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LITERATURA

Memórias Póstumas de Brás Cubas

Com uma obra sobre um "Autor que é Defunto ou um Defunto que é Autor", Machado de Assis revolucionou a literatura brasileira


11/07/2011 18:57
Texto Daniel Schneider e Thiago Minani
Bravo
Foto: Valeria Simões/Divulgação
Reginaldo Faria interpretando Brás Cubas
Reginaldo Faria interpretando Brás Cubas no filme baseado na obra de Machado de Assis

O romance Memórias Póstumas de Brás Cubas (de 1881), de Machado de Assis, foi o texto que inaugurou o padrão moderno nas letras nacionais. Bebendo nas águas tanto do Realismo quanto do Romantismo, com influência de prosadores ingleses e franceses do século 18, mas, sobretudo, escrevendo com grande independência e originalidade, Machado de Assis criou com este livro a ponte que uniu o passado ao futuro na nossa literatura. 

A razão para esse salto qualitativo deve ser buscada nas inovações formais deste romance, o primeiro da chamada fase realista de sua obra. A história é simples, até corriqueira. Brás Cubas, legítimo representante da nossa oligarquia patriarcal, vive sua vida e morre. Na condição privilegiada de autor-defunto ou de defunto-autor, decide escrever suas memórias. Nosso herói corteja uma jovem humilde; é designado pelo pai a uma moça rica, que, porém, casa-se com outro e depois cai nos braços de Brás; torna-se deputado, mas não consegue virar ministro. Também faz amizade com um antigo companheiro de colégio, Quincas Borba, que inventa uma teoria pseudofilosófica chamada Humanitismo, arremedo das teorias cientificistas em moda na época. Brás sonha lançar no mercado um emplastro milagroso, um suposto tônico anti-hipocondríaco que lhe traria fama, mas morre antes de concretizar essa meta. 

O enredo, portanto, não gera maior interesse. O que está em jogo é a maneira como a narrativa é alinhavada, num ágil ir-e-vir típico do movimento da memória, em que os fatos vêm intercalados por comentários, alusões e citações; tudo isso embalado por uma nuvem de humor melancólico. É nessa forma, incomum para a época, que precisamos buscar as chaves para a interpretação do romance. Como nas narrativas modernas, o que interessa não está exatamente na história, mas no que se encontra por baixo, no subentendido, nas camadas ocultas de significado. Os críticos atuais de Machado gostam de chamar esse exame em profundidade de "leitura a contrapelo ou ao arrepio". Ao pé da letra, significa que vamos andar pelo caminho contrário, ou seja, que devemos passar o pente de nossa apreciação no sentido oposto ao do significado literal.

 


E o que encontramos? Descobrimos um narrador caprichoso, de quem devemos desconfiar. Com a liberdade que lhe outorga seu estado de autor póstumo, Brás Cubas manipula os fatos num anarquismo apenas aparente: quando lemos o livro com atenção, percebemos como essa volubilidade trai seu compromisso com a classe dominante, a que se filia. Brás quer crer-se sensato em sua visão irônica e pessimista da vida. No fundo, sem querer e sem saber, deixa-nos deslumbrar sua condição de representante de uma burguesia leviana, que, desperdiçada sua existência em diversões fúteis e ambições mesquinhas, procura justificar-se diante de um hipotético leitor. Isso, é claro, não está em evidência. Uma das supremas originalidades do romance, que equipara Machado, por isso, aos grandes romancistas de sua época, reside no fato de haver um sentido escondido, que precisa ser descoberto pelo leitor no espaço que se abre entre o que descreve o narrador e o que o autor permite entrever a respeito do estado de coisas descrito. 

A crítica velada, mas feroz, que Machado faz à burguesia desautoriza a crítica de muitos de seus contemporâneos (e uns poucos atuais), que atacavam a relutância do escritor em abordar mais abertamente as questões sociais, como a escravidão. O crítico sergipano Sílvio Romero chegou a chamá-lo de "capacho de todos os governos". Por outro lado, a fama de autor elegante e irônico angariou admiradores mesmo entre os que não se interessavam em ir mais fundo na interpretação de suas histórias. 

Joaquim Maria Machado de Assis nasceu em junho de 1839. Filho de família humilde, ele foi criado pela madrasta, com a morte prematura dos pais. Ela era negra, assim como seu pai, um mulato "livre". Por meio de seu talento e perseverança foi ascendendo na carreira, primeiro nos jornais, depois, em cargos públicos. Machado de Assis fundou e presidiu a Academia Brasileira de Letras. Nunca saiu do Rio de Janeiro. Morto em 1908, foi sepultado com honras civis e militares — homenagem então inédita a um homem das letras.

 


Um mestre do conto 

A influência de Machado de Assis se estende para muito além dos romances. Machado não é somente o grande romancista da literatura brasileira, um dos maiores de seu tempo no mundo todo, mas também se revela autor dos mais bem-acabados contos escritos em língua portuguesa. Entre suas obras-primas estão Conto de Escola, O Enfermeiro, A Sereníssima República, A Cartomante, A Causa Secreta, O Espelho, Uns Braços e O Alienista, embora este último, por seu tamanho mais alongado, costume ser classificado como novela. 

Em todos, evidencia-se o talento de Machado em criar situações nas quais o assunto narrado, exteriormente bastante simples, abre-se para múltiplas camadas de significado cuja repercussão é universal. Os temas abrangem a crítica ao cientificismo, o estudo da ambigüidade essencial nas relações humanas, o exame do poder esmagador das instituições e a observação da eterna e cruel dominação do homem pelo homem. 

O chamado Bruxo do Cosme Velho (referência ao bairro carioca, onde ficava a residência de Machado) exerceu outras atividades literárias, com resultado artístico variável, como os poemas contidos em Crisálidas (1864) e Poesias Completas (incluindo Ocidentais, de 1901). Sobre as peças de teatro, quase todas escritas nos anos de 1860 — como O Protocolo, Quase Ministro, Os Deuses de Casaca e Lição de Botânica —, o jornalista e escritor Quintino Bocaiúva declarou: "São para serem lidas e não representadas". Outra atividade que Machado exerceu durante vários períodos de sua carreira foi a de cronista, colaborando para os periódicos Gazeta de Notícia, A Semana e Jornal do Commercio. A série intitulada Bons Dias! (que começa com estas palavras), escrita em 1888 e 1889, ou suas Balas de Estalo (entre 1883 e 1886) têm o mesmo estilo irônico da grande fase pós-Memórias Póstumas e mostra como Machado estava atento às sutilezas do cotidiano político. Embora tenha desempenhado a crítica apenas no início da carreira, Machado escreveu textos que são comentados até hoje. O Princípio da Nacionalidade e A Nova Geração, por exemplo, apontam os limites do Realismo e atacam o nacionalismo de fachada na qualificação da obra literária.

 


A crítica estrangeira exalta o "Bruxo" 

Não é de hoje que a crítica internacional se debruça sobre a obra de Machado. Os estudos da americana Helen Caldwell, Machado de Assis e O Otelo Brasileiro de Machado de Assis, este último sobre Dom Casmurro, publicados nos anos de 1960, são referência para os estudiosos. Antes dela, o historiador das letras Samuel Putnam estabelecera, já em 1948, a semelhança entre o escritor e o romancista americano Henry James. O problema é que, até mais recentemente, a língua constituíra um entrave à "descoberta" internacional de Machado. A estudiosa Caldwell mostra que, em 1960, havia apenas três traduções em inglês, em edições modestas da década anterior, de romances do autor. Conforme indica o subtítulo de uma estudiosa atual de Machado, a professora Daphne Patai, da Universidade de Massachussets, o escritor sofreu a sina de ser "um mestre escrevendo numa língua ‘menor’". 

O preconceito contra o português como idioma literário começou a perder força na medida em que obras do mestre passaram a ser traduzidas, a partir dos anos de 1980. Vários estudiosos, nos Estados Unidos e na Inglaterra, como Earl Fitz, Arthur Brakel e John Gledson, também começaram a escrever obras importantes sobre o brasileiro. 

Em artigo para a revista New Yorker, de maio de 1990, a autora americana Susan Sontag definiu Machado como "o maior escritor já produzido na América Latina". Em seu recente Gênio — Um Mosaico de Cem Mentes Exemplares e Criativas, o crítico Harold Bloom põe o autor definitivamente no cânone mundial. Os escritores Carlos Fuentes, Cabrera Infante, Salman Rushdie e o cineasta Woody Allen também declararam seu apreço pelo ficcionista. Segundo alguns desses admiradores, Machado rompeu com as convenções literárias de sua época, ampliando os recursos artísticos e antecipando os procedimentos modernos do século 20. Earl Fitz, por exemplo, compara-o a Tchekhov, a Proust, a Thomas Mann e a James Joyce, "artistas que combinam a representação psicológica com técnicas de corte tanto realista quanto simbolista na criação de uma nova literatura para uma nova era".


 

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