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LITERATURA

Lucíola

Romance urbano de José de Alencar, livro examina a regeneração de uma prostituta pelo amor e pela morte


11/07/2011 17:32
Texto Daniel Schneider e Thiago Minani
Bravo
Foto: MGM
Greta Garbo e Robert Taylor
Greta Garbo e Robert Taylor no filme "A Dama das Camélias", inspiração para José de Alencar escrever "Lucíola"
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Quinto romance de José de Alencar, Lucíola (1862) é o primeiro da chamada trilogia de "perfis de mulheres" (Lucíola, Diva e Senhora). Estes três estão entre as obras urbanas do autor. Na definição de Antonio Candido, fazem parte do "Alencar dos adultos", que se caracteriza pela maior sobriedade na análise da sociedade e equivalência entre homens e mulheres, que não são totalmente bons ou ruins e têm as personalidades modificadas ao longo da narrativa — é este Alencar que a crítica considera precursor de Machado de Assis. Os três romances se passam numa sociedade marcada pela ascensão burguesa, que se quer elegante e bem-vestida segundo a moda de Paris, que freqüenta óperas e faz saraus familiares. É desse contexto que Lucíola faz parte.

A história é contada na primeira pessoa por Paulo Silva, um dos protagonistas. Pernambucano, ele muda-se aos 25 anos para o Rio de Janeiro, onde conhece Lúcia, prostituta de luxo que transita pela alta sociedade carioca. Ele tenta conquistá-la, mas com a intenção de fazê-la mudar de vida. Ela se entrega a Paulo, mas, conforme se apaixona por ele, vai negando-lhe o corpo. Ao se descobrir doente e revelar-lhe as razões de não o desejar mais fisicamente, Lúcia muda-se para o interior na companhia da irmã. Mas não sem antes revelar a ele as razões de ter se tornado prostituta: quando pequena, havia vendido o corpo a um vizinho para ajudar os parentes enfermos. O pai, então, a expulsara de casa. Já no interior, Lúcia morre após abortar um filho de Paulo.

Há uma evidente referência a A Dama das Camélias (1852), do francês Alexandre Dumas Filho (1824-1895). O também escritor Joaquim Nabuco travou polêmica com Alencar, acusando-o de ter feito uma mera cópia. Faltou a Nabuco perceber que a intertextualidade se dá de maneira magistral: a própria Lúcia lê o outro romance. A personagem de Dumas Filho regenera-se pura e simplesmente pelo amor, podendo alcançar em seguida a felicidade. Alencar, em resposta a Nabuco, diz refutar essa possibilidade: "Lucíola foi escrita em contestação dessa tese fisiológica. Seu sentimento foi provar que, se a mulher pode regenerar-se pelo coração, rara vez poderá regenerar para o amor feliz; porque nas mais ardentes efusões desse amor achará a lembrança inexorável de seu erro".

Em Lucíola, para livrar-se do passado, a protagonista chega a trocar de nome. Torna-se Maria da Glória, nome que tinha quando pequena. O corpo, contudo, continua maculado - e a morte, então, aparece como a única saída para livrá-la da desgraça. Nessa evidente separação entre o físico e o espiritual há a concepção de amor típica do Romantismo. Os elementos que o romance de Alencar incorpora a essa tradição se vinculam, para alguns críticos, a uma visão interessada em valorizar o país. Em muitas passagens do livro, por exemplo, menções às belezas da terra são feitas. Interessante notar como o processo de regeneração de Lúcia ocorre no campo, longe da cidade - vista como um lugar que corrompe e degenera o indivíduo.

 



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