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LITERATURA

Invenção de Orfeu

Nesta "Biografia Épica", Jorge de Lima desafia definições ao unir lírica e epopéia - e rende alguns dos momentos mais expressivos da literatura em língua portuguesa


11/07/2011 19:36
Texto Daniel Schneider e Thiago Minani
Bravo
Foto: EGBERTO NOGUEIRA
União dos Palmares
União dos Palmares, AL, onde Jorge de Lima nasceu e futuramente influenciaria seus escritos futuros
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Considerado pelo colega Mário Faustino “o maior, o mais alto, o mais vasto, o mais importante, o mais original poeta brasileiro de todos os tempos", Jorge de Lima demostrou toda a sua ambição artística em Invenção de Orfeu (1952), onde, também segundo Faustino, estão “alguns dos mais altos e dos mais baixos momentos da língua poética luso-brasileira".

Invenção de Orfeu é inquestionavelmente obra de grande fôlego na poesia nacional contemporânea. Poema em dez cantos, compostos de metros variados, descreve uma viagem, como a de Dante na Divina Comédia, ao Inferno e ao Paraíso — mas une outras epopéias na sua composição, como Os Lusíadas, de Camões, além de elementos da Bíblia e da sociedade brasileira; tudo alinhavado pela presença de Orfeu, herói mitológico que encantava deuses e mortais com sua lira. Por isso, essa “biografia épica", como explicita o autor no subtítulo, também é definida por alguns por meio de uma contradição: “epopéia lírica" (a epopéia clássica constituindo a descrição de matéria objetiva, enquanto a lírica deriva da subjetividade). Manuel Bandeira, observando que se trata de um poema “de técnicas e faturas extremamente variadas", afirma que “seu sentido profundo ainda não foi devidamente esclarecido pela crítica e talvez não o seja nunca, pois é evidente haver nele grande carga de subconsciente a par de certas vivências puramente verbais. Como quer que seja, é obra poderosa, onde deparamos com fragmentos de alta beleza, que são em si pequenos poemas completos". Um exemplo: “A garupa da vaca era palustre e bela,/ uma penugem havia em seu queixo formoso;/ e na fronte lunada onde ardia uma estrela/ pairava um pensamento em constante repouso".

Jorge Mateus de Lima nasceu em União dos Palmares, Alagoas, em 1895. O pai era negociante e senhor de engenho. O menino passou os primeiros anos entre a casa-grande da fazenda e o sobradinho da cidade natal, paisagem que iria influenciar seus escritos futuros. Depois dos estudos básicos em Maceió, com os irmãos maristas, iniciou em Salvador o curso de medicina, que concluiu no Rio de Janeiro. Além de exercer a profissão de médico, foi professor de literatura e ingressou na política.

Estreou como escritor pela via neoparnasiana, conquistando o título de “príncipe dos poetas de Alagoas". Felizmente, o contato com o Modernismo e com o grupo regionalista do Recife, que contava com luminares como José Lins do Rego e Gilberto Freyre (1900-1987), fez com que ampliasse seu leque formal para ritmos mais variados e tingisse sua lira de preocupações sociais. São dessa época Poemas (1927), Novos Poemas (1929) e Poemas Escolhidos (1932). Abraçando o catolicismo de sua infância, passou a publicar obras religiosamente engajadas, como Tempo e Eternidade (1935, com Murilo Mendes), Túnica Inconsútil (1938) e Anunciação e Encontro de Mira-Celi (1951). O Livro dos Sonetos (1949) marca sua volta à métrica tradicional, mas com uma expressividade que não se encontra em suas primeiras obras. Morreu no Rio, em 1953.



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