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LITERATURA

Macunaíma - O Herói Sem Nenhum Caráter

Obra maior da primeira fase do modernismo, o livro de Mário de Andrade alterna estilos literários e funde lendas indígenas com a cultura da metrópole


Bravo

01/08/2008 15:55

Texto
Daniel Schneider e Thiago Minani

Foto: Divulgação
Cena do filme Macunaima

Cena do filme de Joaquim Pedro de Andrade, baseado no livro de Mario de Andrade

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Desde a Semana de 1922, a primeira fase do Modernismo brasileiro aguardava sua obra maior. Seria natural que seu principal mentor, o paulistano Mário de Andrade (1893-1945), produzisse o romance mais expressivo do período: Macunaíma — O Herói Sem Nenhum Caráter (1928). Estudioso da música e do folclore brasileiro e pensador sério da cultura do país, tinha publicado até então Há uma Gota de Sangue em Cada Poema (1917), Paulicéia Desvairada (1922), A Escrava que Não é Isaura (1925), Losango Cáqui (1926), Amar, Verbo Intransitivo (1927) e Clã do Jabuti (1927).

Macunaíma foi escrito como um passatempo de férias. Mario isolou-se com um tio doente e a companhia de alguns livros, entre eles a obra etnográfica do antropólogo alemão Theodor Koch-Grünberg, que havia pesquisado as lendas e os mitos do Norte brasileiro, e o ensaio Retrato do Brasil, escrito por Paulo Prado também em 1928. Tomado de entusiasmo, Mário redigiu em seis dias a obra.

O livro anuncia logo na primeira linha a função maior do protagonista. “No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente.” Assim como a obra de Prado, o personagem foi criado para retratar seres lascivos, malandros, preguiçosos e sonhadores. Macunaíma sai da selva amazônica, onde vivia preguiçosamente de comida e sexo, e vai para São Paulo a fim de recuperar a muiraquitã — um talismã que dele foi furtado e se encontra com o mascate peruano Venceslau Pietro Pietra, na verdade o gigante Piaimã. Consegue reavê-la, mas, descuidado, logo a perde novamente. Aborrecido por tanto penar na “terra sem saúde e sem saúva”, é transformado na constelação da Ursa Maior. São muitas as metamorfoses por que passa o protagonista e outros seres folclóricos do livro. O “herói sem nenhum caráter” transforma-se (em príncipe, estrela, francesa etc.) e transforma (São Paulo em um bicho-preguiça de pedra) de acordo com a desfaçatez das conveniências.

Além do uso inusitado de lendas indígenas, sobretudo quando Macunaíma encontra-se em uma plena São Paulo desenvolvimentista, outro estranhamento da obra se apresenta nos estilos narrativos que o autor mesclou e o fez defini-la como rapsódia. Segundo o escritor e poeta Haroldo de Campos, Mário misturou os coloquialismos e construiu uma “fantasia estrutural”, que rompe com o tempo e espaço dos romances tradicionais. A solenidade do tom épico-lírico, a leveza da crônica cômica e sem-cerimônia e os atrevimentos da paródia — todos identificados pelo crítico Alfredo Bosi — devem ser vistos, em conjunto, como uma das mais ousadas e eficientes experiências formais da primeira geração do Modernismo brasileiro. 

 


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