José de Alencar publicou O Guarani inicialmente em forma de folhetim no ano de 1857, durante três meses. Cada capítulo da história era esperado ansiosamente pelos leitores, que disputavam as páginas do jornal para acompanhar essa saga e as liam nas ruas do Rio de Janeiro. Nascido em 1829, em Mecejana, no Ceará, Alencar conquistava definitivamente o gosto popular com uma das obras mais significativas do Romantismo brasileiro.
O romance se passa no Rio, em 1604. O amor entre o índio guarani Peri o bom selvagem do filósofo iluminista francês Jean-Jacques Rousseau, nobre e puro e a moça branca Ceci serve ao autor para traçar um painel da formação do povo brasileiro. Ceci, filha do fidalgo português dom Antônio de Mariz, tinha sido prometida pelo pai a um nobre compatriota, dom Álvaro. Este a disputa com o aventureiro italiano Loredano. Depois que uma índia aimoré é morta por engano pelos portugueses, inicia-se uma guerra da tribo contra a família de Ceci. Paralelamente, uma conspiração de Loredano contra dom Antônio é tramada. Peri, que intervém sempre a favor da família portuguesa e confessa seu amor a Ceci, não tem como impedir nas cenas finais a explosão do solar onde ela mora. Recebe do pai desta o pedido para que fujam e a bênção para que se casem. Já tendo enfrentado toda sorte de perigos e diante da inundação do rio Paraíba causada por uma tempestade, o casal escapa da morte graças ao ato maior de Peri: ele arranca sozinho uma palmeira e a usa como barco para fugir com Ceci. O romance termina sugestivamente: Ela embebeu os olhos nos olhos de seu amigo, e lânguida reclinou a loura fronte. O hálito ardente de Peri bafejou-lhe a face. Fez-se no semblante da virgem um ninho de castos rubores e límpidos sorrisos: os lábios abriram como as asas purpúreas de um beijo soltando o vôo. A palmeira arrastada pela torrente impetuosa fugia... E sumiu-se no horizonte. As duas raças entram em comunhão para dar origem à nação brasileira.
O Guarani, transformado em ópera pelo compositor Carlos Gomes, pertence à chamada vertente indianista de Alencar. Escritor de larga produção, estreou aos 27 anos com Cinco Minutos (1856), publicado como folhetim no Correio Mercantil. Escreveu romances que se seriam classificados ainda como urbanos, históricos e regionalistas. O autor seguiu um ambicioso projeto nacionalista, que reproduzia as linhas do Romantismo europeu adaptadas para o Brasil. Se em Iracema (1865) e O Ubirajara (1874) os índios eram protagonistas, em O Gaúcho (1870) e O Sertanejo (1875) outros personagens entraram para a sua galeria. A Guerra dos Mascates (1873) é um exemplo do uso da história brasileira como pano de fundo para um drama. Segundo a crítica, o melhor de Alencar estaria nas obras urbanas, como Lucíola (1862) e Senhora (1875). Para alguns, esta vertente teria possibilitado que Machado de Assis surgisse aprofundasse a análise da sociedade brasileira.
José de Alencar faleceu no Rio, em 1877, vítima de tuberculose. Dedicou-se à carreira política e chegou a ser ministro da Justiça. Foi também dramaturgo e colaborou largamente na imprensa como ensaísta político de idéias conservadoras.
Leia mais:
- LUCÍOLA
- AS 100 OBRAS ESSENCIAIS NA LITERATURA BRASILEIRA

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