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LITERATURA

I-Juca Pirama

Em um pequeno poema sobre o amor filial de um índio tupi, Gonçalves Dias inova no tema e surpreende com a forma


Bravo

01/08/2008 16:44

Texto
Daniel Schneider e Thiago Minani

Foto: Divulgação
indio Tupi

Com ritmos variados e versos românticos, Gonçalves Dias retrata a realidade de um índio Tupi

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Coube ao maranhense Gonçalves Dias (1823-1864), o nome maior da primeira geração de poetas românticos, traduzir em versos o projeto de recuperação - e afirmação - do passado brasileiro por meio do indianismo. Tratava-se de louvar os primeiros habitantes destas terras, as raízes do país. Na sua vasta produção sobre o tema, o poema I-Juca Pirama (contido originalmente no livro Últimos Cantos) se destaca por várias razões. Primeiramente porque, à diferença do que era comum, não retrata o índio como figura inabalável, heróica e nunca hesitante.

Gonçalves Dias fugiu desse esquematismo ao narrar a história de um índio da tribo tupi que amparava o pai, velho e cego. Certa vez, quando caçava, foi capturado pelos timbiras. No momento em que seria morto, chora e pede ao chefe inimigo que o liberte para que possa cuidar do pai. Quando este morresse, ele voltaria para completar o ritual de sacrifício. O líder então o solta, mas antes por julgá-lo covarde e não querer manchar a história da própria tribo. O jovem reencontra o pai, e este percebe que o filho foi aprisionado. Mais tarde, descobre que ele chorou. Eis um trecho da parte mais conhecida e comovente do poema: 'Tu choraste em presença da morte?/ Na presença de estranhos choraste?/ Não descende o cobarde do forte;/ Pois choraste, meu filho não és!”. Ao filho, coube provar ao pai sua bravura indo lutar contra os guerreiros timbiras, que também finalmente lhe reconhecem a coragem e o sacrificam. O caso é contado por um velho timbira a crianças da tribo, a quem afirma dizer a verdade: 'Meninos, eu vi”.

Outro ponto alto de I-Juca Pirama (que, segundo Dias, significa 'o que há de ser morto, e que é digno de ser morto”) está na própria forma. Os ritmos variados, a metrificação, o uso do diálogo dão ainda mais força dramática a este pequeno poema de dez partes. A maestria do autor em lidar com o ritmo fica evidente aqui. Entre outros de inspiração indianista, destacam-se Marabá, Canto do Tamoio, Canto do Guerreiro ou na epopéia Os Timbiras.

Filho de um português e de uma mestiça, Gonçalves Dias afirmou-se como um descendente das três raças formadoras do povo brasileiro. Estudou em Portugal, onde tomou contato com as correntes românticas do país, cujos expoentes teriam influência decisiva em sua obra — Almeida Garret e Alexandre Herculano. De volta ao Brasil, filiou-se ao grupo de Gonçalves de Magalhães, inaugurador do Romantismo brasileiro. É de Dias também a famosa Canção do Exílio. Incorporada ao imaginário cultural e por diversas vezes parodiada e parafraseada, foi composta enquanto estava na Europa: 'Minha terra tem palmeiras,/ Onde canta o Sabiá;/ As aves, que aqui gorjeiam, /Não gorjeiam como lá. (...) Não permita Deus que eu morra,/ Sem que eu volte para lá;/ Sem que desfrute os primores/ Que não encontro por cá;/ Sem qu’inda aviste as palmeiras,/ Onde canta o Sabiá”.

Entre esse lirismo de imagens pacificadoras e as narrações épicas da sua produção mais vasta, os ideais de natureza e pátria mantêm-se em primeiro plano, consolidando o poeta como um dos românticos mais exemplares. Dedicou-se também ao teatro, produção em que se destaca com o drama Leonor de Mendonça (1847).

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