Eugene Gladstone O’Neill (1888-1953) nasceu para o teatro. Filho de um ator popular de ascendência irlandesa, O’Neill cresceu em viagens durante as temporadas teatrais pelos Estados Unidos. A vida errante fez com que a mãe se tornasse dependente de remédios e o irmão mais velho, que mais tarde se suicidaria, do álcool. Quanto a O’Neill, aos 20 anos trocou o primeiro ano na Universidade Princeton por uma vida errante.
Trabalhou na prospecção de ouro e como marinheiro em portos e navios pela África, Europa e América do Sul. Vítima de tuberculose, foi obrigado a voltar para casa e a ficar seis meses confinado em um hospital. Foi nessa época que mergulhou nas obras dos dramaturgos escandinavos August Strindberg (1849-1912) e Henrik Ibsen (1828-1906), cuja leitura não só o motivou a escrever para o teatro como ainda o inspirou a levar ares mais modernos ao palco americano.
Muitas de suas primeiras peças - povoadas de marinheiros, boêmios, prostitutas e delinquentes - nasceram de sua experiência no mar. Em 1920, ganhou o Prêmio Pulitzer com Além do Horizonte. Em Nova York, no bairro de Greenwich Village, centro da agitação artística e intelectual, travou contato com artistas e ativistas políticos, como o jornalista John Reed. O’Neill ganharia outros três Pulitzer: por Anna Christie, em 1922, por Estranho Interlúdio, em 1928, e por Longa Jornada Noite Adentro, em 1957, encenada, por vontade do autor, depois da morte deste.
Na peça, O’Neill põe às claras os conflitos de sua família. A ação se concentra em um único dia de agosto de 1912, na casa de campo da família Tyrone - instalada em um local de constantes nevoeiros. O pai é um ator de longa carreira estigmatizado pela peça O Conde de Monte Cristo, que representou milhares de vezes. Avarento, justifica o comportamento por ter tido uma infância pobre. A mãe, que abdicou do conforto de seu lar pelo casamento, vivendo de hotel em hotel durante as temporadas do marido, recebeu tratamento médico inadequado e acabou viciada em morfina. O filho mais velho é ator e alcoólatra. O mais novo, dotado de veleidades artísticas, descobre-se tuberculoso. A mais árdua tarefa familiar, sabem eles, é a convivência mútua.
Tragédias sempre foram a predileção de O’Neill. Sua maior produção concentrou-se entre os anos 1920 e 1940, e uma de suas principais obras é a trilogia dramática Electra e Os Fantasmas, adaptação do mito grego de Electra para o contexto da Guerra Civil Americana. O autor foi um dos primeiros a introduzir nos Estados Unidos as técnicas expressionistas e naturalistas da moderna dramaturgia, numa evidente dívida para com as práticas europeias. Máscaras, solilóquios e conceitos nietzschianos são incorporados a seus textos. O experimentalismo levou-o a empregar a técnica do segundo diálogo para revelar o conteúdo recalcado da mente dos personagens. Assim como Ibsen e Strindberg, O’Neill mergulhou nos mecanismos psicológicos de seus personagens seguindo alguns parâmetros clássicos, como a unidade de tempo e espaço e a divisão das peças em cinco atos. Representante da vertente realista no teatro, não deixou de explorar elementos líricos e simbólicos, mas sempre dentro dos parâmetros do real.
Pessimista, O’Neill costuma mostrar o ser humano preso a um destino sem sentido. Essa filosofia trágica ("a tragédia do homem talvez seja a única coisa significativa a seu respeito", disse ele em uma entrevista em 1923) foi um caso singular na história da literatura e do teatro dos Estados Unidos e angariou admiradores em todo o mundo. Em 1936, foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura.
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