Sétimo de dez filhos de um casal de imigrantes libaneses, Raduan Nassar nasceu em 27 de novembro de 1935 em Pindorama, cidade do interior de São Paulo. Seu destino era ser um dos maiores escritores brasileiros. Ou um dedicado criador de galinhas... Em 1949 mudou-se com a família para Catanduva para dar prosseguimento aos estudos primários, deixando para trás sua coleção de pombas, citada anos mais tarde em Lavoura Arcaica, seu primeiro livro publicado. Nassar chegou a ingressar simultaneamente nos cursos de direito e de letras. Graduou-se em filosofia em 1963.
Os primeiros rabiscos de Lavoura Arcaica foram escritos em 1968, mas a retomada do trabalho só ocorreu em 1974. A fase de produção mais intensa se deu em poucos meses. Quando foi lançado, em 1975, o romance causou impacto por seu estilo narrativo, que apresenta prosa exígua e intensa, e pontuação peculiar, compondo um quadro psicológico denso, apoiado numa linguagem poética e alucinada. A narrativa em primeira pessoa (não-linear e complexa, mas de uma riqueza estimulante) se faz por meio do personagem André, que decide abandonar a roça, onde mora com a tradicional e numerosa família de origem sírio-libanesa, e mudar-se para uma pequena cidade. O rapaz pretende fugir da rigidez moral a que é submetido e de uma paixão incestuosa pela irmã. Uma das grandes inovações estilísticas está na narração elíptica do protagonista, em que o assoberbante fluxo de consciência se efetua por meio de meticulosa escolha vocabular.
O livro ganhou prêmios da Academia Brasileira de Letras, da Associação Paulista de Críticos de Arte, além do Prêmio Jabuti (Revelação de Autor), da Câmara Brasileira do Livro. Lavoura Arcaica, que o autor afirma ser uma parábola do Filho Pródigo às avessas, foi publicado também em espanhol, francês e alemão. Em 1998, o livro foi transformado em filme, dirigido por Luiz Fernando Carvalho.
Assustado com tamanho sucesso, o escritor resolveu abandonar a literatura, passando a criar galinhas numa fazenda que adquiriu no Sudoeste de São Paulo. Atavam-se, assim, as duas pontas de sua vida.
O trecho de abertura
"Os olhos no teto, a nudez dentro do quarto; róseo, azul ou violáceo, o quarto é inviolável; o quarto é individual, é um mundo, quarto catedral, onde, nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre os objetos que o quarto consagra estão primeiro os objetos do corpo; eu estava deitado no assoalho do meu quarto, numa velha pensão interiorana, quando meu irmão chegou pra me levar de volta; minha mão, pouco antes dinâmica e em dura disciplina, percorria vagarosa a pele molhada do meu corpo, as pontas dos meus dedos tocavam cheias de veneno a penugem incipiente do meu peito ainda quente; minha cabeça rolava entorpecida enquanto meus cabelos se deslocavam em grossas ondas sobre a curva úmida da fronte; deitei uma das faces contra o chão, mas meus olhos pouco apreenderam, sequer perderam a imobilidade ante o vôo fugaz dos cílios; o ruído das batidas na porta vinha macio, aconchegava-se despojado de sentido, o floco de paina insinuava-se entre as curvas sinuosas da orelha onde por instantes adormecia; e o ruído se repetindo, sempre macio e manso, não me perturbava a doce embriaguez, nem minha sonolência, nem o disperso e esparso torvelinho sem acolhimento; (...)"
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