Educar para Crescer
busca

Educar para crescer

CULTURA

"Detesto pose de escritora"

Lya Luft preza a vida simples que leva em Porto Alegre ao lado dos filhos, dos netos e do terceiro marido. E afirma: "Minha felicidade está na família e nas amizades"


Contigo

06/05/2009 14:39

Texto
Aline Salcedo

Foto: Liane Neves
Foto: escritora

A escritora é adepta à internet, mas detesta todos os sites que colocam a vida das pessoas em exposição

----- PAGINA 01 -----

No escritório da escritora Lya Luft, 70 anos, um pequeno quadro chama a atenção: uma menina linda, de laço de fita amarrado nos cabelos, sorriso de lábios entreabertos e olhos brilhantes. É Lya criança, aos 4 anos. Nascida em Santa Cruz do Sul, cidade do interior gaúcho, com forte influência germânica, Lya passou a adolescência entre os poemas de Rainer Maria Rilker e Goethe. Conhecia vários deles de cor e costumava recitá-los. "Mas jamais me senti alemã, graças a Deus. O germânico tem essa coisa da rigidez na educação, do dever. Prefiro meu lado brasileiro, mais humano, mais generoso e mais solto. Sou da quinta geração no Brasil, tão brasileira quanto uma descendente de africanos que vende acarajé nas ruas de Salvador", diz a escritora, que recebeu Contigo! em seu apartamento em Porto Alegre.

Café e computador

Ali, com vista para o Country Club da cidade, quem entra fica à vontade. Lya leva uma vida simples, que se reflete em sua casa. É uma mulher calma, que diz falar palavrão de vez em quando, mas só de brincadeira. Poucas coisas a tiram do sério: "A burrice me irrita muito, e a falta de ética também. Mas não me descontrolo", conta. Ela gosta muito de tomar café, mas nunca usa o jogo de prata, exposto em um móvel da sala, herança da mãe, Wally, já falecida. "Sou muito informal. Levo uma vida bastante simples e austera, eu gosto assim", conta a escritora.

Considerada uma das autoras mais bem-sucedidas do país (já vendeu cerca de 1,5 milhão de exemplares), passa a maior parte do tempo em seu escritório, cercada de livros e fotografias da família, escrevendo e pesquisando no computador. "Mas detesto orkut, blogs e tudo que seja essa exposição do privado no público. Prefiro a discrição, acho o recato mais elegante."

Amor não tem idade

Lya ficou viúva duas vezes. Casou-se aos 21 anos com o escritor Celso Pedro Luft, de quem herdou o sobrenome. Com ele teve três filhos: Susana, 43, André, 42, e Eduardo, 39. Separou-se em 1985 para viver com o psicanalista e escritor Hélio Pellegrino, que morreu três anos depois. Em 1992, voltou a se casar com o primeiro marido, que morreu em 1995. Depois disso, chegou a dizer que já tinha enviuvado demais e não iria mais se casar, mas há seis divide seu lar com o engenheiro carioca Vicente Britto Pereira, 66, diretor-geral do Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (Daer), do Rio Grande do Sul. "Apaixonar-se não tem idade", diz.

Dois dos filhos moram pertinho e ela adora passar o tempo com eles. "Moramos próximos e nos vemos muito. Minha filha Susana, mãe de três meninas, mora no edifício ao lado. Eduardo também vive perto, com dois meninos. E o do meio, André, mora em Florianópolis, e tem dois meninos também. Sou uma avó bem engraçada. Não cozinho, não faço bolo, não levo à pracinha, mas adoro as crianças e os adolescentes, e eles sabem disso." E completa: "Tenho uma relação profunda, alegre e carinhosa com meus filhos e netos. A literatura jamais seria minha maior felicidade. Minha felicidade está na família, no marido, nas amizades, em coisas reais e vitais. Gosto de escrever, mas nada de êxtase. É o que sei fazer na vida. Detesto pose de escritora..."

Nada de medos

Lya e o marido acordam por volta das 6h da manhã. "Não por disciplina, mas ao natural, porque a gente gosta", ressalta. Os dois lêem os jornais, tomam café e, muitas vezes, caminham juntos no Parque Germânia, perto de casa. "Sou mais preguiçosa do que atlética, mas caminho quase todas as manhãs com nossa buldogue inglesa chamada Emily. Meu marido, sempre que pode, vai conosco", conta ela, que leva um estilo de vida bem saudável, mas sem neuroses. "Quero ser saudável e sou, mas detesto a mania fanática de exercícios, magreza, coisas saudáveis... Perdemos a naturalidade. Estamos escravos de medos", afirma, sem se opor a cirurgias plásticas. Já fez duas. "Fiz um pequeno lifting facial aos 50 anos, quando fiquei viúva pela primeira vez e estava extremamente abatida. Mais tarde, fiz redução de mamas por conselho de meu ginecologista. E nada mais."

Atualmente está lendo a autobiografia A Soma dos Dias, de Isabel Allende. "Li muito, sempre, desde pequena. Os clássicos são bons para termos uma ideia deles, mas não precisamos ler os clássicos. Hoje, leio menos ficção e mais ensaios e biografias", diz ela, que, no entanto, não se inspira na própria biografia. "Minhas ideias vêm muito do meu inconsciente, de minhas observações, leituras, mas sobretudo da minha fantasia. O romance, em geral, surge aos poucos, um personagem que invento e me interessa, suas neuroses, sua família, tudo inventado. Minha vida não é tão interessante quanto a de meus personagens neuróticos e sofredores", diz Lya.

Agora ela escreve um ensaio chamado Medos, Mitos, Mentiras, "em parte sociológico, sobre questões da nossa sociedade e cultura", em suas palavras. Além de crônicas para a coluna Ponto de Vista, da revista Veja, desde 2004, ensaios, poesias. E não está nem aí para o novo acordo ortográfico. "Não me interessa, deixo isso para os revisores. Acho essa reforma fraca, confusa, boba", opina ela, que também não quer passar mensagem especial aos leitores. "Quem passa mensagem é fax, disse o diretor Gerald Thomas, e eu concordo. Sou uma mulher em busca de simplicidade, que curte a vida com tranquilidade e certa beleza."

 




amigos do educar

 
 


depoimentos

Marina Silva, Martha Medeiros, Nelson Motta e outras personalidades brasileiras revelam o impacto de uma boa Educação no futuro



recomendamos

MAIS LEITURA
Conheça atividades simples - e baratas! - que podem transformar seu filho em um pequeno grande leitor

TESTE
Você sabe lidar com seu filho adolescente?

mais lidos

VESTIBULAR
Os 100 melhores livros da literatura brasileira para você ler uma vez na vida

FÉRIAS E FILMES
Uma seleção de filmes que passam grandes lições e podem tornar as férias mais divertidas

blogs

Realização

Apoio