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PROJETOS

Semeando o futuro

Ao encurtar a distância entre adolescentes e livros, projetos de incentivo à leitura abrem caminhos para jovens em todo o país


01/06/2008 16:52
Texto Mariana Sgarioni
Nova-Escola
Foto: Google Images
Foto: Aluna no Caminhão Biblioteca
 

Ler é importante porque, com poder de reflexão mais apurado, o adolescente usa o livro para ampliar a capacidade crítica - não apenas em relação à obra, mas também às questões do mundo. O jovem tende a se interessar por um único autor ou uma série com os mesmos personagens. A leitura que foge a essa regra amplia os horizontes. Nesse processo, é importante que o adulto interfira, apresentando livros que o jovem não escolheria por conta própria.

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Projeto Mudando a História: multiplicando a leitura

Quando o século 21 chegou à pequena comunidade ribeirinha de Nossa Senhora de Fátima, a 20 minutos de barco de Manaus, o futuro ainda parecia distante, bem distante. Principalmente para a parcela mais jovem da população. O número de crianças e adolescentes fora da escola, se não era alarmante, podia ser considerado no mínimo preocupante. E a perspectiva de dias melhores não empolgava nem aqueles que freqüentavam as salas de aula: entre os que estudavam, poucos já tinham lido um livro na vida. Essa situação só começou a ser alterada quando alguns moradores, agentes de saúde e até policiais se reuniram em torno de um objetivo em comum: incentivar a leitura justamente entre aqueles que construiriam o futuro da comunidade. A iniciativa partiu da assistente social Karla Virgínia Cavalcanti Monteiro, que se encantou com o Mudando a História, da Fundação Abrinq, e entrou em contato com a coordenação do projeto, em São Paulo, solicitando uma visita. Em pouco tempo, o programa já estava implantado no vilarejo. 

A proposta do Mudando a História é dar aos próprios jovens a oportunidade de atuar como mediadores e multiplicadores de leitura. Funciona mais ou menos assim: meninos e meninas entre 13 e 15 anos são identificados e recrutados nas escolas das cidades atendidas. Devidamente capacitados, eles passam a promover atividades em salas de aula, sempre para crianças menores. Os pequenos escolhem um livro e os jovens lêem para eles. "O adulto serve apenas como apoio, uma referência, sem jamais interferir", explica Maria do Carmo Krehan, coordenadora do projeto. 

Implementado em 2001, hoje o Mudando a História está presente em dez localidades, em parceria com organizações sociais de Manaus e da região metropolitana de São Paulo. O projeto conta ainda com quatro instituições parceiras nas cidades de Mogi Mirim e Bauru, a 160 e 345 quilômetros de São Paulo, respectivamente, e em Parati, no litoral do estado do Rio de Janeiro. Somente no ano passado, foram formados 99 multiplicadores e 1 110 mediadores de leitura. Juntos, eles organizaram sessões de mediação para outros 11 mil adolescentes e crianças. Paralelamente a esse trabalho, um programa-piloto em quatro escolas públicas das cidades de São Paulo e Manaus foi desenvolvido com o objetivo de testar a possibilidade de estender o projeto para o sistema público de ensino. A idéia, segundo os coordenadores, é contribuir para formar crianças e adolescentes como leitores, além de desenvolver jovens capazes de realizar intervenções e transformações sociais positivas. No total, 94 alunos das 7ª e 8ª séries do Ensino Fundamental, todos com idade entre 13 e 15 anos, realizaram sessões de leitura para 460 crianças da 1ª série e da Educação Infantil. 

Uma pesquisa feita pela Fundação Abrinq em 2007 mostra que os participantes do Mudando a História correspondem às expectativas de seus idealizadores e lêem muito mais que maioria dos jovens brasileiros. De acordo com o estudo, eles leram, apenas entre os meses de janeiro e junho do ano anterior, quase 90 livros em média. E mais: os familiares dos mediadores de leitura capacitados pelo projeto também estão felizes da vida. Aproximadamente 70% deles afirmam que toda a família passou a ler mais; e cerca de 90% disseram que o jovem começou a ler em casa para outras pessoas - geralmente os irmãos mais novos, os primos e os vizinhos. "Todo o processo é conduzido pela garotada, incluindo os cursos de capacitação. O objetivo é desenvolver certas habilidades fundamentais, entre elas a facilidade de comunicação, o trabalho em equipe e a capacidade de enfrentar adversidades ou solucionar problemas", diz a coordenadora Maria do Carmo.

SuperAção Jovem: nas mãos dos jovens

Ser, conviver, conhecer e fazer. Esses quatro verbos norteiam o programa SuperAção Jovem, um projeto de fomento à leitura desenvolvido pelo Instituto Ayrton Senna. Ele abrange 1615 escolas públicas de São Paulo, Distrito Federal, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul, com a participação de 218 mil alunos. A proposta é levar para a sala de aula um cardápio de livros que sejam instigantes, deixando que o próprio jovem assuma as tarefas de escolher o que ler e mobilizar os colegas em torno da leitura. O boca a boca entre alunos costuma funcionar, e muito. Segundo Wania Weingartner, coordenadora do programa em Mato Grosso do Sul, a maioria vai atrás de um livro indicado por outro colega. 

Simone André, coordenadora da área de juventude do Instituto Ayrton Senna, completa: "Percebemos, por meio de algumas pesquisas, que os jovens não apreciam as leituras obrigatórias por não verem sentido nelas. Além disso, eles gostariam de interferir muito mais nas bibliotecas da escola". Pois foi exatamente o que o projeto tratou de fazer: deixou que os próprios adolescentes escolhessem. O resultado, de acordo com Simone, é impressionante. "Essas pesquisam indicam que os participantes do programa costumam ler três vezes mais que a maioria dos jovens brasileiros". 

Mas essa vitória não se deve apenas à maior liberdade concedida aos jovens na hora de escolher o que ler. O SuperAção também realizou um estudo para identificar o que costuma afastar os alunos dos livros. Por exemplo: na EE José Barbosa Rodrigues, em Campo Grande, MS, o grande vilão vinha sendo o computador. "Começamos, então, a mostrar aos alunos que a internet tem outros recursos além de sites de relacionamento e bate-papo. Dá para fazer pesquisas, ler notícias, outros tipos textos...", diz a professora Giani de Oliveira Costa, orientadora do SuperAção. "O segredo é fazer da tecnologia uma aliada". 

A professora afirma que ela mesma passou a ler mais depois de se tornar orientadora. E aposta no efeito transformador da leitura ao lembrar-se de casos como o de um aluno que, aos 16 anos, era violento e completamente desinteressado dos estudos. Então, a professora convidou-o para liderar o programa de leitura. Depois de muita conversa, o rapaz finalmente topou. Hoje, ele é referência na escola. Já decidiu fazer uma faculdade e acabou se engajando numa série de outros projetos sociais - de reciclagem de lixo a grupos amadores de teatro.

Arca das Letras: sexta-feira da leitura

"Olha, tia, venha ver. De tanto olhar os livros, já sei juntar as letras!" Ninguém acreditou na menina de 13 anos da comunidade quilombola Onze Negras, em Cabo de Santo Agostinho, a 39 quilômetros de Recife. Afinal, ela ainda nem tinha sido alfabetizada. Mas era a mais pura verdade: ao passar horas e horas mergulhada em livros - e com uma ajudinha aqui, outra acolá -, acabou entendendo de que maneira as palavras se formam. Seu primeiro contato com a leitura só foi possível graças ao Arca das Letras, um programa do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) que leva bibliotecas para áreas rurais. A proposta é facilitar o acesso aos livros em assentamentos de trabalhadores sem-terra, pequenos povoados estruturados em torno da agricultura familiar e comunidades quilombolas, indígenas e ribeirinhas. "Já implantamos 4 812 bibliotecas em comunidades de quase 1 600 municípios Brasil afora", comemora Cleide Soares, coordenadora geral de ação cultural da Secretaria de Reordenamento Agrário, que faz parte do MDA. 

A Arca das Letras nada mais é que um pequeno móvel, espécie de caixa-estante que deixa os livros à mostra em pontos de encontro ou locais de reunião de cada comunidade - a associação dos moradores, por exemplo. Em Onze Negras, o acervo possui cerca de 200 livros. Os temas são extremamente variados. Alguns livros tratam de interesses específicos da comunidade, como cultivo de ervas medicinais e técnicas de agricultura familiar. Mas há também obras de referência, que facilitam pesquisas escolares, e livros de contos, romance, poesia... um pouco de tudo. Os jovens da comunidade chegam a fazer fila diante da arca, especialmente quando a escola local promove a Sexta-Feira da Leitura. Os estudantes vão até a associação, retiram os livros, lêem e depois discutem os textos em sala de aula.
 
"Antes, a gente tinha de viajar meia hora numa Kombi só para fazer uma pesquisa. Agora, ficou bem mais fácil", diz a agente de leitura Juliana José da Silva, que cuida da retirada dos livros. "Quando a gente lê, desenvolve a mente. Em vez de ficar pensando besteira, prefiro pegar um livro". Juliana diz isso porque jovens ociosos eram figurinhas fáceis na comunidade. Mas tudo mudou depois da chegada da arca. Segundo Maria José da Silva Barros, presidente da associação de moradores, até a evasão escolar diminuiu. Andreza Marques da Silva, 14 anos, é uma assídua usuária da arca. Ela e seus cinco irmãos fazem empréstimos quase todos os dias. "Adoro histórias em quadrinhos e livros de pegadinhas. Responda rápido: o que é pior do que encontrar um tigre? É ele encontrar você primeiro".

Programa de Leitura Petrobrás: Biblioteca sobre rodas

Curiosidade é a primeira reação dos jovens cada vez que um caminhão-baú do Programa de Leitura Petrobrás - uma parceria da estatal com a ONG Leia Brasil - estaciona em frente a uma escola. Primeiro, porque a visita é sempre uma festa, literalmente. A direção da escola, já ciente da chegada do caminhão, dedica o dia todo à recepção do veículo. Quando as portas da carroceria se abrem, surge uma grande biblioteca com os mais variados títulos infanto-juvenis, dispostos de forma bem visível. A turma entra e escolhe à vontade o que quer ler. 

"A idéia é mesmo chamar a atenção, para que todos se envolvam e participem. Um jovem só vai ler se for estimulado, se tiver a curiosidade instigada", diz Telma Santos da Silva, pedagoga e coordenadora do programa em Sergipe. Nesse estado, os caminhões-biblioteca atendem 26 municípios - todo dia eles visitam uma escola diferente. Esses caminhões realmente impressionam os jovens, sobretudo nas cidades menores. Em muitas delas, os próprios moradores, ao verem o entusiasmo dos estudantes, se mobilizam e doam livros para as bibliotecas das escolas locais. "Todo mundo se empolga. Outro dia, um grupo de adolescentes entrou num caminhão e escolheu uma coletânea de livros que falavam dos sete pecados capitais", lembra Telma. "Depois de lerem, eles organizaram sete equipes e montaram uma peça de teatro. Sozinhos, sem a ajuda de nenhum adulto".

Ler é Preciso: Ler e escrever

O programa Ler é Preciso, desenvolvido pelo Instituto Ecofuturo, vai além do incentivo à leitura e também estimula a escrita. Tudo começa nos primeiros contatos do público-alvo com os livros. O programa já implementou 70 bibliotecas comunitárias no Brasil inteiro, em sete estados, com acervos de literatura infanto-juvenil. Elas são instaladas preferencialmente em regiões com baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e altos índices de violência. No total, foram doados até agora mais de 116 mil livros. Cada biblioteca do Ler é Preciso conta com uma média de 850 usuários por mês. Depois de facilitar o acesso às obras literárias, vem o estímulo à escrita. A cada dois anos, o instituto promove um concurso nacional de produção de textos. O Ecofuturo encaminha materiais de apoio às escolas, sugerindo que os professores orientem a leitura, promovam discussões sobre o tema e, finalmente, incentivem a turma a escrever. No ano passado, sob o tema "O Melhor Lugar do Mundo", foram cerca de 30 mil inscritos.
 
"Temos recebido ótimos textos dos mais variados lugares do Brasil, desde escolas particulares de classe alta de São Paulo a escolas públicas do interior do Pará", diz Christine Castilho Fontelles, do Ecofuturo. Ela destaca o caso do menino Marlon Washington Rocha Silva, hoje com 15 anos, de Oriximiná, a 818 quilômetros de Belém. Até os 8 anos, Marlon nunca tinha posto os pés num estabelecimento de ensino. Um dia, resolveu acompanhar algumas crianças que estavam a caminho da escola e acabou dentro de uma sala de aula. Gostou do ambiente, que lhe pareceu divertido e acolhedor, e pediu autorização para ficar por ali. A diretora da escola, comovida, doou todo o material escolar para Marlon, conversou com sua família e, a partir de então, o garoto passou a freqüentar as aulas. Hoje, ele é um aluno exemplar, e foi um dos vencedores do concurso de produção textual do Ecofuturo em 2007.
 
"Os textos de muitos dos jovens participantes, assim como o de Marlon, retratam a realidade, muitas vezes sofrida. Mas sempre com bom humor e otimismo, inclusive apontando soluções", diz Christine, que no último concurso sugeriu que os textos fossem redigidos em forma de diário. "O texto em formato de diário se assemelha a um bate-papo que retrata bem o adolescente. Essa é uma fase de dúvidas, questionamentos, coisas que invariavelmente aparecem nos diários".


 

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