, Hermógenes. Narradas num português como que novo, pois reinventado, suas aventuras atingem um clímax na relação ambígua com Diadorim ("Diadorim é minha neblina", diz ele). Travestido de jagunço, o companheiro de Riobaldo é, na verdade, uma mulher valente e impiedosa. Nesse universo quase mítico, a dimensão única, poética e alquímica da linguagem, que desintegra as fronteiras entre narrativa e lírica, é um convite irrecusável à viagem pelas palavras.
Roteiro do escritor pelas gerais
Guimarães Rosa iniciou, em 1952, ao lado de Manuel Nardy, vulgo Manuelzão, uma viagem a cavalo pelo sertão mineiro. Partindo da fazenda Sirga, em Três Marias, seguiu até Araçaí, próximo à cidade de Cordisburgo, onde nasceu. A fazenda pertencia a Chico Moreira, primo do escritor e também dono da boiada de 800 reses que Rosa e a comitiva de 18 pessoas transportaram num percurso de 40 léguas (cerca de 260 km) de cerrado, que durou dez dias. Foi Manuelzão, então capataz de Moreira e mais tarde transformado em personagem de Rosa (ele aparece na novela Uma Estória de Amor, de Corpo de Baile, de 1956), quem traçou o trajeto. Passaram pelas fazendas ou povoados de Tolda, Andrequicé, Santa Catarina, Catatau, Riacho das Vacas, Meleiro, Etelvina, Juvena e Taboquinhas. De acordo com Manuelzão, durante a viagem, com um lápis pendurado no pescoço, Rosa perguntava e anotava de tudo, tendo consumido "mais de 50 cadernos de espiral, daqueles grandes", com anotações sobre cultura, lingüística, comportamento, crenças, superstições, canções, versos, provérbios, causos, paisagens, flora, fauna — de uma diversidade tão grande de informação quanto a que transpôs para Grande Sertão.
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