Cecília Meireles (1901-1964). É Mar Absoluto, que dá título à coletânea e exemplifica o "fluxo de inspiração espontâneo e disciplinado" atribuído a ela pelo crítico Otto Maria Carpeaux. Estudante de música especializada em voz e violino, a poeta compunha seus versos com o uso de abundantes assonâncias, aliterações e outros recursos sonoros e rítmicos. O resultado são versos em harmônica cadência musical, que não caem, contudo, na artificialidade parnasiana.
Nesse poema, o tema do mar, que já aparecera em Viagem (1939) e Vaga Música (1942), e as imagens por ele produzidas transmitem a subjetividade mutável do eu-lírico: "Foi desde sempre o mar,/ E multidões passadas me empurravam/ como o barco esquecido. (...) E tenho de procurar meus tios remotos afogados./ Tenho de levar-lhes redes de rezas,/ campos convertidos em velas,/ barcas sobrenaturais/ com peixes mensageiros/ e cantos náuticos.// E fico tonta./ acordada de repente nas praias tumultuosas. (...)/ Queremos a sua solidão robusta,/ uma solidão para todos os lados,/ uma ausência humana que se opõe ao mesquinho formigar do mundo,/ e faz o tempo inteiriço, livre das lutas de cada dia".
O mar aparece como metáfora do desapego ao tempo - aquele existe desde sempre, como afirma o primeiro verso do poema. Apresenta-se, também, como símbolo da ausência, um dos temas centrais da produção da autora. Para a professora Darlene Sadlier, "o que está perdido na vida vive através da essência do seu ser, que é sustentado pelo poeta na memória e no verso".
Tanto em Mar Absoluto como nos outros poemas do livro expressam-se a combinação de espiritualismo e materialismo e a fusão de passado, presente e futuro. A matéria poética está ligada a esse tempo, cujos espíritos estão presos num espaço além do reino da existência material, os problemas e as preocupações da vida diária. Quando se volta ao que passou, o fluxo das experiências vividas transparece apenas pela simbologia da perda, nostalgia e resignação. Afora essa atmosfera comum, esta coletânea possui outra vertente: os poemas de inigualável intensidade chamados Motivo da Rosa, que estão dispersos pelo livro e unem-se pela força estilística. Metáfora para a efemeridade, a flor é uma constante nos trabalhos de Cecília. O segundo desses motivos é dedicado a Mário de Andrade: "Por mais que te celebre, não me escutas,/ embora em forma e nácar te assemelhes/ à concha soante, à musical orelha/ que grava o mar nas íntimas volutas".
Cecília tinha muito pouco em comum com qualquer uma das vertentes modernistas e outros autores que lhe eram contemporâneos. Sua obra não se voltava ao tempo presente, atitude que não se estendia à atuação da escritora como educadora ou jornalista. Entre suas causas, estavam a universalização do ensino, a igualdade entre os sexos e a derrota do autoritarismo político que testemunhou.
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