"Era uma vez um certo Harry, chamado o Lobo da Estepe. Andava sobre duas pernas, usava roupas e era um homem, mas não obstante era também um lobo das estepes. Havia aprendido uma boa parte de tudo quanto as pessoas de bom entendimento podem aprender, e era bastante ponderado. O que não havia aprendido, entretanto, era o seguinte: estar contente consigo e com sua própria vida." Assim escreve Hermann Hesse (1877-1962) no livro que virou a febre hippie dos anos 1960. Depois dele, ler Hesse na época tornou-se fundamental - um clássico, de certa maneira, em tempos de flower power.
Um livro que passou a ser devorado como uma espécie de O Pequeno Príncipe da geração hippie. O Lobo da Estepe (1927) é um romance denso em termos filosóficos, mas ainda mais complexo do ponto de vista literário - o texto oscila entre o simbolismo e o surrealismo, dando origem a um mundo de sonhos e pesadelos.
Aos 48 anos, Harry aluga um quarto onde passa a viver isolado. É um intelectual misantropo, que caminha pelo mundo como um lobo solitário. Ele vive de si para si, em uma busca incessante de descobertas - espirituais e sensoriais, mentais e físicas -, uma busca pelo "encontro com Deus", que seria a solução para a mediocridade que o cercava. "Anseio por uma dor que me prepare e me faça desejar a morte", diz o narrador do romance de Hesse. Seu problema se centra em um permanente mal-estar, cuja fonte é a inadequação do seu espírito à sociedade, à vulgarização burguesa da vida e dos valores.
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