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Monteiro Lobato: o pai do faz-de-conta nacional

O autor continua a se fazer ouvir em época de diversão eletrônica. Suas histórias são imperdíveis e o “lobatólogo” Vladimir Sacchetta explica o motivo


22/04/2015 14:19
Texto Marion Frank
Educar
Foto: Benedito Junqueira Duarte
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"Monteiro Lobato era do tipo inquieto, alguém que tinha interesse por tudo", diz Vladimir Sacchetta

Muito antes de se falar em ecologia, Monteiro Lobato chamava a atenção, em meados de 1910, denunciando as queimadas no interior paulista pelas páginas de um jornal. O autor de Reinações de Narizinho queria um Brasil forte, justo - e, ao longo da vida (1882-1948), defendeu a prospecção do petróleo, a implantação de medidas sanitaristas ou a causa que entendia necessária para o progresso do País. Conseguiu irritar governos e interesses estrangeiros, sendo preso mais de uma vez. Um polemista, em síntese.

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Lobato amava o Brasil - e amava demais as crianças. A ponto de ter produzido, com prosa fácil e imaginação ilimitada, dezenas de histórias ambientadas em um universo particular, o Sítio do Picapau Amarelo - é considerado o criador da literatura infanto-juvenil brasileira. "Lobato é o nosso La Fontaine, o pai do faz-de-conta nacional", define Vladimir Sacchetta que escreveu, ao lado de Carmen Lucia de Azevedo e Marcia Camargos, "Monteiro Lobato, Furacão na Botocúndia" - espécie de Bíblia sobre vida e obra do escritor nascido em Taubaté (SP). "Ser ‘lobatólogo’ é uma militância", admite. "E o Brasil tem de se orgulhar de Lobato."

Vladimir Sacchetta desafia quem consiga encontrar uma criança que não esteja de algum modo familiarizada com a Emília, o Pedrinho, a Narizinho ou outro morador do sítio. "São personagens que já pertencem ao nosso imaginário infantil", diz. Também tem certeza de que o interesse da garotada por essas histórias continua incólume, mesmo em época dominada pela tecnologia. "Pode ocorrer certa dificuldade para entender palavras em desuso, mas até isso é importante porque estimula a consulta ao dicionário", comenta. Só demonstra impaciência, quando lembra que a obra de Lobato correu risco, em 2011, de ser banida das escolas em razão do tratamento "preconceituoso" à raça negra que aparece em certos trechos. "É uma grande bobagem ler as má-criações que a Emília fazia com a Tia Nastácia, em histórias escritas na década de 30, com os olhos de hoje", alerta. "O educador não deve alterar, mas sim explicar para a criança que fazer isso é inadmissível nos dias atuais." Exatamente o que o Conselho Nacional de Educação recomendou ao encerrar a discussão: o uso do bom senso pelo professor em sala de aula, contextualizando o que há de polêmico na obra de Monteiro Lobato.

A seguir, os destaques da entrevista de Vladimir Sacchetta, concedida ao Educar para Crescer em agosto de 2011.

Para ler, clique nos itens abaixo:
1. Por que é importante ler Monteiro Lobato?
Vladimir Sacchetta: Monteiro Lobato tem importância hoje e sempre, ele é o criador da literatura infanto-juvenil brasileira, o pai do faz-de-conta nacional. Até então você tinha traduções malfeitas - e com linguagem indigesta para a meninada - de histórias ambientadas na Europa e que nada tinham a ver com a brasilidade, com o nosso imaginário e folclore. Monteiro Lobato percebeu o problema, quando seus filhos estavam crescendo e não tinham nada para ler... E o que ele faz? Pega as lembranças do menino que cresceu no Vale do Paraíba, lembranças do que ouviu das suas amas de leite - Lobato nasceu em berço esplêndido, seu avô, Visconde de Tremembé, tinha grandes extensões de terra... -, ele pega tudo isso e quase aos 40 anos, em 1920, lança "A Menina do Narizinho Arrebitado", livro que dá partida para a saga do Sítio do Picapau Amarelo e seus personagens.
2. Mesmo no século 21, as histórias de Lobato continuam imperdíveis?
Vladimir Sacchetta: Claro, até porque alguns dos personagens de Monteiro Lobato fazem parte do imaginário infantil, qualquer criança já ouviu falar da Emília ou viu uma adaptação do Sítio para a TV... São histórias transmitidas do avô para o pai, dele para o filho e assim por diante. E não perdem o interesse para a garotada mesmo apresentando vocabulário pouco utilizado, afinal, até isso é importante, no meu entender, porque estimula a pesquisa no dicionário... Trata-se de uma literatura que, com a mediação do professor ou mesmo dos pais, pode se tornar algo muito rico - fazer uma criança entender, por exemplo, a diferença entre um Saci e uma bruxa do Halloween.
3. São 31 títulos infanto-juvenis, obra extensa... Por onde você sugere começar?
Vladimir Sacchetta: A reedição da obra completa de Monteiro Lobato, tanto a infantil quanto a adulta (composta de 25 títulos, por sinal), começou em 2007 e se encontra em fase final. Foi um modo de celebrar o 125º aniversário de nascimento do escritor pela Editora Globo - e também explorar esse negócio altamente viável. Se pudesse encaminhar uma sugestão de leitura inicial para as crianças, ela seria "Reinações de Narizinho", meninos incluídos. É o livro mais conhecido, com histórias que podem ser lidas em conjunto ou separado - o que até então, 1931, era inédito na nossa literatura.
4. Diz-se que Lobato tomava iniciativas ousadas sem pestanejar - lenda ou verdade?
Vladimir Sacchetta: Veja, Monteiro Lobato era do tipo inquieto, alguém que tinha interesse por tudo. Ao longo da vida foi uma espécie de marco zero em várias atividades - como, por exemplo, ter sido o precursor da literatura paradidática, hoje instrumento de educação dos mais utilizados. Lobato inventa esse estilo a partir das reclamações em carta que recebe das crianças - elas escreviam muito para ele que, por sua vez, dava muita atenção à correspondência, estimo que ele respondia de 30 a 40 cartas por dia! As crianças diziam que a gramática era chata, a aritmética, difícil, e então ele resolveu escrever vários livros ("Emilía no País da Gramática" e "A Aritmética da Emília", por exemplo) de forma a resolver essa "chatice escolar". A criançada também dava palpite nas histórias e ele estava aberto a todas as sugestões.
5. Monteiro Lobato escrevia rápido?
Vladimir Sacchetta: Sim, era um escrevinhador compulsivo - e também um leitor voraz. Conhecia todos os escritores importantes da literatura infanto-juvenil mundial, de Esopo e La Fontaine aos irmãos Grimm, Hans Christian Andersen e Lewis Carroll (aliás, Monteiro Lobato pertence a esse panteão de fabulistas, ele é o nosso La Fontaine!) Inglês, ele nunca falou direito, sempre manteve o sotaque caipira, mas foi tradutor da obra do americano Mark Twain; na verdade, ele dizia que não traduzia, mas sim fazia uma "ordenação literária" - o que fazia era mesmo copy desk no texto fosse de quem fosse (e era muito criticado por isso!), conseguindo transformar as personagens mais próximas de um Pedrinho dos trópicos do que dos meninos do Mississipi (caso da obra de Mark Twain). Fez isso até com Hemingway - era mesmo muito atrevido!
6. Que formação Monteiro Lobato teve?
Vladimir Sacchetta: Ele se formou em Direito por imposição do avô, freqüentando a escola do Largo do S. Francisco, na capital paulista. Depois, com a morte desse avô, herdou as terras dele, virou fazendeiro e quase morreu de tédio como promotor público em Areias, ao pé da Serra da Bocaina (SP). Mais tarde, se desfez das propriedades e, com o dinheiro da venda, comprou a Revista do Brasil - é quando nasce o Lobato editor. E, de novo, se mostra pioneiro da indústria editorial moderna ao criar um sistema de distribuição e venda, a mala direta e a consignação. Como o número de livrarias era mínimo naqueles anos 20, ele queria contar com mais pontos de venda por todo o País, afinal, para Lobato, livros poderiam ser vendidos no armarinho, na farmácia etc. Era capaz de pensar a literatura como um negócio, não era só fantasia, não.
7. E quando os livros de Lobato começam a ter grandes tiragens no Brasil da época?
Vladimir Sacchetta: Nos anos 40, os livros de Monteiro Lobato já acumulavam vendas de 1 milhão de exemplares sobretudo no Brasil - sim, porque ele também fez sucesso na Argentina, chegou a viver dois anos em Buenos Aires e era muito festejado pelas crianças de lá... Ele formou leitores desde 1920, claro, crianças que não tinham os brinquedos eletrônicos de hoje, nem TV, só rádio... Lobato entrou na minha vida quando criança, eu li todos os livros dele, meu pai sempre me estimulou muito a ler desde cedo - havia muito livro em casa. E hoje tem criança que vive em casa sem livro, o que é arrepiante! Acredito que o livro tem de viver harmoniosamente com todos esses botões, aparelhos e traquitanas eletrônicas. E aí entra o papel do educador para incentivar a garotada nesse sentido, aproximá-la dos livros.
8. Quais são as personagens principais do universo criado por Monteiro Lobato?
Vladimir Sacchetta: A Emilia, boneca costurada pela Tia Nastácia (a mãe dela, portanto) é o alter ego de Monteiro Lobato - e esteve presente em todos os momentos do escritor. Irreverente, faz o que lhe dá na veneta e é impossível não se apaixonar por ela. Já o Saci é personagem que Lobato conhecia desde o tempo que ouvia as negras da fazenda contando histórias... Um mito que nasce índio, depois é incorporado pelos negros africanos e que ainda vai sofrer influências dos imigrantes do século 19, quando põe na cabeça o barrete frígio. O Saci incorpora a identidade nacional, é muito bonito. Aliás, Lobato começou a se interessar em fazer do Saci personagem de livro depois de um passeio pelo Jardim da Luz, no centro de São Paulo. Era um dia de calor e ele reparou, no parque, nas esculturas de duendes - que país tropical era esse, ele se perguntava, capaz de usar aquele imagem tendo uma mitologia tão rica!
9. Há em tudo o que ele escreve e faz o amor pelo Brasil?
Vladimir Sacchetta: Ele tem um projeto nacionalista, do qual o Saci faz parte, que vai carregar por toda a vida. No Estado de S. Paulo, onde foi jornalista na década de 10, escreveu artigos propondo que os mitos brasileiros deveriam fazer parte do currículo escolar, veja só a grandeza do pensamento dele! Também defendeu o meio ambiente de modo inédito, ele dizia que o homem era o único ser capaz de destruir o ambiente onde vive... O primeiro artigo que o projeta na grande imprensa se chama "Uma Velha Praga" e fala sobre as queimadas no vale do Paraíba, tempo da fazenda que ele tinha por lá. Lobato enviou uma carta, indignado, ao Estadão - e ela foi publicada não na seção de Cartas, mas sim no corpo do jornal, isso, em 1914. Era o início de sua vida de jornalista.
10. Na biografia de Lobato, chama a atenção o fato de ter trabalhado em Nova York...
Vladimir Sacchetta: Lobato vai para os Estados Unidos em 1927, como adido comercial a serviço do consulado brasileiro em Nova York. Lá ele fica até o início de 1931 (com a Revolução de 30, é exonerado do cargo). É outro momento importante da vida dele, quando conhece o metrô, o cinema falado, o jazz, a indústria automobilística etc., acontece um nó na cabeça dele - e que só estimula as ideias que já tinha na cabeça, como a de que as bibliotecas deveriam ser interligadas por infovias, ou seja, o embrião da internet. No caso do porviroscópio, era uma máquina de prever o futuro, espécie de bola de cristal lobatiana que apareceu em "O Presidente Negro", livro para adultos que ele escreveu em duas semanas entre 1925 e 1926, no Rio. Lobato ainda não tinha ido aos EUA, mas anteviu a eleição disputada por um candidato negro e por uma mulher branca... Fantástico, não é?
11. Você tem orgulho de Monteiro Lobato, não é?
Vladimir Sacchetta: Eu adoro Monteiro Lobato, eu o chamo de ‘cidadão escritor’ - o país tem de se orgulhar de Lobato, com todas as contradições e os momentos infelizes de que são feitos os grandes homens... Acho uma grande bobagem ler as má-criações que a Emília fazia com a Tia Nastácia em livros escritos na década de 30 com os olhos de hoje. Não temos de alterar as expressões "racistas" da personagem, mas sim explicá-las para a criança, mostrar que hoje falar desse jeito é inadmissível, esse é o papel do educador. Caçar onça, por exemplo, é crime inafiançável - só que, em 1933, a situação era outra, por isso, as personagens do livro "Caçadas de Pedrinho" caçavam e matavam onça, claro. Aliás, como é que um escritor pode ser chamado de racista, se foi capaz de criar a Tia Nastácia, negra que carrega dentro de si toda a riqueza da nossa cultura popular? Ela é uma síntese de todas as negras que Lobato conheceu na infância, figura importantíssima do Sítio do Picapau Amarelo, espaço multicultural, onde todos convivem, independentemente das qualidades e dos defeitos de cada um.

 

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