Logo no início deste livro de 1945 está o poema que atinge a expressão máxima do imaterial, do espiritual e do abstrato na obra de A pós a publicação de Brás, Bexiga e Barra Funda (1927), de Antônio de Alcântara Machado, foram necessários 36 anos para que o âmago da sociedade paulistana retornasse à cena literária nacional. Malagueta, Perus e Bacanaço, publicado em 1963, revolucionou o modo de retratar a realidade do submundo da metrópole. A sociedade invisível dos marginalizados foi descrita na obra de forma magistral pelo escritor, jornalista e boêmio João Antônio.
No conto que dá título ao livro, o autor expõe a árdua jornada pela sobrevivência de três deserdados pela vida, que, no entanto, não abrem mão de vivê-la da forma mais sublime que a pouca dignidade lhes permite. Malagueta é um velho experimentado nas durezas do cotidiano, Perus é um jovem espirituoso e algo romântico e Bacanaço, um malandro maduro e um aproveitador nato. Inveterados jogadores de sinuca (assim como o autor), gostam de apostar alto, não apenas no jogo de bilhar, mas também no pano verde da vida.
A obra de João Antônio é marcada por um realismo contemporâneo cru. Sua linguagem tende a um coloquial expressivo, no qual a dureza da fala se alia a um lirismo extraído do ritmo sincopado, duro, dos períodos curtos. Embora proporcione fácil assimilação, a prosa não abdica da densidade psicológica e filosófica que cerca seus personagens. Muitas das situações retratadas no texto foram inspiradas em acontecimentos verídicos, presenciados pelo autor na noite paulistana.
A composição de Malagueta, Perus e Bacanaço foi marcada por um fato trágico: em 1960, um incêndio causado por um ferro de passar roupa pôs temporariamente fim ao sonho da publicação de seu primeiro livro. Todos os manuscritos originais foram destruídos na ocasião, fato que levou o jovem João Antônio a entrar numa depressão profunda.
O amigo Mário da Silva Brito (o escritor foi um de seus maiores apoiadores, ao lado do editor Ricardo Ramos e do crítico Paulo Rónai) lhe conseguiu um lugar para trabalhar na sala 27 da Biblioteca Municipal de São Paulo, onde João Antônio reescreveu partes do livro. Após enfrentar novas dificuldades para encontrar uma editora, o autor finalmente pôde publicá-lo em junho de 1963.
A tarde do lançamento foi marcada pela presença indisfarçável daqueles que, em grande parte, serviram de inspiração para o autor. Prostitutas, malandros e boêmios fizeram questão de homenagear João Antônio, que, com sua primeiríssima obra, abocanhou dois prêmios Jabuti — de revelação e de melhor livro de contos. Ainda inédita, a obra já havia levado o prêmio Fábio Prado, no ano anterior.
João Antônio Ferreira Filho nasceu em 1937, filho de uma dona de casa semi-analfabeta e um pequeno comerciante português. Trabalhou como office boy, almoxarife e bancário. Desde cedo manifestou gosto pela literatura e pela boemia. Pressionado pela família para se tornar um “homem da sociedade", decidiu ingressar no curso de jornalismo. Sem concluí-lo, trabalhou nas revistas Realidade e Manchete, no Jornal do Brasil e no Pasquim (foi ele, aliás, o autor da expressão “imprensa nanica"). Morreu aos 59 anos, no dia 31 de outubro de 1996, em seu apartamento no Rio de Janeiro.
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