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A idade das letras

Enquanto avança o processo de alfabetização, aproximar os pequenos dos livros pode fazer toda a diferença


Nova-Escola

01/06/2008 17:19

Texto
Débora Menezes

Foto: Fernanda Sá
Foto: Alunos de creche escrevem resenha

No Maranhão, jegues levam livros às crianças

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Roedores de Livros, Ceilândia, DF

Manhã quente em Ceilândia, cidade pobre e violenta a 26 quilômetros de Brasília. Cercado por crianças, o jornalista Tino Freitas começa a ler A Pior Mulher do Mundo, do mexicano Francisco Inojosa: "Era uma vez, no norte de Turambul, uma mulher malvada, a pior de todas que existem. Era gorda como um hipopótamo, fumava charuto e tinha os caninos pontiagudos. Além disso, usava botas de bico fino e tinha unhas compridas e afiadas, que adorava usar para arranhar as pessoas. Batia nos cinco filhos quando traziam notas baixas da escola e também quando tiravam dez. Castigava-os quando se comportavam bem e quando se comportavam mal. Espremia limão nos olhos deles, tanto se fizessem travessuras como se a ajudassem a varrer a casa ou lavar os pratos. Além de tudo isso, servia-lhes comida de cachorro no café-da-manhã". 

Freitas não transforma a leitura em uma peça de teatro. Lê, pausadamente, com a entonação e os gestos que a narração cheia de suspense pede. Aos poucos, algumas crianças que estavam sentadas começam a se levantar. Dão gritinhos de susto, querem ver os desenhos do livro, sentir as folhas de papel, entrar na história. É assim que o pessoal do projeto Roedores de Livros ajuda a desenvolver o gosto pela leitura num grupo de 40 estudantes de baixa renda. "Tem de começar devagarzinho, conquistando, até chegar o momento em que eles não vivam mais sem os livros", diz a coordenadora do Roedores, a arte-educadora Ana Paula Bernardes, que trabalha com formação de professores em literatura infantil. 

Todos os sábados, uma equipe de sete educadores voluntários se reúne com a garotada em um espaço comunitário em Ceilândia. Nesses encontros, eles lêem para a turma, sempre a estimulando a emitir opiniões, comentar as ilustrações ou se manifestar de qualquer outra forma. Depois, as crianças podem escolher um dos 50 livros disponíveis em um baú e ler sozinhas ou para os colegas. A programação ainda conta com uma oficina de artes, que tem as histórias contadas como tema motivador, e outra de brinquedos cantados, onde os participantes cantam, dançam e utilizam instrumentos musicais. 

O projeto Roedores de Livros nasceu em 2006, quando Ana e Tino descobriram que, na verdade, queriam trabalhar diretamente com os alunos, e não com professores. Primeiro, eles criaram uma pequena biblioteca em Brasília; depois, partiram para a atuação em Ceilândia, fazendo parceria com uma ONG. Convidaram pais a levar seus filhos, na base da propaganda boca a boca, e organizaram um grupo fixo de 40 crianças, que participavam de encontros semanais, o ano todo. As oficinas de arte e música complementam o projeto, mas sua principal característica é a mediação de leitura. "Existe uma interação com o livro. É ele o personagem principal, e não quem está contando a história", diz a educadora. "Ao ler em voz alta, o mediador transfere o centro das atenções para o objeto livro. As crianças interagem com ele, querem ver as ilustrações. Para elas, a história permanece ali, não vai embora com o mediador". 

A preocupação não é apenas a de abrir o livro e ler, afirma Tino Freitas. Há um preparo anterior, em que a condição fundamental é gostar de ler histórias, antes de saber contá-las. "Temos de procurar algo que desperte a fantasia das crianças e narrar com emoção". Em suas mediações, Tino percebe que contos de suspense e terror – com personagens que sofrem, mas se dão bem no final – são os preferidos. 

Os resultados são confirmados não apenas por educadores, mas também por familiares: ao final de cada sábado, crianças como Ana Letícia da Silva, 9 anos, escolhem um dos 400 livros do acervo (doados por voluntários e outros parceiros do projeto) e levam para casa, em uma singela sacolinha de pano – que as instiga a cuidar dele com carinho. "Já faz um ano que Ana freqüenta o projeto, e percebi que ela está lendo melhor na escola", diz a avó da menina, Maria Emília da Silva. "É bom acompanhar uma turma o ano inteiro para perceber como ela mudou, para melhor", afirma a coordenadora Ana Paula. "Até o comportamento se transformou: no início, algumas crianças eram briguentas, mas foram ficando mais atentas e tranqüilas". Segundo a educadora, a garotada atendida pelo projeto trocou, pelo menos em alguns momentos da semana, a brincadeira na rua pela leitura. "O sonho, agora, é ampliar o projeto, quem sabe abrindo a biblioteca também durante a semana".

1) Borrachalioteca (MG)
2) Roedores de Livros (DF)
3) Projeto Casulo (SP)
4) Jegue-livro (MA)


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