O francês André Gide (1869-1951) não era um escritor para mentes cativas. Acusado de complexo, barroco, hermenêutico, chegou a dizer que Os Moedeiros Falsos, de 1926, era seu único romance.
Nele, Gide utiliza uma imagem concreta (pequenos fora-da-lei que falsificam dinheiro) como metáfora para traduzir as relações humanas, frequentemente pervertidas por mal-entendidos e erros de compreensão. Essa é a "moeda falsa", que engana as pessoas nas relações mercantis, no amor, na vida - e falsifica completamente todas as relações.
Ambientado em Paris no início do século 20, Os Moedeiros Falsos narram a vida de dois jovens e um homem de meia-idade, Édouard - cujo objetivo maior é justamente escrever um romance chamado Os Moedeiros Falsos. O título homônimo é mais que um jogo de palavras. Um dos aspectos mais relevantes da obra de Gide está na utilização de uma estrutura heráldica, "em abismo", em que uma estrutura se projeta na outra como metáfora. No caso, o protagonista escreve um livro que é, na verdade, a obra final do autor - e suas dificuldades são nada menos que as do protótipo de escritor moderno.
Algo que Shakespeare fizera com Hamlet (que encena uma peça na narrativa da peça) e Velázquez com o quadro As Meninas (ao se projetar dentro do quadro, retratando-se como o verdadeiro ato de pintar). Como diria o crítico Silviano Santiago, "a profundidade nasce dos reflexos de uma narrativa sobre ela mesma, de um personagem sobre ele mesmo, de um ponto de vista sobre outro semelhante".
Os temas do desejo, do toque, do homoerotismo, que sempre acompanharam Gide, estão nessa obra mais destacados que nunca - mas de maneira delicada, suave, complexa. Nas palavras do protagonista Édouard: "Meu coração só bate por simpatia; vivo apenas por outrem; por procuração, poderia dizer, por núpcias, e é quando saio de mim mesmo para me tornar qualquer um que sinto viver mais intensamente que nunca".
Segundo o crítico francês Alain Goulet, autor de Moedeiros Falsos: Modo de Usar, existe no romance, de um lado, o desejo, com todas as suas qualidades e consequências, e, de outro, o toque, uma etapa do desejo que tenta se apropriar de seu objeto. Gide, porém, parece ter conseguido justamente realizar algo de grande delicadeza, de forma que um leitor desavisado pode, por exemplo, ler e reler passagens de alta sugestão erótica sem se dar conta de que Gide está tratando do homoerotismo, que o desejo está desempenhando papel principal na cena.
Seis personagens vivem conflitos de gerações, sofrem de amor e ciúme, tecem histórias entrecruzadas e com múltiplas perspectivas. Não há, porém, uma moral comum, todos os finais de obra do escritor francês se assemelham, ao jogar ao leitor o leitor o fardo de compreender a mensagem da história.
André Gide conseguiu, enfim, completar seu programa de criações a favor da causa da homossexualidade com duas obras complementares: Córidon (1926) e Se o Grão não Morre (1884). Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1947.
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