Morreu aos 87 anos o escritor português José Saramago. Em sua homenagem, publicamos uma entrevista concedida à Bravo!, em 1999 - a primeira entrevista exclusiva à imprensa brasileira após ter ganhado o prêmio Nobel. Saramago foi o primeiro escritor de língua portuguesa a ganhar o mais importante prêmio de literatura mundial.
Nos dias que antecederam esta entrevista, José Saramago cancelou viagens à Suécia, à Alemanha, à África do Sul, ao Japão. Ele normalmente prefere as negras pedras vulcânicas da ilha de Lanzarote, seu refúgio cercado de azul atlântico no arquipélago das Canárias, mas, por dever profissional e muitas amizades brasileiras, em abril pisou noutras pedras: os paralelepípedos de granito do centro antigo do Rio de Janeiro e as centenárias pedras-ferro do chão de Ouro Preto, onde viu um país antigo em barroco e pedra-sabão.
O Prêmio Nobel lhe trouxe a glória que, com a possível exceção de Fernando Pessoa, nenhum outro autor de língua portuguesa sonhou conseguir. E lhe cobra caro por isso. Aos 76 anos, sólido e elegante, ele está cumprindo o seu ritual particular de fama - diariamente lhe chegam quilos de convites para falar nos cinco continentes sobre temas os mais insólitos e nada romanescos - e vive um dilema, mesmo que não o confesse claramente. O que acontecerá com sua ficção? Qual a sua motivação para continuar escrevendo?
A entrevista a BRAVO! foi a única concedida individualmente a um veículo impresso durante a viagem. Não durou muito, dada a agenda do escritor, mas foi intensa e cordial. Naquela semana, ele falara para 2 mil pessoas em Belo Horizonte, para outras 2.500 em Porto Alegre, participara - ao lado de Chico Buarque, em São Paulo - de uma leitura, para mais de mil ouvintes, de O Evangelho segundo Jesus Cristo, visitara a Bienal do Livro do Rio de Janeiro. "Cristo ressuscitou ao terceiro dia; eu ressuscito à terceira palavra", disse, brincando com sua capacidade de, apesar do cansaço, falar. E falar muito: "Alguém tem de me dizer: 'Cala-te'".
Quando a equipe de BRAVO! chegou à casa de Luiz Schwarcz (Companhia das Letras), seu editor brasileiro, e da historiadora Lilia Moritz Schwarcz, Saramago estava acabando de assistir a Central do Brasil com a mulher, a bonita espanhola Pilar. Não fez comentários sobre o filme de Walter Salles, e não era reprovação: o escritor é de responder só ao que lhe perguntam (já Pilar foi direta: "Maravilhoso"). A primeira impressão era a de que o Nobel lhe teria impingido uma postura política, de chefe de Estado. Engano: ao sentar-se com os jornalistas, na biblioteca da casa, ele mostrou que continua o mesmo homem apaixonado capaz de mudar de vida beirando os 60 anos para escrever Levantado do Chão, seu primeiro romance.
A conversa centrou-se quase exclusivamente na literatura. Ele contou que já pensa no novo livro, A Caverna, uma história que guarda semelhanças com a obra de Platão. Evitou-se o clichê do comunista ferrenho, que ele não é: nunca negou os crimes do stalinismo. Quanto ao ateísmo, igualmente propalado, talvez uma cena explique alguma coisa. Na despedida, um de nós o abraçou dizendo a sério, mas em involuntária provocação: "Vá com Deus, mestre". Saramago respondeu: "Por que não, se Ele lá ainda estiver?". E sorriu.
A seguir, a transcrição da entrevista, com a maneira portuguesa de falar devidamente mantida.
Para ler, clique nos itens abaixo:
- Prêmio Nobel à parte, de que maneira o sr. estabeleceu sua rotina diante de solicitações tão grandes?
- José Saramago: Se se pudesse dizer efetivamente Nobel à parte, então sobraria espaço para fazer aquilo que você me está a perguntar. Mas é que Nobel à parte não existe, porque ele ocupa o espaço todo. E, se eu tiro o Nobel, fico disponível para tudo. Não escrevo, não faço outra coisa senão viajar, assistir a congressos, lançamentos, apresentações, doutoramentos honoris causa. Tudo quanto se pode imaginar que possa acontecer a um prêmio Nobel está a me acontecer. E eu não me queixo.
- Em termos literários o sr. concorda com o também premiado Saul Bellow? Ele tem uma frase: "O Nobel seria o beijo da morte para o escritor"...
- José Saramago: Não sei. Oxalá não seja. Eu espero, dentro de dois meses, o máximo três, disciplinar o meu emprego de tempo, que até agora tem sido completamente reduzido, e sentar-me a trabalhar. Evidentemente, eu não posso dizer que as viagens vão acabar. Se não tinham acabado antes, como é que vão acabar agora? Claro que não. Mas simplesmente não posso, não poderia e não poderia continuar neste ritmo... Então seria mesmo o beijo da morte. Mesmo agora há momentos em que quase me afundo. Porque o cansaço chega a extremos... De fato, eu não sei como é que agüento. Toda gente pergunta: "ah, como é que você agüenta?". E eu agüento. Neste domingo faz 15 dias que cheguei (ao Brasil). São debates, conferências, mesas-redondas, não tenho feito outra coisa. E, às vezes, já nem posso ouvir a mim mesmo. Mas o que eu ia dizer era que, infelizmente, acontece algo estranho, que alguém explicará, não sei se em termos de fisiologia ou psicologia, ou do que quer que seja, e que eu traduzo desta maneira: Cristo ressuscitou ao terceiro dia, e eu ressuscito à terceira palavra. Porque, a partir do momento em que começo a falar, alguém tem de me dizer: "cala-te!". Sou capaz de falar três horas ou quatro horas, com a consciência de que me estou a cansar. E incapaz de me calar, que é uma coisa absolutamente... de aflição.
- A motivação de alguns escritores é a possibilidade de ficar para a posteridade. De outros, é o reconhecimento em vida, do qual Nobel seria o símbolo máximo, digamos assim. Qual a sua motivação para continuar escrevendo hoje?
- José Saramago: Ah, a minha motivação para continuar a escrever, o que espero recomeçar a fazer dentro de dois meses ou três, é igual àquela que era antes. Pensei e continuo a pensar que tenho umas tantas coisas para dizer. E são essas coisas que eu quero dizer, independentemente dos reconhecimentos da posteridade, ou das glórias e, digamos, do dia em que "estou" Nobel ou não. É um bocado arriscado dizer: eu escrevo para a posteridade. Mas quem é que nos garante a nós que a posteridade se interessa, que vai se interessar por aquilo que o escritor fez? Não tem sentido. O Stendhal dizia: "Escrevo para daqui a cem anos". E, realmente, nesse caso acertou. Mas oito anos depois, salvo erro, da publicação de A Cartuxa de Parma, tinham-se vendido 13 exemplares. Então Stendhal não devia estar a pensar que escrevia para o seu tempo... Se o seu tempo, em oito anos, tinha comprado treze exemplares da Cartuxa, então é porque o tempo dele não estava interessado. Nesse caso, parece que a posteridade, essa sim, quis saber o que é que esse sr. chamado Stendhal tinha andado a fazer. Mas o que é a posteridade? São 50 anos depois? Cem? E temos a certeza que 200 anos depois a posteridade ainda continua a interessar-se por aquilo que a posteridade dos cem anos se interessou? E daí a 300? E a 400? E a mil? Quer dizer, se eu pudesse antecipar os gostos, as expectativas, as necessidades dessa posteridade num certo momento disso tudo, então poderia dizer: bom, eu sei o que a posteridade quer e sei que estou a fazer aquilo que ela vai querer. Alguém pode dizer isso?
- O sr. disse que escrevia como se tirasse uma pedra e mostrasse o que há debaixo dela. Mas, depois de O Evangelho segundo Jesus Cristo, está interessado em saber o que há por dentro da pedra. O que é exatamente isto?
- José Saramago: É uma metáfora que há que entender como tal. Não é tanto "debaixo". Isso tem de ser tomado mais como uma imagem do que outra coisa. Mas, no fundo, quer dizer algo mais do que aquilo que à primeira vista parece. O que eu digo é que, até o Evangelho, foi como se eu estivesse, em todos esses livros, estado a descrever uma estátua. Portanto a estátua é a superfície da pedra. Quando olhamos para uma estátua, não estamos a pensar na pedra que está por detrás da superfície. Então é como se eu, a partir de Ensaio sobre a Cegueira, estivesse a fazer um esforço para passar para o lado de dentro da pedra. Isso significa que não é que eu esteja a desconsiderar aquilo que escrevi até o Evangelho, mas é como se eu me apercebesse, a partir do Ensaio, que as minhas preocupações passaram a ser outras. Não penso que estou a escrever livros melhores que antes. Não tem a ver com qualidade, mas com intenção. É como se eu quisesse passar para o lado de dentro da pedra.
- Qual seria a diferença entre essas duas fases?
- José Saramago: Hoje creio que essa diferença é bastante visível. No Ensaio sobre a Cegueira - isso é só pra mostrar como o objetivo passou a ser outro -, por exemplo, ninguém tem nome. E isso não é gratuito, quer dizer que estou pouco interessado com o que há de mais imediato no ser humano. E nesse caso seria a sua identificação: eu sou fulano de tal. Quer dizer, passo para lá disso. E o que eu quero saber, no fundo, é essa coisa tão simples e que não tem resposta: quem somos? Claro que, da mesma maneira que eu estou a falar, digamos, da estátua como superfície de pedra, também posso, em relação a qualquer de vocês, descrever numa página de um romance vossa fisionomia, o rosto, os gestos, a cor dos olhos, tudo isso. Mas não estarei a falar verdadeiramente de vocês. Então, a partir do Ensaio, é como se eu tivesse posto de parte tudo aquilo que é acessório.
- O sr. tirou dos livros mais recentes personagens como os reis, as rainhas, os cruzados, os mouros, Jesus, Deus, o Diabo. Mas, mesmo nos livros anteriores, o sr. sempre tratou do que havia "por dentro da pedra"...
- José Saramago: Sim, é certo. Sempre houve uma preocupação minha, e essa preocupação convivia com outro objetivo. Quer dizer, era o objetivo de contar uma história, de escrever o que tinha acontecido e tudo mais. A história, embora continue a ser necessária, evidentemente, é como se interessasse menos. No caso de Ensaio sobre a Cegueira, tirando essa idéia de toda gente cega, o que há é uma espécie de verificação do que inevitavelmente acontece a partir do momento em que uma pessoa, ou um conjunto, ou a sociedade, ou o mundo todo se tornam cegos. Então há uma degradação do ser. Tudo aquilo que ali se encontra, a violência, o sexo... O sexo não tem nada a ver, nesse caso, porque o sexo ali é a manifestação de uma violência, digamos, em todos os casos, ou quase todos. Quer dizer, é sobre tudo, a podridão, a sujeira, o lixo, o homem, o ser humano conduzido à degradação suprema. Não é nada que a gente não conheça. Os campos de concentração mostraram até que ponto a pessoa pode ser degradada. E notem uma coisa, e não é por acaso, talvez, que no Ensaio sobre a Cegueira as pessoas não têm nome. Porque os internados nos campos de concentração, a tatuagem que lhes punham no braço não dizia o nome que tinham, mas o número que tinham.
- Em História do Cerco de Lisboa há um personagem central, o revisor de uma editora, cujo nome não consigo me lembrar agora. Mas me lembro perfeitamente de cada atitude ou pensamento desse revisor. Então...
- José Saramago: Sim, ele chama-se Raimundo Benvindo Silva.
- Mas o nome já não era tão importante.
- José Saramago: Não... Enfim, era suficientemente importante para aparecer ao longo do livro dezenas de vezes. Mas, repare, você falou aí nos cruzados, nos cristãos, em Jesus, em toda essa gente... Toda essa gente povoa o texto. Então, o que digo é o seguinte: é como se, a partir do Ensaio sobre a Cegueira, deixasse de me importar se eles eram cristãos ou eram mouros. Não é que houvesse deixado de ter importância, mas, hoje, estou a tentar ir mais além da diferença que há ou pode haver entre um mouro e um cristão, saber o que é aquilo que porventura os une. Também não é isso, porque eu não sei o que poderá uni-los. O que eu quero saber, no fundo, é o que é isto de ser-se um ser humano.
- Essa tentativa de compreensão tem um fim?
- José Saramago: Não, não tem fim. Repare, se eu soubesse que havia um fim estaria desde já... Em primeiro lugar, saberia que há um fim. E, em segundo lugar, estaria já a enunciá-lo, estaria já a dizer: eu estou fazendo isto porque quero chegar a esta conclusão. E posso antecipar essa conclusão... Mas não sei. Então, a única coisa que quero fazer é isto, é mostrar uma situação como a de Ensaio sobre a Cegueira, mostrar outra situação como a de Todos os Nomes, que é a busca do outro, a procura do outro, que é infrutífera, malsucedida.
- Partindo-se desse ponto de vista, o sr. acha que um livro como Ensaio sobre a Cegueira é pessimista ou otimista?
- José Saramago: Acho que essas categorias de otimismo ou de pessimismo não são relevantes. Dizer se o livro é otimista ou pessimista? Digamos, a visão que eu tenho do mundo é francamente pessimista, claro, como de resto basta ver.
- Parte da crítica vê em seus livros uma solidariedade com os personagens...
- José Saramago: Mas isso não é incompatível. Eu posso ser um pessimista, mas isso não significa que eu condeno à morte, ou ao degredo, ou à prisão, ou à miséria, ou à desgraça essas minhas personagens. Sou solidário, enfim, com elas. Mas o fato de ser solidário não me transforma em otimista. Otimista por quê? Se as razões que levam, como me levam, a contar uma determinada história são razões que têm a ver, obviamente, com minha visão do mundo, da história e da sociedade, vão sendo razões essas bastante pessimistas, porque o mundo não me dá nenhuma razão para ser otimista. Então isso é o que aparece nos meus livros. Mas não creio que valha a pena, digamos, dividir o mundo em duas partes, os otimistas e os pessimistas. Isso não existe. E, de resto, se reparar bem, se você fizer uma lista de escritores otimistas desde sempre, você escreve três ou quatro nomes, e não mais. E, se for fazer a lista dos escritores pessimistas, são todos.
- O sr. concorda que Ensaio sobre a Cegueira tem muitas semelhanças com o universo da obra de Kafka?
- José Saramago: Mas, já antes do Kafka, eu já lia livros kafkianos. Enfim, essa também é uma espécie de obsessão que todos temos mais ou menos, que é a de relacionar determinado livro, determinado autor, determinada visão com uma visão anterior. Como se a visão anterior fosse a primeira. Ora, não é assim. Quer dizer, isso, no fundo, é uma espécie de corrente em que os elos estão todos encaixados uns nos outros. E pode haver elos que se parecem encaixados uns nos outros, mas não iguais.
- Sem discutir a primazia na invenção desse universo: comparando o José Saramago com Franz Kafka...
- José Saramago: Gostaria muito, mas não creio que essa comparação seja legítima.
- Em termos da classificação otimismo/pessimismo, que o sr. rejeita, Kafka seria um escritor pessimista por excelência. A sua obra seria da mesma família?
- José Saramago: Continuo a não querer entrar nesse jogo de categorias pessimismo/otimismo. Não entro nisso porque, em primeiro lugar, não explica nada. Em segundo, obriga, ou melhor, obrigaria à referenciação de uma determinada atitude pessimista ou otimista de um determinado escritor em relação ao tema, enfim, que ele trata. Então teríamos de chegar a conclusões que do meu ponto de vista parecem inúteis. O otimista puro não existe. Da mesma maneira, não existe o pessimista puro. Como todas as coisas deste mundo, tudo isso passa de um extremo ao outro por gradações. E até mesmo um determinado autor, que num certo momento lhe poderá parecer pessimista, daí a dois anos, se ele estiver bem-disposto, se não lhe doerem os dentes, se estiver apaixonado, é capaz de escrever um livro que lhe pareça otimista. Mas isso tem a ver com as flutuações, digamos, do nosso próprio estado de espírito. O que não significa que não haja constantes, que têm a ver com o modo de ser, com o modo de entender, com o modo de analisar, e que se possa dizer que tenham uma conformação mais pessimista ou menos pessimista. Mas, no fundo, parece-me bastante difícil ser otimista hoje.
- Já ouvi de uma de suas leitoras que seu texto faz lembrar a "música" do português arcaico, em que se narrava, por exemplo, a vida da rainha d. Urraca sem pontos, vírgulas, parágrafos... O Fernando Lemos, pintor e seu amigo, diz que se lembra da maneira como as mulheres de Portugal, no campo, contam histórias e fazem os temas se entrelaçarem. Há um componente melódico na maneira como o sr. conta a história...
- José Saramago: Não sei se tem diretamente a ver com a melodia, mas tem a ver com aquilo a que, em termos musicais, chama-se o andamento, ou o compasso. Menos o ritmo do que o compasso e o andamento. Tem a ver com o modo como se constrói a própria frase. Quando estou a escrever, não estou a pensar obsessivamente nisso. Simplesmente acontece. É eu sentir, por exemplo, que uma determinada frase em que já disse tudo quanto tinha para dizer, do tal ponto de vista musical, no sentido do compasso que tem que se desenvolver, tem de terminar. Um, dois, três, quatro: quer dizer, tem de acontecer isso. Também tem de acontecer isso na própria frase que está a ser escrita. E pode acontecer que do ponto de vista do sentido já esteja tudo completo, mas que a frase necessite de três ou quatro palavras mais que não acrescentam nada, que não vão acrescentar rigorosamente nada, mas que são necessárias para que o último tempo do compasso caia e repouse. Enfim, isso tem a ver também - mas aí já de uma maneira involuntária e quase instintiva - com o fato de que os narradores de contos, digamos, dos contos orais, têm uma espécie de saber infuso, que não aprenderam. Ou melhor, aprenderam com o que ouviram, os contos contados por outros antes deles.
- É como se cria a história oral.
- José Saramago: Há uma espécie de ciência, digamos, da narrativa oral. Nas aldeias, hoje, está-se a perder tudo, mas havia precisamente essa capacidade de narrar. Um conto nunca era igual duas vezes, porque se acrescentava sempre alguma coisa. Havia depois, também, as interpolações, e de repente o narrador do conto lembrava-se de um outro episódio e intercalava o episódio para depois retomar a história. E isso, que pode ser confuso, se obedecer a uma preocupação estrutural, se tiver em conta os valores do andamento do compasso e, digamos, da própria melodia - que aí já tem a ver com a sonoridade de cada palavra e da sucessão delas -, tem então qualquer coisa de encantatório. No fundo, a palavra autêntica, a palavra verdadeira é a palavra dita. A palavra escrita é apenas uma coisinha morta que está ali, à espera de que a ressuscitem. E é no dizer da palavra que a palavra é efetivamente palavra. Por isso, às vezes eu digo que convém a um leitor que está a ler um romance meu que ele seja capaz de ouvir dentro da cabeça a voz que está a dizer aquilo que ele está a ler. Ele está a fazer uma leitura silenciosa, como é normal. O que peço, alguma coisa posso pedir aos leitores, mesmo no sentido de uma compreensão mais exata daquilo que está escrito, é que tente ouvir dentro de sua cabeça essa voz.
- Isso faz lembrar o teatro, e o sr. tem uma obra teatral já publicada. São duas perguntas. A primeira: o sr. pensa em escrever mais teatro? E a segunda: as suas peças apresentam a dificuldade técnica da grande quantidade de personagens, o que dificulta a encenação. Ocorre-lhe a idéia de facilitar essa dramaturgia?
- José Saramago: Se eu fosse dramaturgo estaria a pensar em tudo isso. Mas, como não sou, escrevo simplesmente aquilo que me parece. Que num caso ou noutro pode não interessar como matéria para romance, mas que pode servir como matéria para teatro. Mas também isso não é inteiramente verdade, porque nunca escrevi uma peça por iniciativa própria. Todas as peças que escrevi resultaram de convites que me fizeram.
- É por gosto ou porque lhe parece difícil?
- José Saramago: Não. Digamos até que não é nada difícil. Tenho uma certa habilidade para dialogar, para criar situações dramáticas, conflitos. E para dizer e dar um remate, um desenlace, uma solução aceitável. Nas quatro peças que escrevi creio que está lá tudo. Mas há qualquer coisa de mais importante, talvez. Se repararmos na escrita de um romance, chega-se facilmente à conclusão de que há muito de oralidade naquela escrita. Bom, não é a transcrição da palavra dita que se resulta, mas são os mecanismos da fala, quer dizer, do modo de fluir da fala. De certo modo, esse fluir está transposto para o fluir da narrativa num romance meu. Portanto parece que, se assim é, quando eu escrevo teatro, eu deveria escrever da mesma maneira. Porque, se aquela palavra está a ser escrita para ser efetivamente dita, então parece que eu deveria, nesse caso, quando escrevo teatro, usar o mesmo modo narrativo do romance. Simplesmente não é assim. Há uma diferença total entre a escrita narrativa, do romance, e a escrita do teatro. A escrita do teatro é tradicional, não há rupturas sintáticas. A frase é a mais canônica possível. Pode-se perguntar: não há aqui uma contradição? Eu digo: há e não há. Há porque é óbvio que está lá. Mas ao mesmo tempo não há porque a palavra, aquilo que está escrito numa obra de teatro, o seu destino final tem de passar pela boca de um ator. Quer dizer, se aquela peça é representada, o texto que está ali não é um texto para ser simplesmente lido; é um texto para ser falado. E é justamente na interpretação de um ator de verdade, na voz que ele puser a essas palavras, que ele vai, de certo modo, transformar esse texto escrito de uma forma normal num texto que passa a parecer-se com o que está no romance. Ao dizer esse texto canônico, normal e sem rupturas sintáticas, vai aproximá-lo do texto do próprio romance. Por isso, e agora já de outra maneira, está-se a notar ser muito fácil adaptarem textos meus de romance a teatro.
- A leitura de um trecho do Evangelho (feita dias antes em São Paulo por Sergio Mamberti e outros atores) era teatro puro.
- José Saramago: Bem, é teatro puro porque eu creio que tudo pode ser transformado em teatro puro.
- Tinha essa mobilidade que é típica da linguagem cênica.
- José Saramago: Estão três pessoas a falar, Jesus, o Diabo e Deus, e há, digamos, uma espécie de peleja dialética, há uma espécie de combate dialético entre eles. Isso também é teatro. Ou melhor, pode ser levado ao teatro sem deixar de ser aquilo que é, umas quantas páginas de um romance articuladas com aquilo que vem antes e ao que vem depois. Podem ser transportadas como diálogo que é e como conflito, como situação dramática que é, transportadas ao teatro. Mas, evidentemente, nesse levar de um lado para o outro fica tudo aquilo que não pode ser levado. O que pode ser levado para o teatro, no fundo, são as palavras que são ditas no romance. Mas não podem ser levadas as descrições, as reflexões do próprio narrador, se ele mete lá um comentário daquilo que se passa. Embora nessa leitura eles tivessem aproveitado para meter um comentador, um narrador, que vai dizendo aquilo que dá uma forma, estabelece ligações, pode estabelecer ligações.
- O sr. disse que ainda tem muita coisa a dizer. Esse novo romance vai ser exatamente o quê?
- José Saramago: É um romance que tem título, como em geral acontece com os meus livros, que começam pelo título. Se chamará A Caverna. De certo modo, visto tal como eu penso, tal como o que eu tenho muito claro na minha cabeça, constituirá uma espécie de terceira parte de uma trilogia que eu não pensei como tal. Portanto, é aquilo que se pode chamar mesmo uma trilogia involuntária, que começa com Ensaio sobre a Cegueira, passa depois a Todos os Nomes e entrará depois em A Caverna. É claro que o título faz imediatamente lembrar algo, e esse algo que faz lembrar é do mito da caverna de Platão. Digamos que, de uma certa maneira, sim, embora no romance não se trate nem de Platão nem de caverna. Mas é curioso, talvez não estejamos a reparar nisso, mas a verdade é que desde Platão nós nunca vivemos tanto na caverna dele como agora. Se recordarmos o mito da caverna, as pessoas sentadas dentro, atadas, olhando a parede em frente por onde passam imagens, sombras, reflexos do que passa fora, do que está a passar fora, há uma fogueira a projetar sombras. E as pessoas acreditam que aquilo que estão a ver, essas sombras, são a realidade. Se em algum momento da história isso se pareceu exatamente com a vida que se está a ter, eu penso que é agora. Estamos a ver imagens, e não a realidade. Portanto, o livro é nessa direção. Também os personagens não vão ter nomes...
- Não terão?
- José Saramago: Não. Digamos, os nomes deixaram de ter significado. O que tem significado real são os números. O número da conta bancária, o número da identificação bancária, o número do bilhete de identidade, o número do passaporte. Aos bancos não interessa nada saber como nos chamamos. Interessa saber que número temos. E a perda do nome, que eu acho que está em processo, essa espécie de inutilidade... Nem sequer é perda do nome: é inutilidade do nome. Que é útil na vida corrente, continua, eu continuo a dizer Beatriz, tu continuaste a dizer José... Nós não estamos a falar disso, nós estamos a falar de relações entre nós. Estamos a falar na relação que o poder, agora representado por aquilo que nós quisermos que tenha um poder, não quer saber muito como nós nos chamamos. Quer saber é do número, ou números. Se eu me hospedo num hotel, por exemplo, dão-me um papel que eu tenho de preencher. Ponho lá o meu nome, mas exigem que eu ponha também o número do meu passaporte. E, das duas coisas, o mais importante, aquilo que permitirá melhor me identificar, não é o nome, porque pode haver outra pessoa com o mesmo, mas o número. O número é que conta. Que efeito isso vai ter no futuro? Não sei, continuo a não saber.
- O sr. já começou a escrever?
- José Saramago: Depois de tudo aquilo que eu disse aqui, essa pergunta é... É para aceitar sem violência? (Risos)
- Mas está tudo tão claro, o sr. tem o livro pronto na cabeça...
- José Saramago: O Luiz Schwarcz diz: "Você se senta e começa a escrever já. Não vai ao congresso, não vai a nenhum lugar".
- Não dá mais entrevista...
- José Saramago: Não dá mais entrevistas? O quê?, a BRAVO!? a BRAVO! não! E assim estamos.
- Saramago fundamental
- José Saramago: O melhor do autor na seleção de BRAVO!
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Explicação do próprio Saramago: "Era uma vez um rei que fez promessa de levantar um convento em Mafra. Era uma vez a gente que construiu esse convento (...)". Primeiro grande sucesso do escritor no Brasil.
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Tributo do autor ao mundo rural português, uma história de camponeses do Alentejo, a região sul do país, onde se produzem trigo, cortiça e azeitonas.
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Um revisor, ao se debruçar sobre um texto, acrescenta um "não" a uma frase e, com isso, dá a entender que o cerco da cidade pelos mouros nunca teria terminado. A trama se estrutura a partir desse erro e é colorida pela história lisboeta e por um caso de amor.
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Na Lisboa contemporânea, um homem comum ao volante do seu carro nota subitamente que não consegue enxergar: é o início de uma metafórica epidemia de cegueira carregada de brutalidade.
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A vida de Jesus segundo a cronologia dos Evangelhos, mas apresentando-o como um ser humano sujeito a paixões contraditórias.
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Funcionário do cartório de registro civil coleciona dados sobre pessoas famosas até encontrar um nome desconhecido. A procura desse alguém invisível revela um labirinto burocrático inquietante.
-Cadernos de Lanzarote
Diários do escritor que expressam suas posições diante da vida intelectual, da política e dos fatos diversos. O volume 2 foi lançado recentemente (504 págs., R$ 29).
-Memorial do Convento e Levantado do Chão: Bertrand Brasil. Demais títulos: Companhia das Letras.